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domingo, 17 de fevereiro de 2013

ENSAIO | Anelito de Oliveira


Poetas, políticos e polícias [parte 2]


A imagem-Stevens


Grande parte da poesia produzida nos anos 90 no Brasil é marcada por procedimentos comuns, cada livro parece com outro já lido, uma identificação que diz respeito, sobretudo, aos limites do dizer. A impressão que fica, ao fim de cada leitura, é que havia uma espécie de “código de trânsito” naquela produção que não podia ser subvertido, um código que todos os poetas conheciam “de cor e salteado” e, naturalmente, respeitavam. Esse cumprimento rigoroso do “código” é justamente o que nos faz pensar num controle da sensibilidade, da sensação, que resulta num sufocamento da dimensão empírica do sujeito em função de uma suposta dimensão mais racional.
Tal procedimento teve suas motivações em leituras de João Cabral e dos concretos paulistas, leituras que privilegiaram aquilo que acabou conferindo singularidade a essas poéticas, o racionalismo, leituras superficiais, portanto, já que essas poéticas também têm seu delírio, sua paradoxal transcendência na imanência. Cabral, Augusto de Campos e Haroldo de Campos – Décio Pignatari nem tanto – acabaram se tornando os poetas mais influentes na década de 90, até porque se tornaram os mais presentes na cena poética, uma vez que Carlos Drummond de Andrade e Paulo Leminski, que tinham uma presença marcante, morreram ainda no fechamento dos anos 1980, em 1987 e 1989, respectivamente.
 Drummond “rivalizava”, no bom sentido do Harold Bloom de The anxiety of influence (Oxford University Press, 1997), com Cabral, praticando uma poesia ligada ao dia-a-dia, factual, dialógica; Leminski “rivalizava” com os concretos, praticando uma poesia pop, jovial, “malandra”. Drummond e Leminski conceberam uma linguagem poética, a um só tempo, rigorosa e prazerosa, para lembrar Barthes, que tocava fundo – e ainda toca – na existência do leitor. Esses dois poetas mantinham o elo com a imagem do poeta baudelairiano, o que era quase óbvio no caso de Drummond, nascido na alvorada do século XX, egresso da primeira hora modernista.
Não era tanto de se esperar que Leminski mantivesse tal elo, não apenas devido ao fator idade, mas, sobretudo, devido à intervenção da cultura norte-americana na formatação da sensibilidade de sua geração, através do rock, da “pop art”, do cinema etc. O poeta de La vie en rose, que alardeia em seus últimos dias uma grande admiração pelo cinema – não-holywoodiano, claro – norte-americano, mantém-se ligado à imagem-Baudelaire, bem como a todo o Simbolismo, mantém-se intimamente conectado à cultura europeia, portanto. Talvez a conjunção América/Europa em Lemisnki tenha seu estímulo em Oswald de Andrade: “O cinema americano informará”, como diz o “Manifesto antropófago” (A utopia antropofágica, Globo, 1990).   
O desaparecimento de Drummond e Leminski, dois “poetas fortes”, para falar ainda com Bloom, coincide com o início de um processo de adesão entusiasmada do segmento letrado da sociedade brasileira ao eixo cultural estadunidense. Trata-se, evidentemente, da consumação de um fato que vinha se verificando desde os anos 1960, sempre encontrando resistência por parte da grande maioria dos letrados, que se engajava ardorosamente em lutas contra o chamado “capital estrangeiro”. No fim dos anos 80, essas lutas perdem seu sentido e, automaticamente, a língua inglesa passa a ter primazia em relação à francesa e poetas modernistas norte-americanos, como Wallace Stevens e Williams Carlos Williams, são amplamente difundidos no centro cultural brasileiro, isto é, Rio e São Paulo.
Os grandes debates, então, deixam de ser em torno de poesia para ser em torno de tradução de poesia, especialmente do inglês para o português, uma luta em torno da fidelidade ao original. O poeta paulistano Régis Bonvicino se tornaria ao longo dos anos 90 o principal divulgador da poesia contemporânea estadunidense no Brasil, traduzindo e editando autores como Robert Creeley, Douglas Messerli e Michael Palmer. Todavia, foi num modernista, Wallace Stevens, que muitos novos poetas brasileiros do fim dos anos 80, que queriam se diferenciar dos “marginais” dos anos 70 tanto quanto da disciplina cerebral dos concretos, encontraram um referencial altamente plausível, uma poesia sensata, digamos, sem radicalismos formais nem conteudísticos, sem agonia, sem delírio, numa palavra: sem relações comprometedoras. A propósito, Paulo Henriques Brito, responsável pela tradução de Stevens para uma edição da Companhia das Letras, chega a declarar que aprendeu fazer poesia também com esse exercício (“O filho rebelde de Cabral”, entrevista a Carlos William Leite, Revista Bula, 2008, www.revistabula.com / acesso: 13/02/2013)
Desprovida da profundidade romântica que caracteriza a modernidade, a poesia de Stevens, superficiosa, voltada para a descrição das coisas, nunca para a decidida alteração da ordem natural das coisas, torna-se o paradigma da poesia brasileira que se estabelece nos anos 90. Nesse paradigma, pode-se dizer que os poetas desta última década do século reconheceram um uso da escrita capaz de não repetir aquilo que, para eles, talvez tenha sido um “erro”, a causa dos desastres que perseguiram os poetas da aurora da modernidade aos anos 70. Reconheceram, portanto, uma “política da escrita” mais eficaz, mais apropriada para a “nova ordem” sociocultural, um olhar que direciona o poema não para o dissenso – que está no cerne da política mesma, conforme Rancière –, mas para o consenso, que configura a anulação da política.
As instituições que zelam pela civilidade, sobretudo a Universidade e a imprensa, contribuem de forma decisiva para o estabelecimento desse paradigma, para essa conversão da imagem-Baudelaire em imagem-Stevens, do maldito em bendito, essa migração do poeta de um mundo “sujo” para um mundo “clean”. Setores da universidade e da imprensa acabam por reconhecer bom gosto nesse paradigma e o legitima, cabendo aos poetas colocá-lo, portanto, em prática.


Régis Bonvicino


As instituições que zelam pela civilidade, sobretudo a Universidade e a imprensa, contribuíram de forma decisiva, ao longo dos anos 90, para o estabelecimento de um novo paradigma no cenário poético brasileiro, para uma conversão da imagem-Baudelaire em imagem-Stevens, do maldito em bendito, essa migração do poeta de um mundo “sujo” para um mundo “clean”. Setores da universidade e da imprensa acabaram por reconhecer bom gosto nesse paradigma e o legitimaram, cabendo aos poetas colocá-lo, portanto, em prática.
Coube a Régis Bonvicino dar início a esse processo de “stevenização”, como poderíamos chamá-lo, da poesia brasileira, com seu 33 poemas (Iluminuras), aparecido justamente em 1990, livro em que se confrontam duas sensibilidades, aquela “coloquial-irônica”, que Edmund Wilson identificou num pólo do Simbolismo francês, e outra, racionalizante, não exatamente “sérioestética”, como o crítico norte-americano também definiu o pólo Mallarmé-Valéry. Racionalizante porque já não está em questão a “seriedade”, muito menos a “estética”, mas uma tentativa de racionalizar o poema, o que implica, naturalmente, um distanciamento do lugar do acontecimento poético.
Bonvicino, nesse esforço de racionalização, promove uma considerável alteração no “rosto” do poema, conferindo-lhe um aspecto escritural, de coisa grafada no papel, não mais “soprada” contra o papel, depois de ter sido flagrada no ouvido, como ocorreu no modernismo brasileiro de 22 e 30, no Gullar da A luta corporal, na Tropicália, em poéticas como a de Cacaso, Ana C. e Francisco Alvim, enfim, essa apreensão oral do poético que já nos anos 80 foi responsável pela efervescência da palavra cantada de um Cazuza, um Renato Russo e, também, um Arnaldo Antunes, na senda aberta por um Itamar Assumpção ou mesmo um Péricles Cavalcanti.
O esforço de racionalização de Bonvicino tem prosseguimento no seu livro posterior a 33 poemas, intitulado singelamente de Outros poemas (Iluminuras), publicado em 1993, e em seu Ossos de borboleta (Editora 34), aparecido em 1996, título que é um achado, sim, mas um achado preciosista. Em Ossos de borboleta, Bonvicino atinge o ápice do seu esforço de racionalização e se evidenciam sua impossibilidade de conceber uma poesia totalmente distanciada do lugar de onde o poeta fala, o que se deve ao fato de ser um poeta egresso do ambiente nada “clean”, para não dizer insalubre, dos anos 70.
Não se trata de poeta dos anos 90, tanto que acertadamente não foi incluído na antologia que Heloísa Buarque de Hollanda organizou dessa geração, Esses poetas (Aeroplano, 1998). Seu livro Céu-eclipse (Editora 34, 1999) tem, sobretudo, o mérito de mostrar por que Bonvicino é prevalentemente um poeta intervalar, do intervalo entre os anos 70 e 90. Ainda é um poeta que experiencia a cidade, que anda pelas ruas, que se envolve, de alguma forma, com o mundo exterior, apreende fragmentos desse mundo.
Contudo, estão no Régis Bonvicino dos três primeiros livros citados – 33 poemas, Outros poemas e Ossos de borboleta –, bem como em muitos dos poemas de Céu-eclipse, as diretrizes básicas da poesia da Geração 90, sendo a principal delas o posicionamento do poeta na cena poética, no instante de concepção do poema, que é um posicionamento de observador, ideologicamente descomprometido, tanto quanto possível, com o que observa. O próprio Bonvicino logra sugerir o que sucede numa observação descomprometida e numa observação comprometida. Observemos dois momentos de Céu-eclipse:


O sol

O sol é céu
em forma de azul
que a água não repete
mesmo em reflexo

mente
é a forma de corpo
sentindo-se
resignada

um e outro
como o vento na água


031197

Eu também moro nas ruas. Uma ponta de cigarro na orelha e um cinzeiro – na mão. “Você não parece morar nas ruas”. Um caco de dente na boca. Naquele instante, edifícios saqueavam sombras, insones, parindo cobras. Ele poderia subitamente ter sacado a faca, na calçada, disseram. Há margens debruadas de luzes. Edifícios cúbicos movendo-se sob arcadas de samaúmas. Esquinas defuntas? E, sob um arco, down town, lâmpadas inchadas medindo o horizonte. Correm vozes em desordem, mudas, e um guincho talvez de guaxanim. De tarde, corvos latindo nas árvores e cacto abrupto da casa. Estradas guiando noites. Quase ao lado do Johnnie´s, Coffee shop, com seu leve jogo de luzes. Paredes não se encolhiam como sono. Acqua & branco. Alba imóvel dentro do quarto.


Nisso que estou chamando de observação ideologicamente descomprometida, a realidade observada mostra-se como algo facilmente manipulável por parte do observador, não resistindo ao seu modo de observação, ao seu ponto de vista: “Sol é céu”, “mente/ é forma de corpo”, “um e outro” são “como o vento na água”, ou seja, nada de anormal, tudo muito natural. Por outro lado, a observação comprometida com o que se observa, empenhada em conhecer intimamente a realidade observada, interpela o observador: “Você não parece morar nas ruas”, diz essa realidade. E o observador libera a escrita, conota, duvida, cogita: “Ele poderia subitamente ter sacado a faca”.
A realidade, quando observada de perto, com um sujeito comprometido com sua compreensão, revela-se ativa, ofensiva, agressiva. O posicionamento distanciado da realidade observada é, na poesia dos anos 90 no Brasil, uma tentativa, da parte do poeta, de se preservar de um possível envolvimento comprometedor com o entorno, uma precaução em relação a possíveis agressões perpetradas pelo exterior, pelo “lado de fora” do pensamento, como diria Foucault. Trata-se de um posicionamento, portanto, estratégico, político, que evita o confronto. A base implícita desse posicionamento não poderia ser outra senão um policiamento da sensibilidade, um controle das forças emotivas.


Carlito Azevedo


Não é Bonvicino, como foi dito, que radicaliza esse tipo de posicionamento diante da realidade, não cabendo a ele, assim, o mérito ou demérito pela articulação definitiva da poeticidade com a politicidade e a policialidade na poesia dos anos 90 – o poeta paulista, talvez até involuntariamente, apenas abre caminho para tal procedimento. Quem realiza essa articulação definitiva é Carlito Azevedo, poeta típico dos anos 90, cuja estreia se dá justamente em 1991, com Collapsus linguae (Imago), uma poesia basicamente literária, “sampleando” as mais diversas poéticas, do poema-minuto modernista às destruições morfossintáticas dos concretos.
Percebe-se, ao lado dessa vontade de conciliação de linguagens, inegavelmente ligada ao desejo de legitimação de um discurso, um pendor espontâneo à ironização que confere um tom “decadentista” a Collapsus linguae, um movimento no sentido de resgatar o horizonte poético jocoso de um Tristan Corbière, por exemplo, um movimento que nunca logrou despertar muito o interesse dos poetas brasileiros. Talvez apenas Sebastião Uchoa Leite, Leminski e o primeiro Bonvicino, de livros como Régis hotel (1978) e das versões de Jules Laforgue, tenham sido os poetas brasileiros contemporâneos mais sensíveis a essa vertente “coloquial-irônica”, da qual parecia, naquele início dos anos 90, que Carlito Azevedo se tornaria um mestre.
O primeiro livro de Carlito nos revela um poeta geneticamente bem humorado, transitando em meio aos enunciados autoritários do mundo artístico-literário, sem querer aderir a nenhum deles, repetindo todos, respeitando todos. Tratava-se apenas, ao final das contas, do poeta estratégico, que desconfiava de tudo que ouvia já no início do processo de concepção do poético, um poeta que só assimilava o “estalo”, o ruído, após proceder à sua estilização, como está dito no poema “Da inspiração”, que é o atestado preciso da poesia dos anos 90 no país:


Desconfiar do estalo
Antes de utilizá-lo

Mas sendo impossível
De todo aboli-lo

Desconfiar do estalo
Dar ao estalo estilo      



NOTA Este texto é a segunda parte de um ensaio apresentado originalmente como conferência em 2000 na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que permaneceu inédito e está publicado atualmente em Orobó | Kadernu di Ynwenssões www.revistaorobo.blogspot.com.br ANELITO DE OLIVEIRA

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

ENSAIO | Anelito de Oliveira



Poetas, políticos e polícias [Parte 1]



À procura do elo perdido


A poesia brasileira aparecida ao longo da década de 1990 foi vista com bastante entusiasmo, principalmente por pesquisadores universitários, por poetas estabelecidos que se reconheciam como seus influenciadores e, claro, pelos próprios novos poetas. Pode-se falar mesmo de uma certa unanimidade, entre os produtores e receptores dessa poesia, em torno de um caráter positivo da diversidade de linguagens que caracteriza aquele momento, tanto em termos formais quanto conteudísticos, o que não aconteceu em períodos anteriores, sempre marcados por posicionamentos ortodoxos, pela intransigência dos grupos fundamentados em valores estéticos e ideológicos.
Nos anos 90, cada um passou a fazer o que queria fazer: poesia verbal, visual, videopoesia, infopoesia, poesia sonora, soneto, poema-piada, balada, hai-kai, poesia negra, poesia gay, poesia feminina, neobarroca, modernista etc, um vale tudo. Assistimos, sem dúvida, a um espetáculo de democracia na cena poética, reflexo natural da chamada “abertura democrática” de 1985. Nunca se escreveu tanto, nunca a produção de livros de poesia foi tão grande, nunca houve tantas revistas voltadas para a divulgação de poesia.
Impossível negar a importância de toda essa efervescência para o processo sociocultural brasileiro como um todo, impossível negar a pertinência da democratização do espaço poéticoliterário. Não é isso, portanto, que pretendo sequer sugerir nestas linhas, não quero, para lembrar Leminski, “fazer chover no piquenique” da geração 90, mas apenas introduzir uma interpretação que me parece relevante, uma problematização fundamental em toda tarefa de interpretação, que é a de restabelecer o elo entre a voz e o lugar.
Esse elo, que corresponde à relação entre ideias e coisas, perde-se, oblitera-se ou dispersa-se inevitavelmente quando se fala, e, mais ainda, quando se escreve, ainda mais quando se trata de uma escrita incontrolavelmente conotativa, como é o caso da escrita literária e, de maneira muito particular, da escrita poética. Quando se escreve, perturba-se, inevitavelmente, a relação natural entre planos ideal e real; quando se escreve muito, a tendência é essa perturbação aumentar, tudo se nos apresentando embaralhado.
A perturbação é inerente à escrita, que vem a ser o alicerce da democracia, como argumenta Jacques Rancière em Políticas da escrita (Editora 34, 1995, p. 9-15): 
Ora, a escrita é aquilo que, ao separar o enunciado da voz que o enuncia legitimamente e o leva a destino legítimo, vem embaralhar qualquer relação ordenada do fazer, do ver e do dizer. A perturbação teórica da escrita tem um nome político: chama-se democracia. (...) Há democracia – e política, consequentemente – porque há palavras sobrando, palavras sem referente e enunciados sem pais que desfazem qualquer lei de correspondência entre a ordem das palavras e a das coisas. A deserção democrática da incorporação comunitária é solidária da deserção literária da encarnação. Literatura e democracia são dois modos de invenção de quase-corpos ou de incorpóreos cujo dispositivo fragiliza as encarnações e as identificações que ligam uma ordem do discurso a uma ordem das condições. Essa comunidade estética da separação é uma comunidade política da deslegitimação.


Do Barroco a Baudelaire


Nossa “comunidade” ocidentalizada tem em comum a experiência do “veto ao ficcional”, do “controle do imaginário”, como explorou exaustivamente Luiz Costa Lima (O controle do imaginário & A afirmação do romance, Companhia das Letras, 2009), toda uma tradição de repressão que a arte tem procurado, desde os antigos trágicos gregos, rechaçar, um ideal intimamente ligado à vontade de humanização do homem, como ficou modernamente dito pelos românticos alemães, de Goethe a Novalis. Rechaçar a tradição da repressão equivale a instaurar o “regime da letra órfã”, nos termos de Rancière, independente de “pai”, a letra arbitrária, selvagem, subversiva, que não depende de um Senhor para legitimá-la, como se ela não pudesse realmente estabelecer-se na presença do “pai”.
Este entendimento está claro, a meu ver, nas três principais poéticas da Modernidade ocidental: a barroca, a romântica e a simbolista, poéticas da desrepressão, pode-se dizeer, marcadas que são pela vontade de fazer emergir as sombras, as incompletudes, os dilaceramentos que constituem o sujeito no mundo. Interessante notar que aquilo que consideramos Barroco é relativamente “vizinho” de dois eventos de “liberação” da letra, o Renascimento e a invenção da imprensa. Barroco, Romantismo e Simbolismo são poéticas que, diferentemente da poética clássica de extração romana, não se relacionam de forma autoritária com o real, o que lhes permite colocar em xeque qualquer primado absolutizante de verdade, de belo, logrando explicitar, consequentemente, a crise do sujeito.
O reconhecimento do significado profundamente positivo dessas poéticas veio, a partir do final do século XIX, dos próprios modernismos, sobretudo, que no fundo são, por toda parte, reverberações do Barroco, do Romantismo e do Simbolismo, como, frisando as duas últimas poéticas, reconhece Alfredo Bosi, no seu O ser e o tempo da poesia (Cultrix, 1990, p. 151):
(...) a verdadeira poesia seguiu a senda aberta pelos românticos e pelos simbolistas inventando mitologias libertadoras como resposta consciente e desamparada às tensões violentas que se exercem sobre a estrutura mental do poeta. O Surrealismo e o Expressionismo são viveiros de mitos pessoais ou de pequenos grupos em que se projetam desejos de expansão titânica ou demoníaca de homens cuja força de ação se inflete sobre si mesma, incapazes que são de dominar sistemas cada vez mais anônimos. Demiurgo da própria impotência, o poeta tenta abrir no espaço do imaginário uma saída possível.
Dessas três poéticas descende a imagem que temos do poeta na modernidade. O poeta como estranho, o albatroz baudelairiano, “exilé sur le sol”, impedido de voar pelas próprias asas gigantes, o satã, o amaldiçoado, o maldito, o rebelado, o abandonado, o isolado. Tudo isso vale para Baudelaire tanto quanto para Rimbaud, Mallarmé, Blake, Hölderlin, Whitman, Cruz e Sousa etc. Baudelaire é a imagem-síntese do poeta na alta modernidade, o lírico que flana entre as ruínas do capitalismo, como o fixou Walter Benjamin (Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo, Brasiliense, 1994), mas também o poeta que estabelece uma conexão entre a modernidade, socioeconomicamente entendida, e o Barroco, operando com uma “raison baroque”, como mostra Christine Buci-Glucksmman (La raison baroque: de Baudelaire a Benjamin, Galilé, 1984).
Essa imagem baudelairiana do poeta contém, portanto, uma estranheza psíquica, cultural, espacial e temporal, toda uma estrangeiridade que, até mesmo em função da sua encarnação no século XIX, passou a constituir a identidade do poeta nas primeiras três décadas do século XX. A imagem-Baudelaire está em Maiakóvski, em Lorca, em Pound, em Eliot, em Celan, em Trakl, em Vallejo, em Pessoa, em Sá-Carneiro, em Paz; está, em termos nacionais, em Mário, em Oswald, em Emílio Moura etc. Entretanto, no caso do Brasil, essa imagem aparece encarnada já no século XIX em Cruz e Sousa, que, através de Baudelaire, passou a “pensar a arte como espaço de representação dos abismos, da dor e do horror”, conforme o lúcido olhar de Ivone Daré Rabello (Um canto à margem: uma leitura da poética de Cruz e Sousa, Nankin/Edusp, 2006).
Também assimilam essa imagem poetas como os mineiros Alphonsus de Guimaraens e José Severiano de Rezende, mas é Cruz e Sousa que, com seu negro inferno, confere um traço diferencial brasileiro a essa imagem. Cruz e Sousa não é, obviamente, paradigma para a produção poética brasileira do século XX, apesar de sua fortuna crítica, de seus inúmeros adoradores e do respeito que muitos nomes ilustres lhe devotaram. Cruz e Sousa, que mais se aproxima da imagem baudelairiana do poeta, tem alguma coisa a ver com a desconexão dos poetas dos anos 1990 com Baudelaire no Brasil? Com esta pergunta, retornemos ao agora.


NOTA | Este texto é a primeira parte de um ensaio originalmente apresentado como conferência em 2000, na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que permaneceu inédito e, neste momento, está publicado em Orobó | Kadernu di Ynwenssões www.revistaorobo.blogspot.com.br. ANELITO DE OLIVEIRA

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

CRÍTICA | Anelito de Oliveira


Convite ao desvio


Compreende-se facilmente o silêncio da crítica, ou do que ainda existe sob esse nome, em relação à poesia, especialmente aquela que se apresenta no suporte livro. Não é fácil pensar o que se mostra em palavras, rimas, ritmos, estrofes, quando temos plena consciência – ainda que também saibamos se tratar de uma consciência possível – de que a questão não se esgota nisso que vemos e lemos. Ouro Preto, livro de poemas de Mário Alex Rosa recentemente publicado pela Scriptum, é exemplo da complexidade da poesia escrita e enfeixada em livro. Aparentemente, é uma poesia conformada ao enunciado, que não teria nada a nos dizer para além do que já está dizendo, uma linguagem que se bastaria a si mesma. Assim, uma leitura ideal dessa poesia seria aquela imanentista, subordinada ao texto, “close reading”. Mas, para além da aparência, Ouro Preto é, já a partir do título, um convite ao desvio do visível, do que se dá a ler, em função do que, numa experiência lírica muito honesta, que é a desse autor mineiro, escapa à sistematização, a um pensamento ainda que sensível, “poético”. 
Ouro Preto nos convida a ultrapassar a exterioridade – uma cidade – em direção à interioridade, ao sujeito. Nesse movimento – pensado, obviamente – é que uma voz vai-se distinguindo de outras tantas vozes que abordaram Ouro Preto – de Cláudio Manuel a Affonso Ávila, passando por Murilo e Cecília. Não é só o timbre do poeta que é diferente, mas, sobretudo, o “logos” que subjaz a essa voz, o seu modo de pensar Ouro Preto, que é “sentimental”, no sentido schilleriano, marcado pelo sentimento da perda, do desligamento, de um choque, enfim, no plano afetivo. A cidade de Ouro Preto, com seus lugares hoje catalogados como históricos, é o cenário do objeto dessa perda, que é o amor. Falar de Ouro Preto, ao longo de todo o livro, significa falar desse amor perdido, e vice-versa, o que resulta numa conjunção muito fértil – porque problemática – de elementos públicos e privados. Fértil porque estimula a criação; problemática porque subordina a criação a um horizonte ideal, que é o de um amor romântico, um horizonte afim, consequentemente, de uma Ouro Preto ideal, cultivada por um sujeito que, no limite, passa a ser também idealizado.
À medida que joga com dados hauridos na experiência, numa relação amorosa, Alex Rosa demonstra que não é um poeta idealista no sentido forte. Suas cenas de amor se passam na Ponte de Antônio Dias, na Casa Guignard, na Ponte de Marília, na Praça Tiradentes etc. Esses dados concretos, reais, não fazem dele um poeta realista, claro, mas nos levam a lê-lo, no mínimo, como um poeta de “consciência crítica”, para recordar Affonso Ávila. O procedimento idealista que permeia Ouro Preto, o pessoano “fingir que é dor”, porta uma intencionalidade, evidentemente (a consciência se define pela intencionalidade, pensava Husserl, como se sabe), sobre a qual é preciso refletir. O livro de Alex Rosa se coloca sob o signo do diálogo, como nos alerta o poema de abertura, com a tradição literária, uma intenção implícita na recorrência a Ouro Preto, “cidade letrada” (Rama) por excelência.
Ressoando Gullar, Drummond, Alphonsus, o poema de abertura, “Cantiga que não responde”, inscreve, no rastro da pergunta renitente (“Quem poderá dizer”, “Quem poderá responder”, “Quem salvará a menina”), o desejo de um poeta de que a poesia possa “resolver” algo na ordem do simbólico que, por sua vez, “ordena”, desde o âmago, o real socialmente compartilhado, o plano com que lidamos na cotidianidade. Mário Alex Rosa, não há dúvida, acredita no poder ordenador da poesia, o que se percebe na cautela com que elabora seus poemas, na vontade inequívoca de manter o controle do que escreve. Isso explica, em termos conteudísticos, por que a abordagem do amor perdido nunca descamba para desabafos, nunca resulta nas “baixarias” do discurso amoroso. O ideal estético, de uma poesia bastante disciplinada, “limpa”, pensada, prevalece mesmo em face da premência, assentada no sofrimento, que o sujeito tem de falar de si, de abrir seu “coração”.
Esse ideal estético é antibarroco ou, se quisermos, defensivo em relação ao barroco, como o poeta revela em “Diariamente na Ponte de Marília”: “A rima é velha, até mesmo gasta,/ mas volto a ela para dizer que/ não sou homem barroco,/ condição tão vária; estou oco?/ Estou louco?/ Não explica nada”. Este poema (que não é simples, que, como tantos do livro, apenas se traveste de simples, é idealmente simples) é desnecessário para a configuração do perfil antibarroco do poeta. Seu desejo de ex-plicação – isto é: de dissolução das “plicas”, das dobras que configuram o barroco, como postula Deleuze -, uma racionalização para-clássica, fundamenta o gesto poético em Ouro Preto: ex-plicar um evento amoroso, ex-plicar uma perda, ex-plicar lugares onde se passou o amor perdido. Poemas como “Notação”, “Exposição”, “Da falsa formação”, “A arte de Elizabeth Bishop”, “Conversa num café” e “Lendo E. D.” escancaram esse desejo de ex-plicação por parte do poeta, um desejo de clareza contrário, à primeira vista, ao barroco.
Todavia, tão – ou mais – importante do que o poeta diz em “Diariamente na Ponte de Marília”, ou seja, que não é homem barroco, é o que ele também já está dizendo no rastro da negação: que ser barroco não é uma questão apenas de significante, de rima, de superfície, mas também de significado, de substância. Esse poema é falsamente simples, volto a dizer, porque não se esgota no que diz, no enunciado, na relação de um sujeito com seu objeto amoroso, porque implica a tradição literária, porque pensa a partir de um poder ordenador da poesia, no qual o poeta acredita e acaba por ser um dos complicadores do seu gesto. Assim, diz ainda o poema em questão: “O vale cedo ou tarde/ invade a tua casa, a tua cidade./ Não espera Marília passar,/ ela um único pastor/ soube amar”. 
Em face deste desdobramento, que sugere uma intempestividade afim do barroco, pode-se dizer que, apesar do ideal para-clássico do poeta, o mundo ouropretano visado se barroquiza, entra em ebulição e contagia o sujeito, colocando-o numa situação crítica. Daí, no desfecho do poema, lemos: “A minha rima é pobre/ mas ainda trago feito nobre/ o amor que ora te ofereço/ na desgraça de quem por pouco/ não se mata./ Mas, se por azar outra vez errar,/ esse diário não será tarde demais?”. O mais importante neste poema irregular, errado e errante, não é a questão  esteticista, a recusa do barroco e o intertexto com Gonzaga, mas a sincera impossibilidade, da parte do sujeito, de não jogar com a própria vida no ato de criação, o que significa acionar um conjunto de forças que o sujeito não controla totalmente, não domina, forças que, na realidade, dominam esse sujeito, oprimem-no e o obrigam, por outro lado, a travar uma dolorosa luta pela emancipação.
Em poemas como “Ouro Preto”, “Oito de julho” e “Visita”, os mais consistentes do livro, assistimos à narrativa dessa luta. Não é uma luta circunscrita ao poema, a drumondiana luta com palavras, mas uma luta pela compreensão do entorno do outro e de si. O que anima essa luta é o ideal, sem dúvida, da poesia como força ordenadora, mas esse ideal esbarra sempre nos “muros” da história (“os homens endurecidos/ não sabem abrir porta”), que se revela uma contraforça desordenadora. No desfecho de “Visita”, Mário Alex Rosa escreve que “Este poema apenas tangencia/ a falta que nunca acaba/ o fim de todas as coisas”. Trata-se de uma visita a Ouro Preto, à história, à tradição literária, ao amor romântico etc. Trata-se de uma visita movida por um ideal e, ao final, um reconhecimento da frustração desse ideal. Mas é justamente nesse reconhecimento que se revela o fundamento crítico da poesia de Ouro Preto que, no nível do enunciado, não é tão fácil perceber, mas que está ali, para além do dito, na forma cultivada há tantos anos por esse discreto e comovido poeta.       

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

DEBATE | Anelito de Oliveira

Apropriações de Drummond


O que está acontecendo com a cultura brasileira hoje? Por que tanta recorrência a Drummond? Claro, está fora de questão, como sempre esteve para mim, a importância da obra de Drummond na poesia moderna em geral. Mas durante muito tempo - dos anos 60 aos 90 -, Drummond era mais uma fotografia na parede das elites culturais brasileiras do que um poeta para se ler e se cultuar. Aliás, era mais uma personalidade poética, uma imagem romantizada de poeta, que uma obra. Se não fosse a atividade de cronista, Drummond sequer tinha ficado na mídia durante a longa noite ditatorial, período em que escreveu, inclusive, muita poesia de péssima qualidade, como os versos de circunstância em homenagem a figuras econômica e politicamente importantes.
Hoje, há uma tendência a um culto incondicional a Drummond, acrítico, que parece ter a ver com a eterna consciência culpada das elites brasileiras. Parece que a proposta é perceber um Drummond-porto-seguro, altamente positivo, que, se existe, nunca foi nem será o mais interessante. O que interessa é o Drummond instável, que não encontra explicação para nada, que está sempre à beira do suicídio, o Drummond-José que se reconhece confrontado com as estruturas sociais de um país velho demais, colonial demais, casagrande demais, mineiro demais. O que interessa - e parece que não é o que está interessando nas apropriações conservadoras, acadêmicas, indébitas, de Drummond - é o Drummond que escreveu: "o ódio é o melhor de mim". 
Que Caetano, Chico e Fernanda, que não ignoram o fundamento agonístico da experiência poética, contribuam para mostrar a todo um povo boçal - deseducado pela Globo, pelos Cadernos Culturais e por medíocres professores de literatura - quem é realmente o poeta Drummond que tanto respeitamos.


NOTA: Comentário escrito no Facebook em face de notícia sobre leitura - ver no Youtube - que Caetano Veloso, Chico Buarque e Fernanda Montenegro fazem de poemas de Carlos Drummond de Andrade. www.facebook/anelitodeolivei

domingo, 20 de janeiro de 2013

DEBATE | Anelito de Oliveira

Questão cultural hoje

O que se passa no país como um todo hoje é uma destruição da cultura pelo Estado e seus comparsas. Não existem Secretarias de Cultura em Minas Gerais, na prática, tampouco Ministério da Cultura e outros órgãos de potencialização da cultura. O que existe, na verdade, são instâncias de negociação da cultura em prol dos negociantes do país. Quem é a Secretária de Cultura de Minas Gerais? Quem é a Ministra da Cultura? Não reconheço nenhuma autoridade nessas figuras para falar pela cultura. É muito compreensível que sequer falem pela cultura, já que foram agraciadas com os respectivos cargos para calarem sobre a cultura. 
Como entender, aliás, que PT e PSDB não se diferenciem radicalmente em relação ao tratamento institucional da cultura? Claro que a democratização, que caracterizou a gestão Gil/Juca - na linha do que ocorreu em outras gestões do PT - é um traço importante, mas ainda foi e é pouco. Não há nem haverá jamais gestão cultural autêntica no país sem enfrentamento frontal dos valores da indústria cultural, que significa enfrentamento dos paradigmas das elites estadunidenses arraigados nos seus sócios nos canais de TV, nos jornalões, nas gravadoras, nas rádios, nas editoras, nas produtoras e distribuidoras de cinema e até nas universidades. 
Os gestores de cultura que nos são impostos a cada dois e quatro anos não passam, na maioria das vezes, de bobos da corte, encantados com o cargo que ocupam porque sabem, no fundo, que num país com densidade crítica jamais seriam lembrados para representar uma área decisiva para toda sociedade. Em síntese, é este meu ponto de vista: nós, que estamos do lado da cultura, precisamos enfrentar o Estado, não pessoas - ministrazinha, secretariazinhas e secretariozinhos de uma ideia equivocada, burguesa, mesquinha, de cultura, ou seja, cultura como alta cultura. 
Enfrentar o estado é tarefa coletiva, política, organizada. Precisamos retomar os Encontros populares de cultura, Festivais de cultura, publicações alternativas, movimentos culturais os mais diversos, inventar coisas radicais, puxar, sobretudo, um grande movimento contra as safadas leis de incentivo à cultura, esse expediente neoliberal que engessou os fazedores de cultura no país. Como disse o saudoso Itamar Assumpção, numa canção-manifesto do seu "Pretobrás", "porcaria na cultura tanto bate até que fura". 
As elites - e agora me lembro de outro músico maldito, Mr. Elthomar Santoro Jr., de uma cidade onde o prefeito ousou até acabar com a Secretaria de Cultura, a Montes Claros de Darcy Ribeiro! - "emporcalharam" a cultura brasileira. Precisamos lutar, lutar e lutar contra esse estado de coisas e não nos beneficiarmos, como muitos espertos têm feito, desse estado (deplorável) de coisas. Na cultura, como nos demais departamentos da sociedade brasileira hoje, falta coragem e sobra covardia.


NOTA: Texto escrito como comentário a uma postagem do poeta, jornalista e pesquisador João Evangelista Rodrigues no Facebook. www.facebook/anelitodeolivei

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

ENSAIO | Anelito de Oliveira

A lebre e a serpente



1. Fricções


Ao final da 10ª Flip (Festa Literária de Paraty) 2012, dia 08 de julho, o poeta carioca Carlito Azevedo dedicou um texto a Carlos Drummond de Andrade, homenageado pelo evento, com o título de “Querido príncipe”. O trabalho foi estampado na última página do Caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, no mesmo dia. Azevedo teria levado o público às lágrimas, segundo o noticiário do dia sobre o evento, com a leitura do texto, impacto decisivo para a classificação e consagração do trabalho pelos formatadores dos fatos, jornalistas, editores. Em função do que causou ao público, da comoção provocada, “Querido príncipe” não seria apenas uma carta a Drummond, mas já um poema em prosa, um caso de poesia, portanto. Será que é mesmo? Suspendendo o senso comum sobre poesia, podemos friccionar esta pergunta em várias direções, racionalizá-la de modos diversos, sem pressa de encontrar uma resposta.
Um primeiro modo: em direção à poesia; um segundo: em direção à cultura em geral; e um terceiro: em direção ao autor.  Definir “Querido príncipe” como um caso de poesia, como um poema em prosa, é admissível, claro, mas problemático. A reação do público, qualquer público, é momentânea, ocasional, e não acompanha o produto estético, seja qual for, senão como referência distante, primária. Como tal, não deixa de ser importante – que o digam Jauss e seus sucessores na estética da recepção –, mas é sempre uma importância relativa, que não pode ser absolutizada a ponto de constituir um selo de qualidade total de uma obra de arte. Assim, lendo “Querido príncipe” na Ilustríssima - tudo muito machadiano, claro, ou brasiano -, fora da festa literária, tendemos a estranhar negativamente aquilo que, no contexto de uma homenagem, soa familiar.
Trata-se de estranhamento produtivo, que tem a ver com um desejo de perceber o que lemos de um modo mais sagaz, que seria aquele desejado, de alguma forma, confusamente desejado, pelo sujeito, por aquele que subjaz à máscara autoral, o recalcado como parte do jogo literário, do mascaramento exigido, imposto, pelo mundo literário – o sujeito nunca mente. Assim, estranhamos, no texto de Carlito Azevedo, a intimidade entre o eu que ali diz e o outro sobre quem esse eu diz, entre enunciador e enunciado, a intimidade que nos faz crer numa velha amizade, mais, num grau elevado de parentesco. À medida que estranhamos, rompemos com a natureza familiar de que o texto se reveste, aceitamos, no mínimo, lidar com a possibilidade de estarmos diante de algo como uma familiaridade postiça, artificiosa, entre um eu pós-moderno, digamos, e outro moderno, aliás, criticamente moderno. 
O eu se volta para o outro como se ambos, Carlito Azevedo e Carlos Drummond de Andrade, compartilhassem, ou tivessem compartilhado em algum tempo, uma relação altamente harmônica, uma mútua identificação, uma cumplicidade ética, estética, humana. E, neste caso, o fato de se tratar de um “constructo” no plano ideal não pode ser evocado como algo que torna o enunciado menos real; ideal e real, evidentemente, complementam-se na dinâmica mesma da configuração do poético: o ideal é real, para lembrar Hegel, e vice-versa, para um poeta, o que nos remete sempre à natureza indeterminada do real. Ironicamente, o sentimentalismo, chegando às raias do ridículo, a pieguice que desmerece o que dignifica a obra do homenageado, é, em “Querido príncipe”, o atestado preciso do quanto o célebre poeta carioca se difere do modernista profundamente mineiro, uma diferença, pode-se dizer, absurda.
O sentimentalismo, melhor, o derramamento, constitui uma espécie de reconhecimento, por parte do eu, de que, na contramão de Rimbaud, não é realmente o outro. E gostaria de sê-lo?, eis a questão. Depende, como tudo na cena cultural brasileira dos anos 1990 para cá, depende do que o sujeito “ganha” com isso, já que sua ação se define objetivamente como interessada,  como uma ação no mundo das trocas simbólicas – trata-se do campo das artes -, mas nem por isso menos materiais. Naquela situação, numa homenagem a Drummond, sim, o eu gostaria de ser o outro visado, mas no espaço literário em geral, configurado em termos sociohistóricos, não, claro que não. Carlito Azevedo está vinculado a um sério processo de negação do poeta mineiro, de tudo aquilo que esse poeta representa de mais autêntico, um processo que poderíamos entender como sendo de desdrummondianização da poesia brasileira.


2. A cabralização


O que Drummond representa de mais autêntico é, sem dúvida, a politização, sem precedentes, da poesia local, no sentido de investi-la insistentemente da perturbação, como diz Jacques Rancière no seu Políticas da escrita, do corpo social. É o poeta de um permanente dissenso, que não pode ser atribuído apenas à parte literária nem ao todo cultural, mas a uma dramática relação entre a parte e o todo, entre literatura e cultura. A compreensão astuciosa, por parte de toda uma geração – que tem em Carlito Azevedo o seu legítimo representante – disto que é Drummond impulsionou, sem dúvida, o processo de desdrumondianização nos anos 1990, quando Drummond – morto realmente em 1987 – já tinha morrido potencialmente no âmbito da poesia nos anos 1960, quando passa a ser mais uma referência de cronista, “mestre de coisas”, na expressão de Haroldo de Campos em Metalinguagem e outras metas, no sentido também de generalidades, não mestre de texto rigorosamente, de poesia autônoma, intransitiva.
Com a ausência física de Drummond, de uma personalidade literária assustadora, como o texto de Carlito, aliás, informa, João Cabral passa a ser a referência maior de poesia no país, o exemplo de poeta a ser seguido, reverenciado, imitado. No país quer dizer, óbvio, no eixo Rio-São Paulo e suas extensões culturais, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, onde fervilha com mais vigor a indústria cultural. As coletâneas que Carlito Azevedo publicou nessa década – Collapsus linguae, As banhistas e Sob a noite física – são exemplos notáveis desse processo de cabralização da poesia brasileira, uma cabralização diferente – reacionária, pode-se dizer – daquela que encontramos arraigada no projeto da poesia concreta, num Augusto de Campos, especialmente, bem como num Sebastião Uchoa Leite ou num Armando Freitas Filho. Nestes, Cabral é referência de materialização, de plasticidade, de mundo das coisas, ao passo que, para a geração de Carlito, Cabral é referência de desmaterialização, de racionalização, de mundo das ideias – e, pior, fixas.
A cabralização da poesia brasileira por Carlito Azevedo e sua geração – grande parte dos poetas publicados pela Sete/7 Letras, pela revista Inimigo Rumor e pela Coleção Ás de Colete da CosacNayfi, em edições bem cuidadas pelo excelente editor de poesia que é o próprio Azevedo – nos anos 1990 logrou “destruir” com mais perspicácia a referência drummondiana, que atualizava a referência baudelairiana, fundante da lírica moderna em sua vertente francesa. Pode-se falar, certamente, numa espécie de “destruktion”, no sentido heideggeriano, de uma destruição da natureza metafísica, marcada pelos universais, que perseverava na poética drummondiana como um todo, como princípio criativo – o homem, a verdade, o sentimento. Dessa destruição, surgiu a poesia objetiva, asséptica, dos anos 1990,  que nos apresenta um poeta cordial, disposto a “negociar” o que deseja dizer, conforme o viu Heloísa Buarque Hollanda na sua antologia Esses poetas. Como se destrói a referência drummondiana, afinal?, é a questão que não pode permanecer ignorada, que precisa ser pensada suficientemente.
Esta pode ser uma via de pensamento. Vejamos: “Querido príncipe” não é rigorosamente um poema em prosa, na esteira da tradição simbolista, que constitui uma radicalização de preceitos da poesia moderna, não da prosa. O poema em prosa tende a um “dehors”,  a um fora, da literatura, para lembrar o instigante La pensée du dehors de Michel Foucault sobre Maurice Blanchot, a um movimento de supressão da literatura com a literatura, de tal forma a expor a “língua vernacular”, como queria o Conde de Lautréamont, conforme sublinhou de modo preciso Kristin Ross na sua reflexão sobre o campo social na obra rimbaudiana em The emergence of social space. No texto de Carlito Azevedo, o movimento é justamente oposto, em direção ao lado de dentro da literatura, movimento que em si mesmo constitui postulação de que há um lugar exclusivo da literatura, lá onde leitores e autores – que também são leitores; tudo se reduziria ao mundo da leitura – confundem-se, irmanam-se, harmonizam-se.


3. Aporias


“Querido príncipe” não é um poema em prosa, mas quer ser; é, na verdade, uma carta, um enunciado relacional, transitivo, mas não quer ser só isso, uma carta. A dinâmica do ser/não ser, que pode até ser tomada apressadamente como coisa drummondiana, a hesitação entre dois estados formais antagônicos, indica, suficientemente, um processo de racionalização que desdiz, por si só, a aparência de naturalidade de que o texto está revestido. O que lemos em “Querido príncipe” é racionalizado, mas não racionalizado como tudo que deriva do pólo “sentimental” conceituado por Friedrich Schiller; é uma outra racionalização, mais complexa, tropical. “Querido príncipe” parece, sobretudo, um discurso verdadeiro, uma declaração de amor de um discípulo a seu mestre, e, por isso mesmo, logra embaralhar os dados da verdade, enredando-nos nas aporias da própria verdade.
Enquanto discurso verdadeiro, “Querido príncipe” teria Drummond como objeto direto, exclusivo, seria um dizer sobre Drummond e para Drummond, mas o fato é que, já a partir do título, é um texto que se coloca sob o signo do desvio. Como no famigerado conto de E. A. Poe, “The purloined letter”, que Jacques Lacan prefere perceber como a “carta extraviada” no seu “Seminário sobre a carta roubada” – a “carta extraviada” é aquela que se perdeu num percurso –, o problema de “Querido príncipe” é pertinente a seu objeto, diz respeito ao que realmente está sendo visado pelo sujeito. E este é o primeiro a declarar que o objeto não é Drummond: “Mas não, não é um poema para lembrar de você. Aí está você, aqui estou eu.” De fato, há ali um sujeito em função de um processo de verdade, tal como propõe Alain Badiou no seu Para uma nova teoria do sujeito, um processo de verdade que induz o surgimento do sujeito.
Se nada é espontâneo, natural, no texto de Carlito, a questão decisiva em relação a “Querido príncipe” é sobre a natureza da verdade, de que verdade, afinal, trata-se ali, em que verdade o sujeito se revela imbricado. Pode-se dizer, nos limites da simples razão, que se trata de uma verdade perversa, que não se inscreve exatamente no horizonte da “poiesis”, da criação, mas sim no horizonte da “paideia”, da cultura, com suas implicações historiais. Uma verdade perversa se constrói sutilmente, nas entrelinhas, sem sobressaltos, diluindo animosidades perigosas, aproximando referenciais incompossíveis, pertencentes a mundos diferentes, de forma a configurar uma imagem leibniziana, dir-se-ia, do melhor dos mundos possíveis, onde tudo aquilo que expressa a barbárie das relações – aspecto que atravessa a obra drummondiana – é estrategicamente suprimido para que triunfe o “documento de cultura”, para lembrar Walter Benjamin.
A metáfora da lebre e da serpente nos permite objetivar a perversidade da verdade que anima o sujeito em “Querido príncipe”, uma metáfora confusamente preciosista em cujas malhas Drummond se suspende, apaga-se, enquanto o eu, em contrapartida, revela-se numa profunda inconsequência, típica de um tempo que se quer pós-histórico. “Às vezes sua ausência é tão grande por aqui que agarro a ela como uma lebre a uma serpente”, é como se abre um texto sobre um poeta humanista por excelência, desviando-se em direção ao não-humano, preenchendo, desta forma, a ausência do humano com a presença do não-humano, que,  como tal, sustenta a intenção autoral de encaminhar sua ação comunicativa no nível do jogo, do lúdico, numa espécie de exercício carroliano, no limite do nonsense.


4. A fábula


“Querido príncipe” prossegue cultivando arbitrariamente  sua metáfora de uma relação esdrúxula: “Está vendo como, tão inutilmente, tão amargamente, a lebre, escama a escama, pensa que vai se agarrando à serpente, virando serpente, proferindo oráculos?”. Não, não se pode falar aqui de uma sintonia do outro – Drummond – com o eu – Carlito –, de uma interação harmônica entre as duas partes num mesmo processo de construção de sentido. Perguntar se o outro está vendo é já acusar uma dissonância entre eu e outro em relação ao visível, ao que se dá a ver; e o eu aqui, movido por um desejo perverso de verdade, deseja dissipar essa dissonância, de tal forma que uma identidade se denuncie entre ambos – Carlito e Drummond: dois poetas que compartilham uma idêntica percepção de mundo.
O motivo básico pelo qual podemos dizer que não compartilham revela-se aqui a contento: Carlito subordina sua percepção àquela percepção estabelecida no acervo literário ocidental, ao passo que Drummond é um caso de subversão permanente dessa percepção literária em prol de uma percepção própria, individual, fonte decisiva do seu “gauchismo”. Em Drummond, a poesia não se alimenta de literatura, de valores estéticos consagrados na esfera literária, simplesmente porque a poesia – mesmo no seu instante mais formalista, no Claro enigma – é uma questão de vida (e morte) antes de ser uma questão de linguagem. Para Drummond – que é um caso de política, não de lógica, ao contrário de um Ludwig Wittgenstein, filósofo que passou a ser apreciado nos anos 1990 no Brasil em função de um influxo de poetas estadunidenses que passaram a ter audiência no país, como Robert Creeley e Michael Palmer –, a  linguagem poética não é jogo, que se monta e desmonta, tampouco jogo no sentido de evento em que se disputa algo. Para Carlito, em consonância com o Cabral mais radical, de livros como A educação pela pedra, poetar é jogar.
Ao sabor amargo da metáfora de uma relação verossímil apenas num estetizado mundo animal, “Querido príncipe” perde Drummond para que Carlito Azevedo possa ganhar, como vemos: “Anoitece e a serpente diz que a lebre nem chegou perto de alcançá-la, e apenas sonha em sua vermelha toca subtropical, ardendo em febre. A serpente não sente a pelúcia e a ferrugem das patas tateando já seu código genético, suas ondulações, o bater do seu coração. Antes isso do que confessar ao atirador de elite que você foi o homem da minha vida, príncipe”. Dizer, neste ponto, que assim se confirma que o objeto do texto é o próprio sujeito, Carlito Azevedo, e não Drummond, não é tão importante quanto tentar pensar como, afinal, dá-se essa confirmação. A metáfora é fabular, consiste numa narrativa, e tem, como não poderia deixar de ser, sua moral.
A fábula – é isso – entra no texto como forma de mistificar a própria vida contemporânea, que se define pela impossibilidade do afeto, pela repressão da interioridade dos sujeitos. A fábula tem, na economia de “Querido príncipe”, uma ascendência sobre o que se dá na vida, na experiência nua e crua de viver em sociedade, como se um mundo – dos bichos – pudesse resolver outro mundo – dos homens. O desfecho da fábula revela mais do que a inconsequência do jogo, da disputa, entre a lebre e a serpente; revela o contentamento do sujeito de não precisar confessar, a quem o ameaça, o que sente por outro sujeito. Nesse contentamento se exprime a vitória do sujeito – Carlito Azevedo – sobre seu objeto – Drummond, o poeta que postulou a vida sem mistificações e confessou insistentemente seus sentimentos. Ao se mostrar aliviado por não ter que confessar o que sente, o sujeito confessa justamente o que o diferencia do seu objeto – a perversidade.                               


5. Do príncipe


Se tudo tende à sutileza em “Querido príncipe”, não seria demais pensar que é sutil, antes de mais nada, uma frustração do desejo de Carlito Azevedo de fundir sujeito e objeto ali, reduzi-los a uma mesma identidade – eu-outro. A fábula, tratada pelo viés do jogo, da disputa, revela que um é diferente de outro, que lebre é diferente de serpente, e mais: que essa diferença é inalienável, que a identidade do outro não é manipulável pelo eu, mesmo numa situação de intimidade entre ambos. Talvez esse dado, essa impossibilidade de submissão do outro ao programa de sentido de um eu, possa ser tomado como o limite da virtualização, uma barreira a impedir o movimento de desatualização que visa, afinal, a relativização da verdade: a lebre – Drummond – continua atual como ela mesma, ou seja, como dimensão incompossível com seu oposto – a serpente. A lebre – que seria afim da serpente, segundo o sujeito – não alcança a serpente porque pertencem a mundos diferentes, incompossíveis, o de Drummond e o de Carlito.
Esta compreensão nos permite dizer que, ao contrário do que “Querido príncipe” pensa, a obra drummondiana não se caracteriza pela supressão do conflito, mesmo quando este parece inevitável, mesmo quando parece que um “comerá” o outro. Ao desejar a compossibilidade dos incompossíveis – a lebre se relacionando com a serpente –, Carlito Azevedo logra apenas justificar a ideia de Drummond como príncipe, que estrutura o texto. Príncipe porque age prudentemente com vistas a atingir seus objetivos, no sentido maquiavélico, portanto. Príncipe porque se distingue dos demais poetas, porque tem título de nobreza, no sentido, então, de ator de um teatro monarquista. Príncipe ainda como o mais importante dos poetas brasileiros, uma honraria dos tempos parnasianos – Olavo Bilac foi príncipe. Mas não é assim mesmo que se complica decisivamente o objeto desse discurso que se quer verdadeiro? Quem está em questão?
Se o conflito perpassa, indiscutivelmente, a obra do poeta mineiro – a relação conflituosa com Minas Gerais, com o tempo, com a sociedade, com a família, com a vida, consigo mesmo, com a literatura etc –, não é Drummond que está em questão no texto-homenagem de Carlito Azevedo. “Mas não, não é um poema para lembrar de você. Aí está você, aqui estou eu”. Realmente. É um poema – escrito na impossibilidade de se escrever ainda um poema, e a própria nota ao texto na Ilustríssima revela o silêncio em que o poeta carioca se encontrava havia anos –, ou uma prosa, ou uma carta, para lembrar de si. E o modo como se processa essa lembrança não é meramente estético, mas fundamentalmente político, baseado na desigualdade aparentemente entre dois poetas, mas que é, na verdade, uma desigualdade entre dois tempos: um “de partido”, de verdade, outro “de máscara”, de encenações.        
        


domingo, 13 de janeiro de 2013

ARTIGO | Anelito de Oliveira

Decadência


Talvez nada consiga dar a medida precisa do esplendor ou da decadência de uma sociedade do que a cultura, em todos os seus sentidos: estético, pedagógico, antropológico. O que se faz sob o nome de cultura é sempre mais do que suficiente para que se perceba o que uma sociedade é, ou está sendo. Tudo aquilo que os discursos poderosos, hegemônicos, impedem-nos de ver, as práticas culturais urbanas - legitimadas como "a" cultura - acabam por nos mostrar.
A publicação dos poemas do vice-presidente da República Michel Temer pelo Caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, neste domingo 13/13 é mais um dos atestados eloquentes do estágio de decadência da cultura brasileira. Chega a ser difícil contabilizar quantos desses atestados encontramos diariamente hoje em dia, a começar pela programação da Globo aberta, das TVs evangélicas, passando pelo sertanojo, os axés, as redes sociais, como a lavanderia Facebook, até chegar aos jornalecos e jornalões. 
Num cenário cultural pujante, íntegro, crítico, como se viu no passado recente e remoto no país, os montes de palavras do político proselista do PMDB não teriam espaço, obviamente; o próprio autor teria vergonha de publicar tanta besteira sob o nome pomposo de poesia. Também os seus editores - na Folha e na Topbooks, editora de Temer - teriam vergonha de oferecer aos seus leitores uma coleção de asneiras que nada lhes acrescenta. Que diriam um Holanda, um Carpeaux, um Glauber? 
Todavia, há um cenário cultural que torna admissível todo tipo de ação nestas quase três décadas da chamada reabertura democrática, que acabou por legitimar uma espécie de primado do consenso na vida social brasileira, como se isso fosse possível. Nesse cenário, tudo é permitido, desde que seja adequadamente negociado e, claro, dependendo de quem esteja participando da negociação, do que cada espertalhão ganhará - o mais importante. 
Poetastros, pseudoartistas, sempre houve e haverá em todos os tempos e lugares, mas o fato é que eles têm se tornado maioria no país, pautando editoras, redações de jornal e revista, feiras literárias, canais televisivos, órgãos de cultura etc. Eles - ou seus subordinados - estão no comando, cada vez mais, dos espaços de gestão e dos meios de produção e divulgação, de forma que a cultura brasileira hegemônica - aquilo que mais aparece - vai-se convertendo numa grande máquina opressora, aculturadora.
A publicação do livro Anônima intimidade de Temer e a publicação de alguns "poemas" pela Ilustríssima não podem ser vistas como ações normais, apenas profissionais, mas como ações comprometidas com a continuidade e fortalecimento do projeto político da casa grande, cultivado por PMDB, PSDB e tantas agremiações que se gabam de ser republicanas. Ridicularizar a inteligência, de que a poesia é a imagem decisiva em toda sociedade, é naturalizar a imbecilidade que garante o êxito dos opressores.  

domingo, 30 de dezembro de 2012

POESIA | Anelito de Oliveira

Traços


1.

Escrevo porque sofro,
Todos os sopros – a
Partir de lá, aqui,
Onde desabo – corpo

2.

Se houvesse o absoluta-
Mente absoluto, tudo
Estaria seguro numa
Única mão – sem dedos

3.

Falar em meio, falar
No meio das coisas,
Sem palavras, com as
Coisas, o inaudível

4.

O que estranha-me é
Que não haja entranha,
Que a superfície seja
A face toda no rosto

5.

Quando tiver tempo,
Chegarei a tempo de
Encontrar o que não
Me agrada, quando




NOTA: Estes poemas, até então inéditos, foram escritos em julho de 2010, no trajeto São João del Rei/Belo Horizonte. São esboços de algo ainda por vir, traços para um desenho que ainda desconheço - e talvez seja isso mesmo a poesia. Encontram-se publicados atualmente também no blog Cantar a pele de lontra, do poeta paulista Cláudio Daniel. Anelito de Oliveira

domingo, 5 de agosto de 2012

POLÍTICA | De volta à política

ANELITO DE OLIVEIRA - De fora, a partir de um viés respeitável, mas inegavelmente ingênuo, as ações de Lula no processo eleitoral já em curso, sobretudo a aliança com Maluf, mostram-se deploráveis. Todavia, de dentro da política real, que tanto nos conturba, são ações altamente positivas no sentido de politizar a cena política no país que o próprio Lula, no afã compreensível de garantir a governabilidade dos seus governos, acabou por despolitizar. A aliança, que tanto tem indignado petistas e até malufistas entusiasmados, foi precedida pela substituição de Martha Suplicy por Fernando Haddad e sucedida por “insubordinações” do PT em Belo Horizonte, Recife e em cidades de porte médio de grande importância para o desenvolvimento nacional, como Montes Claros, onde o partido volta a disputar a prefeitura com candidato próprio depois de 16 anos. A atitude de Lula, comprovando uma vez mais a sapiência pragmática que lhe é peculiar, reverteu o foco do jogo político a que estávamos habituados desde 2002, quando o PT chegou ao poder: o específico, a cidade, passou a ter relevância maior do que o genérico, a federação, de tal forma que a aliança com Maluf, no caso, revelou-se viável porque o que importa mesmo é o PT reconquistar a prefeitura de São Paulo. Maluf tem uma imagem negativa junto à federação, nos estados brasileiros, que não corresponde exatamente àquela que tem junto aos paulistanos, gente, em grande parte, que não nasceu em São Paulo. Essa negatividade remonta à memorável disputa com Tancredo Neves em 1985. Maluf ficou no imaginário como a referência do mal na política brasileira, comprovada e ampliada por denúncias consistentes de corrupção contra ele e os seus, com prisões espetaculares. Para o paulistano em geral, desprovido de fundamentos ideológicos, Maluf é o empreendedor, o fazedor de grandes obras estruturais, o transformador de favelas em conjuntos habitacionais organizados, o sinônimo de Cingapura. Maluf é referência, para uma parcela enorme do eleitorado paulistano, de atitude prática, que melhora a cidade de São Paulo, que é o que interessa para quem vive numa megalópole e, claro, não pode ter uma percepção meramente romântica das coisas. Ao se aliar a Maluf, Lula revelou, quer queiramos ou não, a mesma astúcia que levou, manteve e mantém o PT à frente do governo federal: a maioria do eleitorado, aquela que elege candidatos, não está interessada em questões ideológicas, mas em ações práticas, naquilo que, de fato, melhora a vida nos subúrbios, nas favelas, nas áreas populares da cidade, em matéria de emprego, saúde, transporte, segurança e moradia. O sentido maior dessa aliança, que lideranças do PT acabaram por perceber por toda parte, é que a política real é localizada, movida por interesses locais de pessoas situadas numa determinada cidade, com seus problemas cotidianos. É uma política investida da concretude que marca as relações objetivas dos cidadãos com sua cidade, não as relações subjetivas com a federação, por exemplo, com aquilo que as pessoas comuns, feliz ou infelizmente, nem sabem o que é. O que pessoas comuns de Belo Horizonte, Recife e Montes Claros, por exemplo, têm a ver com São Paulo quando se trata da vida cotidiana? Nada. Logo, o PT belorizontino, o recifense e o montesclarense perceberam que poderiam lidar com as eleições municipais de um modo diferente, autônomo, lançando seus próprios candidatos, mesmo atritando com o aliado federal PSB. O PT está voltando a fazer política. Mais um mérito de Lula. Texto publicado no jornal O Tempo, Belo Horizonte, 04 de agosto de 2012.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

POLÍTICA | A volta de Patrus

ANELITO DE OLIVEIRA - Pensar o que a candidatura Patrus Ananias a prefeito de Belo Horizonte significa exige uma menção pontual à importância que Minas Gerais tem historicamente na cena política brasileira. Do período colonial à contemporaneidade, a consistência do jogo político nacional, aquilo que o tira do pólo das vaidades e o inscreve na dimensão do eterno, passa pelo Estado. Num raio de mais de dois séculos, de fins do setecentos até agora, a política do país se enriquece, indiscutivelmente, com a contribuição pensada, equilibrada, dos mais autênticos políticos mineiros. Emergindo da cidade de um dos grandes nomes da tradição política do Estado, a Bocaiúva de José Maria Alkmin (1901/1974), Patrus Ananias é um depositário fiel dessa tradição que a redimensiona, desde seus primeiros momentos nos anos 1980, a partir de um permanente tensionamento de aspectos do nosso tempo, este “tempo de homens partidos”, como Drummond escreveu n´A rosa do povo, que é o século XX e, agora, século XXI. Um desses aspectos é a negação da centralidade da vida humana na sociedade, que passou a ser tratada como mais uma vida apenas, nada de mais. A percepção política de Patrus Ananias revela-se estruturada numa defesa generosa da centralidade da vida humana, na contramão, portanto, de preceitos hegemônicos, o que faz dela, inclusive, uma percepção fadada ao conflito com aquela cultivada hoje pelos políticos em geral, meros serviçais do capital. O fato – paradoxal, sem dúvida – é que o trajeto político de Patrus tem revelado o quanto essa percepção está em consonância com a da maioria da população, não só em Belo Horizonte, mas em toda Minas Gerais e pelo país afora, pessoas que o veem como referência ideal de estar no mundo, como ser ético, que se responsabiliza pelo outro. Quem elegeu Patrus vereador, prefeito e deputado federal e com ele esteve – nadando contra uma maré difícil – na condição de candidato a vice-governador do Estado em 2010, concorda com ele que a razão causal da política é o humano. E esse humano não é, como querem enxergar os interessados maledicentes, uma categoria abstrata, superada, encerrada no mundo das ideias, mas uma dimensão real, estruturante, da realidade social. Essa dimensão precisa ser o parâmetro para a operacionalização dessa realidade social em prol dos oprimidos, dos pobres, tarefa capaz de dignificar a política. Somente uma década e meia (quase) de distância para nos dar a imagem cristalina, digamos, do que foi a gestão Patrus Ananias à frente da prefeitura de Belo Horizonte: foi uma gestão humanista, que tinha como princípio o desenvolvimento humano. Havia um envolvimento espontâneo das pessoas com a gestão, uma familiaridade – meio inacreditável – entre cidadãos e Prefeitura, como se aquilo que cultivávamos – os ideólogos – pela vida como utopia tivesse, de repente, virado realidade. Um Orçamento Participativo, uma Escola Plural, um Festival Internacional de Arte Negra! No centro de tantas inovações, um prefeito humilde, capaz de falar a língua das pessoas comuns, de se solidarizar com os outros, de se colocar como gente, com todos os altos e baixos. Era realmente confortável ver ou saber de Patrus numa incansável atitude dialógica, cuidadosa, atuando com um “coração inteligente”, diria Hannah Arendt, sensível, no campo árido da práxis política, sempre em defesa de uma cidade mais humana. Patrus, definitivamente, não foi mais um prefeito, movido por interesses mesquinhos, mas “o” prefeito que uma cidade especial, alicerçada no alumbramento, que é BH, merece. Tal foi o impacto positivo da gestão Patrus Ananias sobre todos nós que, movidos por uma boa vontade muito mineira, sonhamos com o prefeito singular a serviço das causas maiores do país. Demo-nos – moradores de Belo Horizonte em geral, petistas e aliados em especial – ao luxo de prescindir de Patrus à frente da prefeitura, movidos pela convicção, claro, de que, como está consagrado no campo das artes, um grande artista não se repete. Apesar da nobreza da nossa intenção, estávamos equivocados: Patrus não tinha concluído sua grande obra, precisava de mais um mandato à frente da prefeitura de BH, Patrus ele-mesmo, não apenas o PT. Hoje, dezesseis anos depois da gestão Patrus Ananias, é preciso grandeza de caráter para dizer que Belo Horizonte se perdeu, ou voltou a se perder, tornou-se mais uma metrópole a serviço do capital, uma cidade-produto dos banqueiros onde o poder público, supostamente socialista, também coloca os interesses da maioria das pessoas em segundo plano a fim de deixar o caminho livre para a ação dos predadores situados nos maiores centros ocidentais. Patrus pensava e agia sobre a cidade humanamente, o que não eliminava o dado econômico, claro. Os sucessores de Patrus pensaram, agiam e agem sobre a cidade apenas economicamente, e a partir de princípio econômico liberal – o que é pior. A volta de Patrus Ananias à luta pela prefeitura de Belo Horizonte não pode ser encarada como fato qualquer, mas como “o” fato político das eleições deste ano em Minas Gerais. O oposto de Patrus - não podemos nos enganar - não é Márcio Lacerda, mas o projeto tucano hoje representado pelo governo Anastasia e defendido “inocentemente” – uma lástima! – por Aécio Neves, num gritante contraponto ao que Tancredo Neves realmente representou, projeto que percebe o povo como mera mercadoria nas trocas econômicas. Belo Horizonte precisa de Patrus agora, e Minas Gerais precisará muito mais dele, como representante de um projeto popular e democrático para o Estado, em 2014.

domingo, 22 de julho de 2012

Inutilidades, claro, as coisas que nos constituem, que nos prendem à vida, e que não têm valor de mercado. Somos, com essas coisas, fundamentalmente imprestáveis para o mundo capitalista. Essas coisas, na falta de outro nome, são poesia alojada na nossa carcaça social. Nada programado, ao acaso, essas coisas estão acampadas em nós, nosso precário - e autêntico - sentido. A série "Acampamentos" faz parte de uma coletânea inédita, sem data para chegar ao papel: As coisas no chão. | ANELITO DE OLIVEIRA

ACAMPAMENTOS 5 | Anelito de Oliveira

Do outro lado, na mesma região, um condomínio fechado, bastante seguro – diziam os especuladores imobiliários –, com guarda e quadra esportiva. Podíamos mudar imediatamente pra lá, em um mês ou no máximo dois, ou no máximo três, conseguiríamos um financiamento pela caixa e ficaríamos livres do aluguel para sempre. O sonho da casa própria! Era um apartamento pequeno, térreo, mas suficiente para um casal com dois filhos. Não caberiam os móveis de sucupira. Mas móveis... Uma tarde, na Afonso Pena com Bahia, tudo se resolveu: uma mesa, um sofá e um bar para a nova sala. Tudo preto, clássico, comum [pensava contra mim mesmo]. A televisão no suporte, os livros amontoados num cubículo. Gente passando e olhando 24 horas para dentro do apartamento. Dias tristes, tristes, tristes. Uma prisão: alcatraz. Tarde da noite, eu-prisioneiro de um sonho, retornava. E o financiamento nunca chegava, nunca chegou. Partimos, partidos.

ACAMPAMENTOS 4 | Anelito de Oliveira

Chegamos, então, à cidade – depois das margens. Também tinha ladeiras, extensas. Para chegar, sair. Ficava depois de uma, à beira de outra. Era um apartamento. Alterava a ideia de morar. Fragmentava, reduzia, afastava. Tinha três dormitórios. Num deles, os livros se abrigaram. Tinha uma sala ampla, conjugada, com uma porta-janela para a rua. Os móveis de sucupira ficaram à vontade. Parecia perfeito. Não tinha luz, ainda – demoraria dois dias para chegar. Não importava. Era um apartamento. Primeira locação. Da varanda, uma paisagem. A cidade não estava totalmente ali. Ou as margens ainda resistiam ali. Contra elas, alguns prédios se apresentavam. Logo, a paisagem seria danificada. Mas estávamos do lado de dentro, onde tudo era infinito. As noites, as noites – a serenidade, o aroma de mato. Tanta música, tanto vinho, tanta poesia. Até que a pia começou a se entupir, a rede de esgoto começou a se complicar, começou a faltar água. As brigas no andar de cima, discórdias com vizinhos dos lados. Tudo se despencava. Não dava mais.

ACAMPAMENTOS 3 | Anelito de Oliveira

Mudamos para o outro lado. Na mesma rua. Também tinha uma subida, cansativa. Na esquina, um boteco; depois da ladeira, outro bar. O barracão tinha dois quartos. Pé-direito alto, imponente. Um portão que se abria para os dois lados, dando acesso ao primeiro e ao segundo barracões. Ambos serenos. Depois do primeiro portão, um segundo. Entrando, um meio-fio antigo indo da frente até uma lavanderia, lá no fundo. À porta da sala, uma árvore com folhas caindo – o piso de cimento no quintal forrado de folhas amarelas. Vê-la florida, árvore, e saber que a chuva vinha! Dentro, o piso de taco na sala e nos quartos. No início, o sofá confortável do fotógrafo, reformado, com suas listras verdes. Na cozinha, o armário azul, usado. Um dia, o aparelho de som Philips com toca-cd. Ficava no quarto de solteiro. Um dia a piscina de plástico, os meninos ali. Depois a primeira televisão, também Philips, na sala. Depois os móveis de sucupira. Depois a construção de um novo quarto, lá fora, a biblioteca. E os churrascos, os churrascos, os aniversários, os aniversários. O tempo passando, passava. Parecia que éramos felizes – quem sabe. Um dia, estranhamente, partimos.

ACAMPAMENTOS 2 | Anelito de Oliveira

Tudo era muito limpo, excessivamente limpo, a ponto de materializar a obsessão. Alguém obcecado com a pureza – morava ali. Era uma espécie de condomínio. Duas quase-casas entrelaçadas, uma para um lado, outra para o outro. À frente deste, duas kitnets, supostamente barracão – palavra ampla, abarcadora. Em meio a estas e aquelas, um corredor levando à casa do dono de tudo, o exigente. Exigia disciplina, respeito e, claro, pagamento em dia. Nada de som alto. Nada de liberdade. Não havia lado de dentro. Tudo era visível – uma vitrine. Não coubemos ali. Éramos muitos, uma multidão. Apesar de apenas três. Menos que três. Vazamos delicadamente, como sombras. Restou a rua.

ACAMPAMENTOS 1 | Anelito de Oliveira

Ficava depois de uma ladeira. Parecia outro bairro, mas era o mesmo. Cansava chegar lá, uma caminhada. Tinha um pé de manga à frente ou no fundo, no meio, talvez. Tinha um pé de manga, é certo. Um dormitório, uma sala, um banheiro, uma cozinha. Tinha muro. Não me lembro como era o muro. Lembro-me da laje, áspera, artesanal. Sobre a laje, uma manhã, pedras rolando. Assustado, eu acordando. Rindo, ele dizendo: campainha de pobre [o irmão morto]. A cama, o guarda-roupa e o armário usados. A alegria pelas primeiras aquisições. Tom Zé cantando “Menina Jesus” na fita cassete. Um dia o soldado, dono do barracão, chega: “O senhor é muito versátil”. Não dava tempo para discutir significado. Não tinha feito nada. Talvez felicidade. O significado era desocupação.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Três anos esta noite | ANELITO DE OLIVEIRA

Três anos esta noite, ou já na noite anterior - 27 de janeiro de 2012.
Tudo começou aqui exatamente dia 27 de janeiro de 2009.
Quero agradecer aos preciosos (as) seguidores (as) pelo convívio e lamentar que até hoje ainda não consegui me inscrever como seguidor nos seus blogs.
Neste momento, desde o fim da noite de ontem, tenho refletido se vale a pena continuar com este espaço.
Ando, mais do que nunca, decepcionado com a internet e todas as novas "tecnologias da inteligência" (P. Lévy), como o celular.
Será que vale a pena tentar fazer algo diferente - pensar é a diferença - no mundo de "Luiza que está no Canadá"?
Estou no fim do mundo, ou no começo - pode ser -, em pleno sertão, cercado de injustiças por todo lado, no reino do autoritarismo, da corrupção, de coronéis sanguinários e políticos bandidos.
O que importa aqui se Luiza, ou qualquer outra dondoca, está, esteve ou estará no Canadá?
Mas o que importa, para a maioria dos internautas, é exatamente a banalidade, os acontecimentos fúteis das vidas mais vazias do planeta.
A internet vai se tornando, assim, o grande lixão da pós-humanidade. O lugar apropriado para todo lixo simbólico, que corresponde a lixo real.
Não deveria ser assim, mas assim tem sido, sobretudo no ocidente pautado pelas elites cínicas estadunidenses.
A "primavera árabe", para citar um grande acontecimento, é demonstração de que a internet pode ser um instrumento eficaz em favor dos oprimidos.
Não tenho dúvida de que o "luizismo" dos dias que correm é fenômeno tipicamente brasileiro, das elites mesquinhas de um país mascarado.
Este blog está à margem da internet.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

APROXIMAÇÃO | Nicanor Parra

EL HOMBRE IMAGINARIO


El hombre imaginario
vive en una mansión imaginaria
rodeada de árboles imaginarios
a la orilla de un río imaginario

De los muros que son imaginarios
penden antiguos cuadros imaginarios
irreparables grietas imaginarias
que representan hechos imaginarios
ocurridos en mundos imaginarios
en lugares y tiempos imaginarios

Todas las tardes tardes imaginarias
sube las escaleras imaginarias
y se asoma al balcón imaginario
a mirar el paisaje imaginario
que consiste en un valle imaginario
circundado de cerros imaginarios

Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario

Y en las noches de luna imaginaria
sueña con la mujer imaginaria
que le brindó su amor imaginario
vuelve a sentir ese mismo dolor
ese mismo placer imaginario
y vuelve a palpitar
el corazón del hombre imaginario



Nicanor Parra



O HOMEM IMAGINÁRIO


O homem imaginário
Vive num casarão imaginário
Cercado de árvores imaginárias
À beira de um rio imaginário

Das paredes que são imaginárias
Pendem antigos quadros imaginários
Irreparáveis fendas imaginárias
Que representam fatos imaginários
Ocorridos em mundos imaginários
Em lugares e tempos imaginários

Todas as tardes tardes imaginárias
Sobe as escadas imaginárias
E aparece na varanda imaginária
A olhar a paisagem imaginária
Que consiste num vale imaginário
Circundado por colinas imaginárias

Sombras imaginárias
Vêm pelo caminho imaginário
Entoando canções imaginárias
À morte do sol imaginário

E nas noites de lua imaginária
Sonha com a mulher imaginária
Que lhe ofertou seu amor imaginário
Volta a sentir essa mesma dor
Esse mesmo prazer imaginário
E volta a palpitar
O coração do homem imaginário



Aproximação Anelito de Oliveira





Sempre, ainda, muito difícil acreditar que haja um abismo entre nós, falantes forçados de português, e nosotros, igualmente forçados a hablar espanhol, na América Latina. E a verdade é que há. Estamos tão perto e tão longe de pessoas e autores extraordinários como o chileno Nicanor Parra (n. 1914), o inventor da antipoesia, o poeta e matemático recentemente agraciado com o célebre Prêmio Cervantes. "El hombre imaginario", publicado em 1985 na coletânea Hojas de parra, dá a medida precisa de uma obra desconcertante, que exige proximidade.| ANELITO DE OLIVEIRA