segunda-feira, 27 de abril de 2009
MANCHA | Movimento-Amilcar
sexta-feira, 24 de abril de 2009
LITERATURA | Poema inédito
Balada de abril
1
Tudo nos faltará. Sempre.
Sempre que tentarmos encontrar.
Sempre que sairmos a procurar pelo mundo.
Tudo nos faltará quando começarmos a perguntar.
Quando pisarmos o pé na porta de entrada da razão, tudo nos
Faltará. Como sempre nos faltou. Como desde sempre nos faltou
Depois de uma noite de chuva. Logo que acordávamos depois daquelas
Longas noites de chuva. Não havia nada mais no mundo. Tudo tinha acabado.
Olhávamos e não encontrávamos senão a ausência da ação encantadora, do que se
Convertia em encantamento. Tudo nos faltava, tudo nos falta agora ainda, tudo nos falt
Ará sempre que nos voltarmos para nós mesmos. Sempre que buscarmos em nós m
Esmos o que sentimos que perdemos. Sempre que formos nós mesmos o caminho Pa
Ra chegar ao que nos falta. Sempre que nos enfrentarmos como referência
Do mundo.
É o próprio mundo que nos faltará nesse instante. Tudo nos
Faltará sempre que formos o contrário do mundo. Enquanto nos
Quisermos como o contrário do mundo. Enquanto estivermos
Fora ou dentro do mundo. Tudo nos faltará como uma
Espécie de tragédia da razão. Tudo nos faltará
Como sensação de abismo. Tudo nos faltará
Como desconhecimento do que somos.
Tudo nos faltará e nos matará
Sempre que a vida não
For suficiente.
Sempre.
Enquanto os carros passam, escorado num pilar que ostenta, lá em cima, uma placa de pare, hesitando entre duas possibilidades igualmente relevantes -
Continuar ou interromper,
Buscando solidariedade numa coisa, como quem já não sabe onde está, de quê mesmo se trata, de quê tudo é feito agora.
Agora que a tarde desvanece, agora que a noite acontece.
Não, não basta que tudo isso seja tempo, tampouco bastaria, ou basta já, que tudo isso seja espaço.
Explicações, não bastam.
Continuar ou interromper a caminhada vai-se tornando uma questão. Escuta apenas o escarcéu desta questão, apenas te envolve a solidão das questões, o embaraço.
O embaraço cinza.
Alguém não falta aqui para comunicar o que está em jogo. Comunicar seria abrir um jogo no mesmo campo.
Estar no asfalto é parte da questão, do embaraço que perfaz a questão, ali de onde é preciso sair.
Os carros passam. Rápidos, urgentes, vivazes.
Continuar ou interromper não vêm ao caso para mundos diferentes. Não é preciso viver tanto para saber disso, naturalmente. Mas certamente foi preciso viver enquanto para chegar a isso.
Tanto e enquanto. Talvez eu me aproxime da questão que ali me embaraçava pensando em quantidade e qualidade, tentando apreender o furta-cor dessa cor correndo – enquanto estou passando:
Verde, verde-claro, tenro, mãe, verde simples, raso, verde pobre, terno, verde longe, longe, longe, mãe –
Longe como o passado, que, então, vem ao caso como ausência, que, então, desperta o eu como fonte de sentido
O eu que não está mais ali, que agora está aqui, escondido neste que se apresenta desolado, isolado neste que não mais não mais
Busca abrigo
Este parado, escorado no pilar que grita pare, não busca nenhum abrigo, não acredita em abrigo, sabe que ninguém o abrigará, que já não se abriga ninguém no mundo
A alguém, jogando, diria a este respeito:
Todos obrigam, tudo é obrigação.
Alguém é desnecessário para que a linguagem continue sendo possível. Basta apenas este eu como aquele pobre verdejar, sobretudo isso, pela parede da casa à beira da avenida aparecendo através da janela aberta
Os carros passam.
Os carros passarão.
Tudo isso que é presente
precisa passar.
O presente passageiro
precisa passar.
Para que nos esqueçamos,
para que nos esqueçamos.
É melhor que nos esqueçamos.
Todos: eu, você, o mundo.
Os carros passam.
Os carros passarão.
Montes Claros, 04 de abril de 2009
terça-feira, 31 de março de 2009
AFRICANIDADE | Emanoel Araújo
Ainda quando a exposição estava em cartaz, tentei publicar esta entrevista no diário belorizontino “O Tempo”, pensando numa repercussão mais pontual, mas não consegui; sequer se interessaram por reproduzir quaisquer trechos. Cheguei a pensar em publicá-la no “Suplemento Literário de Minas Gerais”, mas todo o desarranjo administrativo daquele momento, que culminou no meu pedido de demissão, não me permitiu fazê-lo. Pensei depois, várias vezes, em submetê-la a algum periódico acadêmico ou para acadêmico, mas acabei desistindo, pensando que talvez pudessem fazer pouco dessa conversa inteligente, rara, com um nome imprescindível para a discussão sobre africanidade no país. E assim fiquei, durante todos estes anos, numa situação meio parecida com a do próprio Emanoel: carregando nas costas um patrimônio – imaterial – negro, numa condição de guarda de algo bastante valioso. Finalmente, para que não fique no limbo mais seis anos, aqui está esta entrevista, na esperança de que possa contribuir para a multiplicação do respeito e admiração pelo grande Emanoel Araújo.
*
Arqueologia de uma cultura soterrada
Está aqui um curso de pós-graduação sobre cultura afrobrasileira. Digo, após uma segunda visita na tarde de sábado último, e ele – o artista plástico baiano Emanoel Araújo – ri, modesto. Mas, na verdade, não vejo melhor definição em face desta mostra “Para nunca esquecer: negras memórias/ memórias de negros”, com a qual Belo Horizonte entra no clima da tão esperada (demora demais tudo que contempla os negros!) segunda edição do FAN – Festival de Arte Negra. Emanoel Araújo é o curador dessa exposição cuja caminhada começou, na verdade, no Rio de Janeiro em 2001. Sua última paragem foi, recentemente, em São Paulo.
Há um viés didático, uma tentativa de apresentar ao espectador as inúmeras inscrições de e sobre os negros ao longo de cinco séculos no Brasil. “Não só didático: eu diria didático e estético”, enfatiza o curador. De fato, são inscrições artísticas propriamente ditas – pinturas, esculturas, fotografias, poemas etc -, mas também não-artísticas, como fragmentos de jornais de combate ao racismo que circularam nas primeiras décadas do século XX no Brasil. Trata-se de um imenso arquivo de imagens e letras que nos revelam o sublime mas também o grotesco que envolvem os negros ao longo da história brasileira.
O arranjo da mostra parece objetivar uma compreensão da parte do espectador a um só tempo diacrônica e sincrônica, quer dizer: de maneira linear, passo-a-passo, mas também circular, de uma vez. Essas duas possibilidades de leitura ficam, inclusive, estimuladas pelo próprio fato de que todo o material não coube em apenas uma sala, aquela que se encontra já na entrada do Palácio das Artes. Parte do acervo foi organizado no térreo, o que, segundo Emanoel, não compromete em nada sua ordenação conceitual. De toda forma, na parte de cima o “rapsódico” Mário de Andrade dá o tom, enquanto na de baixo quem o faz é o “semeador” Antonio Vieira – do carnaval à missa, portanto.
Depois de duas caminhadas pela exposição – uma na tarde de sexta e outra na de sábado último -, Emanoel Araújo fala da existência de “ponto e contraponto” nisso que é, sem dúvida, um concerto barroco. A aproximação à música – que, alias, é parte da exposição, com trilha preparada exclusivamente pelo percussionista Djalma Corrêa – é muito cabível, servindo para confirmar o modo como Emanoel se relaciona com o passado afrobrasileiro, que é um modo musical, móvel, leve, solto, não aquele modo, digamos, na falta de outra expressão, “escultórico”, pesado, duro, tão criticado pelo grande avaliador da cultura afrodescendente no Brasil dos anos 40 que foi o etnólogo francês Roger Bastide.
O excesso de elementos que encontramos em “Para nunca esquecer” só revela a perspectiva includente adquirida por Emanoel Araújo em função do seu modo musical, este aspecto que se evidencia, por sinal, na abertura do livro-catálogo com o poema “Antífona”, de Cruz e Sousa, o ouvido mais musical da literatura brasileira. “Uma provocação que eu acho importante fazer”, afirma sorrindo este incansável “ajuntador” de memórias que pensa, ao contrário dos “radicais”, que o importante é incluir todas as coisas, e não excluir. Incluir – constatamos - até coisas e pessoas que não são benquistas pelo “mainstrean” dos que pensam a questão racial no Brasil. Gilberto Freyre – arauto da democracia racial – é um dos incluídos, por exemplo.
Com essa perspectiva includente, Araújo logra revelar, sobretudo, o seu destemor na abordagem da cultura afrobrasileira, uma liberdade típica de alguém maduro o suficiente para tudo encarar de maneira lúcida, sem frágeis crendices, com a imparcialidade possível. Seu olhar, a despeito de não ser friamente calculista, cientificista, é aquele de um arqueólogo, como ele mesmo o reconhece: “penso que a exposição seja uma arqueologia de uma cultura que foi soterrada, esse grande caldeirão que está sempre subterrâneo; revisitar essa memória é, no fundo, retirar essa cultura de um porão (diante do qual), por mais que você grite, grite, grite, continua sem ressonância”.
Como surgiu a ideia dessa exposição?
Esta exposição é resultado de outras. Na realidade, nasceu em 1987, quando, por ocasião do centenário da abolição (comemorado em 1988), organizei a exposição “A mão afrobrasileira”, um levantamento do que foi o negro na cultura brasileira desde o Barroco, que se tornou um livro. É mais ou menos o que faço hoje.
“A mão...” ainda era uma pesquisa em andamento, muita coisa foi mudando, foi-se afinando, ficando mais didática também. Em 93, fiz uma outra chamada “Vozes da diáspora”, homenagem ao então recém-falecido Rubem Valentim. Depois fiz “Brasil África Brasil”, em homenagem a Pierre Verger.
“Negras memórias/memórias de negros” começou de fato na Bahia, em 1983, quando fiz a exposição “Bahia África Bahia”, que registrou um fato muito curioso: levou 1500 pessoas à abertura, num domingo, às sete horas da noite.
Também fiz exposições como “Herdeiros da noite”, que trouxe a Belo Horizonte (por ocasião do primeiro Festival de Arte Negra, em 1995), e “Negro de corpo e alma”, antes de chegar a esta exposição.
Com “Negras memórias”, o Sr. fecha um ciclo de exposições sobre o tema?
Não ainda. Há lugar para uma outra que quero fazer, que é aquela que chamo de um grande halo criado por esta sociedade que se estabelece a partir da escravidão, da diáspora (africana). Seria uma exposição envolvendo o Brasil, a América do Norte, o Caribe e a América do Sul – aqui, as populações negras que a gente não conhece do Peru e do Uruguai, por exemplo.
Penso naquele tambor que está ali (aponta para a sala de exposição) como metáfora da ressonância da presença negra nas Américas, no Caribe etc. Com a chegada dos negros a esses lugares, formou-se uma sociedade afroamericana, caribenha ou afrocubana.
A exposição me parece um grande inventário da presença negra no Brasil. É sua intenção apresentar uma visão macroscópica da questão, digamos, com a finalidade de superar uma visão microscópica?
Não, necessariamente. Penso que a exposição seja uma arqueologia de uma cultura que foi soterrada. Esta exposição, assim como as outras que fiz, tenta trazer à luz todos os elementos que compõem a cultura brasileira.
Esse grande caldeirão...
Esse grande caldeirão que está sempre subterrâneo. Revisitar essa memória é, no fundo, retirar essa cultura de um porão, de um terreno soterrado onde ela se encontra e por mais que você grite, grite, grite, por mais que você faça alarde, ela continua sem ressonância. Essa exposição é importante para mim no sentido de que possa ser uma ressonância sob vários aspectos: o da auto-estima, o da necessidade (da ostentação) do halo ancestral que existe entre o estigma e a vida.
A que o Sr. atribuiria a pouca ou quase nenhuma ressonância dos afrodescendentes enquanto tais neste país ainda hoje?
Sabemos que é uma questão de poder.
Poder aquisitivo?
Não. Poder de encontro. O que sinto é que há um grande desencontro (entre o negro e sua cultura), uma falta de conhecimento de um lado que não seja o do estigma. A gente não sabe quais os vultos afrodescendentes que foram fundamentais para a constituição da cultura brasileira, poetas, engenheiros etc que, a despeito do preconceito, conseguiram ir além. Acho importante conhecer Cruz e Sousa, que haja, afinal, o estudo da cultura negra. Acho fundamental saber que existiram também José do Patrocínio, Teodoro Sampaio, André Rebouças e tantos outros.
Por sinal, o Sr. abre o livro-catálogo da exposição com o poema “Antífona”, de Cruz e Sousa. O que o levou a essa atitude?
Volto à questão da metáfora. Cruz e Sousa é um poeta que me emociona muito. Aqui (aponta novamente para a sala da exposição) tem um trecho do (poema em prosa) “Emparedado”, que de fato é o momento mais terrível em que ele (o poeta) se encontra. Ele tem uma densidade luminosa, inventiva, e isso me interessa.
Acho que há artistas que não poderiam se expressar de outra maneira senão aquela com que se expressaram em face dos dogmas da sociedade. Para mim, um poeta como Luiz Gama, com a coisa da ironia e do sarcasmo em relação ao racismo, é tão importante quanto Cruz e Sousa, que vai para o outro lado, com o simbolismo.
Não tenho uma explicação muito objetiva para o fato de ter colocado Cruz e Sousa na abertura do catálogo. Mas é mesmo uma provocação que eu acho importante fazer.
Ainda no seu texto no livro-catálogo, o Sr. cita várias figuras afrodescendentes famosas, mas omite Pelé. Há alguma objeção a ele?
Não. Pelé não precisa.
Pelé e Cruz e Sousa são antípodas: enquanto um é símbolo do negro super bem sucedido economicamente, o outro é símbolo do mal sucedido...
Não tenho uma ideia formada sobre Pelé. Acho que ele tem todo o direito de não entrar em certas discussões e não comprar certas brigas. Sinto que ele tem uma dívida com a comunidade negra. Teria nos livrado de uma série de coisas se tivesse assumido outra postura, mas ele tem direito de ser o que quiser.
Todas as personalidades que compraram a questão do negro, entenderam ou tentaram entendê-la, são muito importantes para o inconsciente coletivo. Acho que Gilberto Freyre, por exemplo, é uma grande figura, muito embora os radicais (que refletem sobre a questão racial no país) o detestem. Ele, assim como Jorge Amado, tenta incorporar nossa cultura, esse amálgama, com todas as contradições, todos os encontros e desencontros.
Também Jorge de Lima e Nina Rodrigues que, mesmo com a posição racista que a antropologia do século XIX realmente tem, é o primeiro a escrever sobre a arte negra enquanto Belas Artes em 1904. Muitas vezes temos atitudes radicais que excluem, e eu acho que temos que incluir todas as coisas.
O Sr. está otimista em relação ao momento atual no Brasil, com Gilberto Gil, Benedita da Silva e outros negros em ministérios do Governo Federal?
Temos que ser (risos). O Brasil é um país muito curioso em relação ao preconceito. Fico pensando na postura que se tinha há dez, quinze anos atrás, por exemplo, (em relação ao) elevador social: havia um porteiro negro que perguntava ao síndico, quando chegava um outro negro: é para entrar no elevador social ou não? Todos experimentamos isso. Agora uma simples lei vem e acaba com esse racismo, mostrando que certas questões de preconceito são passíveis de serem resolvidas, basta que haja coragem de assumir que tem que ser resolvidas.
Acho que é muito legal a presença de negros no Ministério, bem como a preocupação de que haja diplomatas negros no Itamaraty. Há uma mudança, de fato. A importância internacional que se dá ao Governo Lula vem exatamente daí: pela primeira vez está-se quebrando essa hegemonia oligárquica, filha-da-puta, que havia aqui. Acho que a gente não percebeu ainda essa mudança porque ainda é muito cedo.
O Sr. acha que Lula tem uma consciência para-racial (Emanoel ri), senão racial propriamente dita?
Creio que social, étnica. Mas acho que, na realidade, ele também tem uma consciência racial, já que seu Governo está criando agora o sistema de inclusão de estudos africanos no currículo escolar.
E a questão das cotas para negros em Universidades. Considera esse sistema positivo ou negativo?
Positivo. Acho que é uma ação afirmativa muito importante. Você tem que educar as pessoas, tem que melhorá-las, precisamos de mão-de-obra especializada. É assim que se pode diminuir a discrepância social. O que nos falta, na realidade, é uma grande consciência que faça com que os donos da terra, os brancos da terra (risos), possam dividir o que têm. Não adianta você morar num apartamento e ter um “mercedes bens” na porta se na esquina você vai ser seqüestrado. E ninguém nasce ladrão nem criminoso, não é verdade?
Voltando à arte: como se dá sua passagem de criador para colecionador de artes e expositor?
Tudo começou quando comecei a estudar belas artes nos anos 60, em Salvador, e freqüentava o Instituto Histórico e Geográfico e os museus da polícia. Na época, eu estudava e trabalhava no departamento de turismo da Bahia. Era uma época em que os terreiros de candomblé pediam autorização à polícia para funcionarem.
Tinha um amigo antropólogo e me veio dele essa consciência de ver, de vasculhar, de descobrir obras que estavam guardadas no Instituto Histórico e Geográfico e nos museus da polícia, onde eram usadas com o objetivo de provarem que os negros eram inferiores aos brancos.
Ainda hoje resta uma coleção de arte litúrgica no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, formada por obras aprisionadas durante batidas policiais em terreiros na Bahia. Também há coisas em museus da polícia do Rio de Janeiro. No museu do Estado de Pernambuco também há muitos objetos litúrgicos dos xangôs do Recife.
Com o tempo, fui tomando consciência dessas obras, juntando-as e comprando aquilo que aparecia no mercado, não tudo, é claro. A cada pesquisa, a coleção foi se ampliando.
Sua coleção de arte afrodescendente é a maior hoje no Brasil?
Não sei se há outra. Há? (risos)
Ontem (sexta-feira) o Sr. me dizia que há um projeto de criação de um Museu Afro-Brasil em SP, que teria a guarda dessa sua coleção.
O projeto surgiu agora quando a coleção estava exposta na FIESP, em SP, onde o Secretário de Cultura da cidade – Celso Frateschi – a viu e aventou a possibilidade de se reunir isso como Museu. Por outro lado, eu estava empenhado, a pedido de Gilberto Gil, no trabalho de conceituação e tipologia de cinco museus: o Museu Afro-brasileiro da Bahia, o Museu de Congonhas, um do Pantanal, um outro de Ouro Preto, um de Aleijadinho etc. Martha Suplicy, prefeita de SP, foi quem ficou entusiasmada para criar o museu a partir dessa coleção, que seria posta em comodato.
O museu trabalharia sobre essa coleção, que, na realidade, é uma coleção meio bruta porque tem fotografia e uma série de outros objetos que nem são expostos, não só do Brasil como da África, do Caribe, inclusive uma biblioteca de quase dois mil volumes sobre a cultura afrobrasileira. Portanto, é um núcleo que caberia dentro de um museu. Por outro lado, chega um momento de eu não poder carregar mais toda essa tralha nas minhas costas.
Esta é a última vez que o Sr. carrega essa “tralha”?
Não sei. A princípio, seria, embora tenha um convite para que essa exposição vá para o Paraná, para Washington D.C. Mas, a princípio, encerra aqui.
E encerrar aqui em MG tem um significado especial para o Sr. Lembro de uma passagem do seu texto no livro-catálogo em que o Sr. se refere a Aleijadinho como “o imenso”. Como são suas ligações com MG e Aleijadinho, em especial?
Com Aleijadinho, nem posso dizer, depois de tudo que dele se falou, tantos intelectuais como (o francês) Germain Bazin. Posso falar que o que me fascina no Museu de Congonhas (em torno da obra de Aleijadinho) é exatamente a possibilidade de trabalhar um conceito de museu em que não fosse necessário remover os profetas, mas sim deixá-los onde estão, tratá-los museologicamente e levar a via-sacra para o Museu porque acho que ela é o grande canto do cisne de Aleijadinho e não consegue chegar ao espectador porque está dentro daquelas capelas.
Gostaria de transformar aquela via-sacra num grande teatro, de forma que se visse a escultura na sua totalidade, na sua inteireza. Essa era a razão primordial pela qual eu toparia trabalhar no Museu de Congonhas. Parece-me que um museu puramente massivo, onde as pessoas chegam e vêem, ainda é pouco. Precisaria trabalhar outras questões, como a pedra, um grande estudo sobre a pedra-sabão. É mais um projeto entre os muitos em que me meto (risos).
E, por falar nisso, como o Sr. recebeu recentemente a reedição da tese sobre a possível inexistência de Aleijadinho?
Lembro de Mário de Andrade. Quando alguém lhe dizia que Aleijadinho era primitivo, ele perguntava: primitivo por quê? Em relação a quê? Não existe por quê. Claro que não é sério levantar questões como essa (da inexistência de Aleijadinho), que é uma invenção. Claro que há uma obra construída, que tem similute, referência, princípio. Acho um absurdo que alguém levante essa questão. Deve ser algum inimigo de Minas Gerais.
Lezama Lima dizia que Aleijadinho representa a rebelião dos negros na cultura latino-americana.
É fantástico que o filho de uma negra e um português tenha chegado a tamanha genialidade no século XVIII e produzido o que produziu. Aleijadinho é imenso, apesar de todas as questões que se apresentem sobre ele, é a maior coisa do século XVIII. Só Congonhas é monumental, é um homem grandioso.
A controvérsia em torno de Aleijadinho não lhe parece exemplar da controvérsia em torno da memória afrodescendente no Brasil como um todo?
Na verdade, o próprio nome Aleijadinho já é um estigma. Nossos heróis – brancos ou negros – têm sempre um estigma. No Brasil, as coisas se esfacelam: ele era aleijado, não tinha mãos, e como é que alguém pode esculpir sem mãos? É um absurdo! Por outro lado, há personagens que preservaram a memória de outros personagens importantes. Aleijadinho é conhecido no Brasil e em muitos lugares do mundo. Se a memória é nossa, cabe-nos preservar.
Nós, quem? Os negros?
Nós, negros.
Parece-me um trabalho solitário. Não há, de um modo geral, um sentimento de responsabilidade com o passado entre os negros como há entre os brancos.
Pois é: nossa memória de um modo geral é escamoteada. É estranho, é um traço colonial. Por outro lado, acho que temos sempre que revisitar essa memória. Daí o meu esforço no sentido de organizar o museu. Porque o museu é o espaço onde essa memória pode ser sempre repassada, sempre discutida, suscitando sempre novas ideias e pesquisas.
Creio que, ao ser despertada, essa memória por si só já funciona como uma crítica ao modo como a sociedade brasileira se relaciona com os negros.
Alguém vai dizer que essa história não está contada. E,de fato, não está. É preciso contá-la. Por isso que digo que é um trabalho de arqueologia. (e sai a caminhar pelas salas onde está a exposição).
sexta-feira, 27 de março de 2009
MANCHA | Guilherme Mansur
domingo, 15 de março de 2009
JORNALISMO | Gullar na Bravo!
Revista BRAVO! Março/2009
O episódio dos papéis revela muito sobre o jeito de o poeta enxergar a vida e o ato criativo. Para o autor do célebre Poema Sujo, viver (ou criar) é o resultado de um diálogo contínuo entre o arbítrio e o inesperado, a ordem e a desordem, a necessidade e o acaso. O assunto veio à tona numa tarde abafada de fevereiro, ao longo da conversa de três horas que Gullar manteve com BRAVO!. O apartamento de Copacabana, silencioso àquela altura do dia, serviu de cenário.
Viúvo, o maranhense namora a poetisa gaúcha Cláudia Ahimsa. Ele a conheceu durante a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 1994. Pouco tempo antes, amargara a morte da mulher, Thereza Aragão, e de um dos três filhos, o caçula Marcos. Inspirado pela atual companheira, escreveu os versos "Olho a árvore e já/ não pergunto 'para quê?'/ A estranheza do mundo/ se dissipa em você".
Você concorda quando os críticos apontam o Poema Sujo, de 1975, como sua obra máxima?
Difícil responder. Não me debrucei profundamente sobre o assunto... O Poema Sujo é, de fato, o que reúne o maior número de interrogações e descobertas — em parte, pela extensão (os versos se espalham por quase 60 páginas); em parte, pela febre criativa que me assaltou enquanto o redigia. Entre maio e outubro de 1975, fiquei imerso no que classifico de "estado poético". Nada me tirava daquele clima. Eu comentava, brincando, que me tornara uma espécie de rei Midas. Tudo em que botava a mão virava ouro, tudo virava poesia. Foi uma fase excepcional. Para mim, porém, trabalhos mais recentes podem ter importância idêntica à do Poema Sujo, por exprimirem reflexões novas, algo que não me ocorrera dizer antes.
sábado, 14 de março de 2009
sábado, 7 de março de 2009
LITERATURA | Poemas inéditos
A DESTRUIÇÃO
1.
A vida destruiu
a alma,
Onde estava o amor
O corpo segue
Sem nada
O que tenho a dizer?
2.
O outro lado é a negação.
Este, o que ainda resta de uma vontade,
a vibração.
Dali, do outro lado, chega-se depois de tanto tempo, corpo empoeirado
náufrago ofegante.
Chega-se dali com um copo
De vida na mão. E é tão fácil, tão simples, entorná-lo, destruí-
Lo. Tudo nega o que disse.
Afirma. O outro lado é tudo que mata.
A vida.
3.
Aqui estou.
Exatamente onde
Estivemos.
Sozinho,
Agora penso o que diria
Para tornar as coisas
Menos ordinárias.
Diria
Que não tenho sentido,
Por exemplo.
O que é isso?
E sorriria:
O que se tem
Quando tudo está,
Como na canção,
Perdido.
Aqui,
Exatamente assim,
Estou.
4.
Eis que me vem
A sua lembrança
Eis que me vem o desejo
Da sua presença
Eis que me vem a
Sensação da distância
Você distante
Eu distante
Distantes daqui
Desaproximados
Ausentes
Enfim
A força esmagadora da
Ausência:
Uma canção qualquer
O rádio
O quarto
Eu
5.
Eram 29 anos e a
Premência de chegar
Aos 30. São agora
38 anos e a premência
De chegar aos 39
E resultar apenas
Nos 40. A premência
De perder a vontade
De descobrir, de se
Dar por descoberto,
Conhecido de si, o
Mais trivial vizinho.
6.
O que restou?
A lembrança.
7.
Diante de uma lembrança,
O limite. Este aqui, onde
A água se detém. Como
Um touro, detém-se,
Detida. Como um menino
Cego diante do espelho.
Era um touro. Era um
Menino. Era um touro
Terno como o verde dos
Olhos. A água nos olhos.
Terno, como a verdade
No desamparo. Este mar.
Anelito de Oliveira
Verão de 2009
quinta-feira, 5 de março de 2009
JORNALISMO | Imagem do Brasil
sábado, 21 de fevereiro de 2009
POLÍTICA NACIONAL | Malandragem
O que Lula está tentando e tentará no biênio que está se iniciando é simplificar todos os fatos para que um fato apenas se torne relevante daqui pra frente, ganhe fumos de verdade: o projeto Dilma presidente. Simplificando tudo que está na ordem do dia, toda uma série de acontecimentos que tende a configurar um dos momentos mais difíceis da história neste início de século, Lula pretende construir um fato que, na verdade, ainda nem existe. Sabe, no fundo, o quanto é difícil produzir um presidente da República em apenas dois anos, sobretudo em função da matéria-prima com que está lidando: mulher, pequeno-burguesa, impopular, autoritária, prepotente, características que plástica, meditação, sorrisos forçados e frases de efeito dificilmente conseguirão extirpar, obviamente.
Hoje autêntico populista, com todo o caldo demagógico do que há de pior na história política do país correndo solto nas veias, Lula entende que o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) é mais do que suficiente para tirar Dilma dos 13% de intenção de votos atuais e levá-la à vitória ano que vem, seja quem for o adversário tucano. De um lado, obras e mais obras faraônicas; do outro, toda a comunidade peemedebista, com seus probos administradores, nadando em dinheiro pelo interior do país. Para Lula, agora mais do que nunca, não importarão, no processo eleitoral que ele mesmo está inaugurando, os meios, mas apenas o fim, a eleição de Dilma. Seu PT, inclusive, ou o que dele ainda resta, não importará de forma alguma, referência decorativa.
Todavia, parece latente que, no fundo, o fim que Lula está buscando é aquele que, na sua compreensão malandra da realidade social brasileira, mais tende a render para ele politicamente no futuro próximo. Dilma Roussef sagrando-se perdedora, mesmo depois de dar algum trabalho, Lula “venderá” para o seu partido e o mundo, como um consolo, seu velho discurso pronto: as elites, mais uma vez na história deste país, derrotaram o povo. Consequentemente, todos hão de pensar: para derrotar as elites, só mesmo Lula, em 2014, 2018, eternamente, a estrela, o mito insuperável. Incrível: até parece que Lula leu o extraordinário ensaio de Antonio Candido (como respeito a um dos maiores brasileiros de todos os tempos e fundador do PT), cujo título é – pasmemos - “Dialética da malandragem”.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
AFRICANIDADE | Festival Mundial das Artes Negras acontecerá em dezembro no Senegal
Na reunião, as delegações definiram a data de lançamento oficial do evento no Brasil, que será dia 25 de maio, com as presenças dos presidentes dos dois países, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Abdulaye Wade, do Senegal. Definiram também a data da reunião do Comitê Internacional, nos dias 1º, 2 e 3 de março, com a presença do ministro da Cultura do Brasil, Juca Ferreira, e de Zulu Araújo, ambos coordenadores da comitiva brasileira do III Fesman.
O ministro brasileiro disse que é uma grande honra ser homenageado pelo Senegal, em função do histórico relacionamento do Brasil com o país africano, e destacou que o grande objetivo do Ministério da Cultura é estreitar cada vez mais os laços com os senegaleses. O senegalês Mame Birame Diouf ressaltou que a reunião é muito importante, pois está sendo realizada em um país escolhido para ser homenageado e que terá um papel relevante no Festival. "O Brasil tem uma liderança muito grande na América Latina e na Comunidade Negra, por isso esse encontro de hoje é primordial. O povo senegalês espera ansiosamente pelos brasileiros", disse.
O presidente da Fundação Palmares declarou que o MinC prossegue cumprindo rigorosamente o cronograma já acordado em outras reuniões. Segundo Zulu Araújo, já foram criados os Comitês MinC e Comitê Nacional para o Fesman, além da primeira disponibilidade financeira, da ordem de R$ 3 milhões. Zulu Araújo relatou ainda a previsão de dois grandes eventos pré-Fesman: o 1° Fórum Nacional de Performance Negra para a Dança e Teatro, a ser realizado em Salvador, e o 2° Encontro sobre Renascimento Africano, previsto para acontecer no Rio de Janeiro.
III Festival Mundial das Artes Negras - É a maior reunião das artes e da cultura negra do mundo. Foi idealizado pelo ex-presidente do Senegal, Léopold Sédar Senghor, na década de 1960, com o tema "Significação da Arte Negra pelo Povo e para o Povo"; o segundo foi realizado na Nigéria, em 1977, com o tema "Civilização Negra e Educação". Neste ano, irá homenagear o Brasil, com o tema o "Renascimento Africano". A homenagem se deve principalmente ao fato de o Brasil abrigar a segunda maior população negra mundial depois da África. A maior novidade desta edição é a grande repercussão que se dará ao evento com a participação de mais de 80 países. Quatro redes de satélites vão percorrer o mundo inteiro mostrando toda a programação, que será transmitida em cinco idiomas: inglês, francês, espanhol, português e árabe.
Mais informações: Luciana Mota RR-BA/FCP/MinC luciana.mota@palmares.gov.br www.palmares.gov.br 71-3322-3488 Comunicação Social do Ministério da Cultura.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
JORNALISMO | Entrevista com Hannah Arendt
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
UNIVERSIDADE | Triste fevereiro
ANELITO DE OLIVEIRA - Fevereiro inesquecível para os professores da Unimontes e da UEMG, as duas Universidades estaduais de Minas Gerais. Foram longos meses de espera, de cultivo de uma esperança que os fez sacrificar até as festas natalinas e encerrar o segundo semestre letivo de 2008 somente na segunda semana de janeiro de 2009. Moveram-nos uma confiança no Governo do Estado – confiança em políticos profissionais, ao final das contas – que só mesmo professores ainda são capazes de ter. Agora, a decepção enorme: o Governo não concederá o “aumento” salarial à categoria nesta primeira semana de fevereiro, conforme acordado. Concederá só aquilo que, sutilmente, pode-se considerar um lenitivo humilhante: 7% de reajuste no vencimento básico.
A SEPLAG (Secretaria de Planejamento e Gestão), questionada pela Associação dos Professores da Unimontes, explicou, via email, que o que foi prometido não será rigorosamente cumprido em função da burocracia inerente ao processo. Mesmo com o Governador tendo assinado o Decreto-Lei que regulamenta o “aumento” ainda no último dia do ano passado, tendo feito, portanto, sua parte burocrática. Os professores, em face da fria explicação da SEPLAG, devem entender essa situação, pelo jeito. Tudo assim, simples: entendam; vocês serão prejudicados, mais uma vez, mas entendam. É o tipo de situação em que entender não pode significar concordar, já que a questão é eminentemente política, implica definição de prioridades do Governo.
O “aumento” acordado para este fevereiro em sua totalidade (7% sobre vencimento básico e gratificação permanente, tudo retroativo a outubro 2008) foi decisivo para colocar fim a um dos movimentos grevistas mais bem articulados pelos professores das duas Universidades, que se estendeu por todo o semestre passado, culminando na paralisação das atividades docentes. Não foi um movimento apenas por salário, mas, sobretudo, por respeito a milhares de profissionais que constroem a cada dia, numa luta intensa pelas Minas e Gerais afora, dois espaços de excelência em produção de conhecimento, como o comprovam dados do ENADE e a opinião pública.
No diálogo entre representantes legais dos professores da Unimontes e UEMG ano passado, o Governo acabou, inegavelmente, por dar exemplo de esforço político: acatou proposta para ampliação considerável dos gastos com a folha de pagamento. Demonstrou sensibilidade para com a situação dos professores e compromisso com a educação superior para uma parcela expressiva da população mineira. Todavia, neste momento, é esse mesmo esforço que está sendo desqualificado pela força da burocracia, com os professores se sentindo logrados, vitimados pelo que só podem entender como descaso do Governo, e predispostos a começar o novo semestre em greve. Triste fevereiro.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
JORNALISMO | Editorial
Pra falar de coisas pessoais, como tantos?
Um diário aberto ao público?
Para exibir proezas de uma vida supostamente rara?
Não. Claro que não.
Este blog atende a uma finalidade mais profissional, digamos. Pretende ser, como alguns, um espaço para publicação de textos que podem interessar a algumas pessoas próximas e distantes, nas Duas Barras e no Butão. Poucas, sem dúvida.
Pretende, também, ser um espaço para dialogar com essas pessoas em dias terríveis, como são estes em que estamos vivendo desde a década passada.
Terríveis? Por que terríveis?
Terríveis porque estamos emparedados no mundo livre s/a. Com aquele sentimento que Cruz e Sousa (1861/1898) soube apreender como ninguém na cultura brasileira e expressar no seu “O emparedado” (Evocações, 1898; In: Obra completa, Aguilar, 1995).
As paredes sousianas, como tentei mostrar numa tese de doutoramento na USP (O clamor da letra: elementos de ontologia, mística e alteridade na obra de Cruz e Sousa, 2006), eram, claro, discursivas.
O discurso extravasa os limites da pessoalidade. Todo discurso implica o todo, arrasta o que lhe circunda. Não só espacialmente, mas também, num dado “horizonte de expectativa” (Jauss), temporalmente.
Aquelas paredes, o emparedamento de um sujeito, não circunscrevem, portanto, apenas uma realidade brasileira de fins de século XIX, não têm a data de um dado contexto.
Itamar Assumpção, no seu impagável “Preto Brás” (Atração, 1998), em pleno final dos anos 90, que o diga, e disse:
“sou cruz e sousa, zumbi, paulo leminski,
(ave Maria)
mas samba is another bag”
E disse depois de dizer, na abertura dessa obra prima (de Cruz) que
“porcaria na cultura
tanto bate até que fura”
Dias terríveis.
Cada um no seu canto, no seu portal, no seu site, no seu email, no seu blog... (este não é mais um blog, nada de pessoal, legal, au, au etc).
A solidão nunca esteve tão na moda, e de modo tão perverso, nada romântico: solidão pela solidão.
Há uma razão de ser, naturalmente, nessa solidão. Mas, como toda razão de ser, precisa ser colocada em xeque, precisa ser levada ao limite de si mesma, atingir a razão de ser mais, quem sabe sua desrazão.
A razão de ser: não há nada lá fora. Não me deixam falar. Só falam sobre futebol. Só escutam o pagode “segregamulher” (tomzé), o sertanojo. Só tomam sol.
A razão de ser mais: o outro humano começa no humano outro. Diria Lévinas, évidemment, acrescentando que é fundamental o encontro.
Encontrar, encantar-se.
Encontramento, encantamento.
Este blog não visa o lado de dentro sem fora.
Visa o lado de fora lá dentro, no meio da rua.
O que não se pode fazer em jornal, rádio, televisão. A liberdade de fazer de um modo outro, num outro formato, como um outro. Liberdade maior de voltar a ser outro, de encontrar o perdido outro de si mesmo, em si mesmo.
No lulismo enganador da nossa desilusão, no socioautoritarismo democrático, não há liberdade de expressão nem na Montes Claros de Darcy Ribeiro nem na São Paulo de Mário de Andrade, muito menos no Rio de Cartola e no Reciferido de Jommard Muniz de Brito e Frederico Barbosa.
Este blog é pra sair de si.
Entrar em si. Também.
This is Hegel.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
AFRICANIDADE | Mais uma falácia
POLÍTICA | Os sentidos da chegada de Obama à Presidência
POLÍTICA | A diferença Obama
A compreensão da diferença de Barack Obama, do lugar que a condição de negro, à revelia até dele mesmo, ocupa na conformação de sua singularidade política, exige a consideração das tantas opiniões, ou pelo menos de algumas, que vieram à tona durante a campanha eleitoral ano passado. Lembro-me especialmente de uma delas, que foi a de Luiza Erundina, ex-prefeita de São Paulo e hoje deputada federal (PSB), enunciada no programa televisivo de Paulo Henrique Amorim, “Conversa Afiada” (Record). Melhor dizendo, era o desfecho de uma opinião, já que a prosa era mais ampla, girava em torno de algo como sociedade e humanismo hoje. Erundina disse que, se fosse cidadã estadunidense, votaria em Hillary Clinton, depois de insistir na tecla de que a solução para a crise social, em todos os sentidos, neste século, está na reforma do “projeto humano”. Tal declaração, até certo ponto previsível, acabou por ficar marcante – pelo menos para mim – em função da margem que deixava, naquele momento, e ainda deixa para se pensar até que ponto essa reforma, para Erundina e seus seguidores, implica determinações de gênero, raça, classe etc.
Ainda que não tenha sido esta a intenção de uma figura política tão ridicularizada por sua condição humanamente nordestina (como esquecer do “Ééérundina” do racista Paulo Francis?), Erundina acabou por colocar em relevo, em relação a Obama, uma suspeita histórica sobre os negros em geral, ignorada até por grande parte dos próprios negros: são comprometidos com o “projeto humano”? Essa suspeita está na base da diferença entre um negro e um sindicalista. De fato, Lula, durante os longos anos que marcaram sua ascensão à presidência, jamais esteve sob esse tipo de suspeita, e seu governo coincide (?) com um dos momentos mais desumanos da história do país: terrorismo das milícias, execuções sumárias pelas polícias, banalização da violência, prostituição infantil, trabalho escravo etc etc. O sindicalismo de Lula, sua imprecisa condição de trabalhador, sempre foi atestado de um humanismo cujo limite crítico parece que são as humilhantes bolsas, uma horrenda “coleira” no pescoço de tantos brasileiros. Que Obama seja comprometido com outro “projeto humano”, afim daquele “humanismo do outro homem” preconizado pelo lituano Emmanuel Lévinas, um humanismo a partir do outro, do negro.
POLÍTICA | Governos e cidades
Se o que se governa, durante um determinado tempo, é a famigerada “polis”, a cidade como lugar e como entidade jurídica, não há motivo para o silêncio de quem está saindo ou para o barulho de quem está chegando, causando a impressão de que um grupo desceu à estaca zero, ao fracasso, e outro está partindo também da estaca zero, de uma outra, começando uma vida totalmente nova num ano igualmente novo. A cidade constitui um referencial identitário entre um governo e outro, um tronco que, a contrapelo de partidos e ideologias, irmana os diversos governos: é a cidade que identifica a comunidade de ex-governantes, governantes atuais e potenciais, cuja diferença, em relação aos governados, reside justamente no fato de se identificarem com um mesmo objeto: identidade é o que remete a uma esfera comum.
O que interessa a todos os governantes é a operacionalização da cidade, fundamento inicial da luta pelo espaço de poder público, que vem sempre acompanhada por um ideal de justiça social, o que desperta a confiança do eleitorado. Todavia, nos primeiros meses de qualquer governo, vai-se comprovando um dado que só pode ser atribuído a uma pouca ou nenhuma responsabilidade dos governantes com a cidade: há mais problemas do que esperavam, muitos até insolúveis nos habituais tempo (curto prazo) e espaço (local). E geralmente essa sensação de insolubilidade passa, no caso dos municípios, pela escassez de recursos financeiros, que são os únicos que existem, lamentavelmente, para grande parte dos agentes políticos municipais: sem dinheiro, não há governo.
Essa dupla decepção, a que os eleitos para governar estão sempre suscetíveis, mesmo em tempo de lei de responsabilidade fiscal, poderia ser evitada, ou pelo menos amenizada, caso houvesse interação, diálogo, entre governo que se vai e governo que chega. Ambos ganhariam muito: o que se vai provaria, à opinião pública, sua transparência e capitalizaria prestígio para futura investida eleitoral; o que chega, ficaria desobrigado de resolver problemas criados pelo seu antecessor, sobretudo aqueles que extrapolam o campo financeiro e não são, portanto, levados em consideração por CGU (Corregedoria Geral da União), TC (Tribunal de Contas), problemas de ordem política, com sua substância simbólica, que resultam em prejuízo para a cidade. Ex: o que se pode considerar um “obrismo”, tributário de uma idéia simplista de desenvolvimento.
A cada fim de administração municipal, é fácil ver a alteração do “rosto” de uma cidade, e concluir que já não é mais a mesma, que foi “ressignificada”. Em BH, as novas Antônio Carlos e Cristiano Machado, a nova Praça da Estação, o “Boulevard” Arrudas etc. Na Montes Claros de Darcy Ribeiro, as novas Praças da Matriz e da Igreja Rosa Mística, o novo Quarteirão do Povo, as Câmeras de registrar contravenções e contraventores no centro da cidade etc. Essas obras – melhor dizendo: esse canteiro de obras – resultaram, evidentemente, de uma escolha que os governantes dessas cidades, que agora estão saindo, fizeram em detrimento de outras possíveis escolhas, como a de investir em processos de desenvolvimento humano: culturalidades, educatividades, sociabilidades etc. A seu favor, esses governantes têm o conceito – suspeitável, como tudo na vida – de “orçamento participativo”.
Não é difícil perceber que nessas cidades, a exemplo dos demais grandes centros do país, a começar pelo monumental monumento ao desenvolvimentismo (Brasília), a contraparte do “obrismo” tem sido o recrudescimento do desumanismo, com um aumento assustador da criminalidade. Em Montes Claros, são quase cem assassinatos brutais somente este ano, o que a coloca entre as cidades mais violentas do Estado. Pode-se atribuir isso – como se tem feito – às drogas, mas esta é uma justificativa genérica à qual nem mesmo as polícias têm totalmente direito; a sociedade merece toda eficácia dos poderes constituídos. A verdade básica é que assassinos e assassinados, violentadores e violentados, são, em sua maioria, jovens que andam a pé pela Antonio Carlos e não têm a serenidade necessária para curtir as praças de Montes Claros, situações cuja superação exige um gesto político novo dos governantes.
Obviamente, o desumanismo que vai tornando insuportável a vida nas cidades brasileiras não é privilégio nosso, também está presente pelo mundo afora, mas o fato é que aqui ele tem seus alvos bem definidos pela cor, raça, classe, gênero, idade etc. Há aqueles, a grande maioria, que estão mais sujeitos à agressão e à morte, que são exatamente os que mais dependem da cidade, do espaço urbano, para trabalhar, estudar, morar etc, que vivem (e morrem também) a cidade. E há aqueles, a minoria, que têm uma relação estratégica com a cidade, altamente segura. Nessa minoria, encontram-se praticamente todos os governantes, que precisam, por isso mesmo, aprender o tempo todo o que é a cidade que está, estará, sob sua responsabilidade. Aprendizado que, em paragens mais amadurecidas democraticamente (EUA, Europa), começa pelo diálogo entre quem governou e quem vai governar. Civilidade.