ANELITO DE OLIVEIRA - Devo atribuir o longo silêncio ao grau de intranquilidade que este ano naturalmente exala pelo país afora. A política não deveria ocupar o lugar que ocupa na vida de cada um de nós, como gostaríamos que não!, mas ocupa, e tudo tende a ficar mais brutal se insistimos em achar que não. No momento, encontramo-nos entre o pior, o mais pior e o pior ainda etc etc, uma situação que é, sobretudo, o escancaramento da política como destruição da política - palmas para Lula e seu PT alianceiro.
O que Dilma, Serra, Marina e Ciro - principais atores em cena - representam de autêntico, de diferente, de si-mesmo, em relação a Lula? Efetivamente, nada. Ninguém ostenta um projeto novo para o país, como se não houvesse mais possibilidade de novidade em termos societários por aqui, como se a história tivesse chegado ao fim com a ascensão petista ao poder federal.
O que Marina e Ciro, com seu desejo ardente de dizer alguma coisa comovente, dizem é o que, nos limites da situação, o Governo Lula tanto já disse. Ciro, com seu ânimo nordestino, acaba até por acrescentar algo em termos de repolitização da discussão, mas Marina, com sua toada climática, apenas alimenta um perigoso desvio das contradições sócio-históricas que demandam a ação política.
E estamos apenas no início de um ano com eleições para cargos executivos e legislativos, federais e estaduais. Sem dúvida, já vimos quase tudo em termos federais e alguma surpresa, se houver, surgirá em termos estaduais. E aí Lula entra novamente no jogo, como um fantasma onipresente - bom, para seus aliados, fãs, fiéis etc, mas péssimo para a política em si.
Lula entende que o importante é o PT preservar o comando do Governo Federal, garantindo a vitória de Dilma Roussef, deixando os Estados em segundo plano, nas mãos de aliados como PMDB, por exemplo. Falando bem a língua do presidente: os Estados devem funcionar como bucha de canhão para o PT ganhar a guerra.
Há nisso, antes de mais nada, um reflexo de concepção autoritária de poder que o PT, assim como os demais partidos no Brasil, trazem de nascença. Nessa concepção, para lembrar Hannah Arendt, o mandatário ocupa o topo da pirâmide, donde comanda seus subordinados, distribuídos entre os demais níveis.
Lula está pensando, então, na manutenção de Brasília, do topo da pirâmide federativa, e assim dá o golpe decisivo na cultura política de base que o próprio PT fomentou ao longo dos anos 80. Claro, já naquela década, o sonho - que Dilma e os assessores de Lula mais prestigiados não sonharam juntos com os então xiitas - era chegar ao topo da pirâmide, mas não para fazer o mesmo que todos que estiveram lá sempre fizeram: usar o interior do país, o Brasil profundo, apenas como massa de manobra para a conquista e manutenção de um poder paradoxalmente impotente: o que o PT fez ou faz nestes oito anos de impossível na nova ordem social mundial? Nada, absolutamente nada.
Claro que uma retomada da cultura política de base neste momento seria um gesto até dignificante para o partido, um raro presente de aniversário de 30 anos. Mas não. O PT, que em Minas Gerais tem um Patrus Ananias, com tantos quadros em SP e Rio, prefere concordar com o presidente pretensioso e provinciano em que Lula se converteu, o homem que reduz a complexidade inerente à política à banalidade do futebol, que só se interessa por gols, gols, gols: ninguém mexe em time que tá ganhando.
Estamos perdidos, para não dizer outra coisa.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
CULTURA | A alma do lixo
ANELITO DE OLIVEIRA - Começo aqui a nova safra, com uma imagem de Valdeir do Rosário no cabeçalho substituindo aquela de Sophie Calle. Trata-se de um dos 15 trabalhos da série "Os enjaulados", com a qual o artista mineiro investe numa inquietante ressignificação de imagens e suportes encontrados ao acaso em suas andanças por Belo Horizonte.
Na imagem acima, quem se entremostra é o poeta italiano Cesare Pavese (1908/1950), aquele que só saiu da "jaula" existencial pela via do suicídio. Outras figuras seminais do século XX foram pinçadas pelo artista, do fundo do monturo editorial com o qual convive diuturnamente, para essa série, como o crítico de arte pernambucano Mário Pedrosa (1901/1981).
Com uma obra já extensa, que vem se construindo discretamente ao longo das últimas duas décadas, Valdeir do Rosário nasceu em Bocaiúva (1968) e está radicado há vários anos em Belo Horizonte, com passagens pelo Rio de Janeiro e Diamantina. Artista versátil, transita, desde o início, pelo desenho, pintura, objeto, colagem, instalação etc.
Participou de algumas exposições coletivas na capital mineira nos últimos anos e de algumas iniciativas culturais, não chegando ainda a reunir seus trabalhos numa exposição individual propriamente dita. Essa pouca aparição pública é parte, sem dúvida, de sua personalidade artística, diz algo sobre uma conduta bastante particular.
Distante dos holofotes, é artista na contramão da cultura do espetáculo, envolvido pelo próprio fazer, exilado em sua própria arte. Tal postura já se insinuava em seus primeiros trabalhos, quando investia na exploração de temas estranhos não só em relação à arte brasileira, mas também em relação à cultura e ao meio-ambiente brasileiros.
Um dos seus primeiros trabalhos, realmente digno de atenção, foi a tela "Cangurus", índice de uma espécie de deslocamento de imaginário que acabou por se tornar uma constante na obra de Rosário. "Os enjaulados" são, certamente, índice desse deslocamento, que seria natural se se restringisse apenas a conteúdo, constituindo um procedimento irônico, arte que se faz com recursos da antiarte.
Todavia, a questão fundamental de Rosário não é a arte em si, mas a vida, e não a sua vida - o que resultaria numa atitude meramente lírica -, mas a vida em geral, não só a vida humana, mas também a vida dos bichos, a vida das coisas, a vida das cores, a vida do mundo, como se vê em séries como "Bichos sem conteúdo", "Livro aberto ao mar", "Todos sob tempestade" e "Mundo sobre mundo".
A "anima", a alma, aquilo que move a vida, é o que transparece como alvo do seu gesto artístico, seja no excesso de cor, na economia do traço ou na busca incansável de objetos plenos de sentido pelas ruas da cidade grande, numa vontade incontível de encontrar a humanidade imersa no lixo produzido a cada dia. Uma "matéria animada", para lembrar Giordano Bruno, é o que se ressalta na obra de Valdeir do Rosário.
Conheça o trabalho do artista no site http://www.valdeirdorosario.com.br/
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
LITERATURA | Criação
A proposta
Por aqui não acontece nada. E é por isso, por isso mesmo, está vendo?, que insisto em escrever. Há muita gente interessada em nada. Que nada aconteça. Que ninguém diga nada. Que todos fiquem em silêncio. Ou que todos digam futilidades. Dá no mesmo. Sempre se vai de nenhum lugar a lugar nenhum. Mas chega-se, assim, àquele lugar, àquele. Você sabe. Sabe bem onde fica. Aí. Esse lugar é político por excelência. Por isso mesmo censurado. Por isso mesmo intocável. Estremeceu, civilizadíssimo à mesa, diante daquela proposta. Enfiar o quê? É. Perigoso. Escandaloso e perigoso. Mais perigoso que escandaloso. Seria a revolução já. A frase, o berro, a frase berrante, tocava nessa imagem da intocabilidade. Dedo na toca. Enunciar o nada, provocar o desconhecido, tem dessas coisas. Desconcerta a ordem. Qual? A de cada um, obviamente. Não a ordem geral, a bandeira. A ordem interna. A que cada um internalizou. E daí a dificuldade de destruí-la. Sua destruição é a destruição da casa de cada um. E a casa, você sabe, é a vida de cada um. Destruir a casa é destruir a vida. A casa é a ética. Destruir a casa é destruir a ética de cada um. A casética, ou a éticasa, é um exterior no interior de cada um. Por isso mesmo, Sr., é preciso destruir a casa, a ética, a ordem, o interior para que algo, finalmente, possa acontecer. E o alvo, o ponto nevrálgico desse processo, é a ordem. A ordem que barra acontecimentos. A ordem que nada deixa acontecer. Mas o que acontecerá? Esse, aquele, estarrecimento diante da frase. Havia algo de coisal. Havia um sentimento de coisalidade. O mundo estava perto - no dedo. Agora tudo é discurso. Performance. Escrever é denunciar isso. O quê? O distanciamento do mundo. O desligamento, o desvanecimento disso. Estávamos ali - dentro do mundo. Tudo era muito sujo, vivo. Agora, nada.
domingo, 13 de dezembro de 2009
LITERATURA | Criação
Os inodoros
Entrou, como quem não queria nada, e nada disse. Tinham respostas para perguntas que faria. Sabia, e por isso mesmo se desviava deles. Não queria respostas. Perguntas? Já não tinha tanto interesse pela vida. Que ficassem com todas as respostas e perguntas em todas as suas variações. Tentava ver por cima deles, para além daqueles rostos previsíveis. Sentia alguma coisa, por certo, que passava por ali, mas não se restringia àquilo ali. Não estava exatamente nele o que sentia, e era um pouco da razão daquela chegada.
Súbito - segurando nas cadeiras, como quem deseja atravessar, seu jeito estranho de chegar. Mas estranhavam, estranhavam. Ele não era ele. Menos e mais, aquém e além. Estava fora de si mesmo. Mas era exatamente a resolução desse problema que interessava. Pensavam assim. Eis que a diferença irrompia nele como tal, uma desproporcionalidade. Caberia pensá-lo, talhá-lo, contê-lo. Novamente. Mais um dia. Tabalhar. Era uma questão de trabalho. Trabalhadores trabalhando seus semelhantes. Tinha um problema de funcionamento. Stress, stress.
Mas ele precisaria responder a impulsos lógicos, tudo é uma questão de lógica, lógica da vida. Na escala dos interesses, não da verdade. Ele, intransitivo, desinteressava-se pelo entorno. Ali estavam a sua frente. Nem amor nem ódio por ninguém. Respeito, óbvio, por qualquer coisa - deixa a coisa aí! Não viraria as costas. Sala pequena. Aproximava-se cada vez mais. E distanciava-se profundamente. Eram iguais, cópias. Eram terrivelmente iguais, como duas folhas de papel A4. Esforçava-se para sentir algum cheiro. Eram inodoros.
Mas eram educados, sem dúvida, por isso ansiavam por suas perguntas ou respostas. Como os feria aquela intransitividade! Ele não estaria ferido. Era o agressor - ele era o agressor. Nele, a humanidade se havia perdido naquele instante. Fera. Não ficariam ali, encurralados. Se tinham feito algo, se lhe tinham feito algo, tudo era justificável. Mas aquela situação era insustentável. Quem é você? Chega assim, de uma hora para outra, e nos olha como inimigos. Sim, eram inimigos. Um. Dois. Três. Todos - um reino inimigo. Não tinha nada mais a lhes dizer. Não eram dignos de ouvir.
- Então, vamos almoçar? -, disse o mais porco de todos.
LITERATURA | Criação
O retorno
O difícil era mesmo retornar. Ir não era tão fácil, mas até certo ponto era mais fácil. Mas retornar... difícil, como?. Havia muitos caminhos. Todos iguais e diferentes. Deveria escolher um deles, e caminhar. Estava a pé. Mas isso não significava nada. Se estivesse a cavalo, também sentiria a mesma dificuldade. Não sabia o que era andar a cavalo, mas sabia que também o cavalo faria o mesmo movimento de um lugar a outro. Qual? Teria que escolher entre muitos, não poderia escolher todos os caminhos. A pé, o fato de não dispor nem mesmo de um cavalo, situava a questão mais diante dele mesmo. Poderia andar menos ou andar mais. Poderia chegar facilmente aonde ia. Poderia se perder e não chegar a lugar nenhum. Era preciso escolher em face do próprio pé. O pé era, sem dúvida, um parâmetro fundamental nessa escolha. Estava a pé. Se tivesse pensado nisso realmente, não iria. Mas quando se quer ir, não se pensa tanto. Exatamente porque se sabe que não se vai. Exatamente porque se sabe que se fica no pensamento. Então, não pensara realmente no retorno. Tinha ido, e estava na hora de retornar. A pé. Ouvindo o próprio caminhar. Estaria sozinho por um longo tempo. Como isso lhe causava apreensão! Sozinho no caminho. Qualquer que fosse o caminho escolhido. Àquela hora, havia outras pessoas caminhando. Mas eram outras pessoas. Não o veriam. Também estariam sozinhas, ensimesmadas. Estaria sozinho. A pé, sempre se está sozinho. Inútil tentar se aproximar dos outros ao seu lado, também caminhando a pé. Estariam, a pé, encerrados numa distância intransponível. Ficaria em silêncio. O tempo todo caminhando em silêncio. Compenetrado em si mesmo. A apreensão se convertia em terror. Retornava ao mundo de onde tinha partido. Era melhor ficar ali. Parado. Olhando.
sábado, 12 de dezembro de 2009
CULTURA | Experiência de comunidade
ANELITO DE OLIVEIRA - A imagem no cabeçalho, de 2007, é de Sophie Calle, substituindo aquela de Maiakóvski, que ficou por um longo tempo contemplando, elegantemente, as coisas aqui. Tem sentido demais uma artista desconcertante entrando depois do poeta eternamente novo, incessante brilhar. Há aproximações possíveis - a interatividade, a alteridade, a espontaneidade etc -, mas não é isso que quero suscitar. A poética de Sophie Calle, elevando-se a partir de experiências de comunidade, colocou em relevo um referencial estranho à cena cultural brasileira neste momento. "Cuide de você", a exposição da artista que passou por São Paulo e Salvador, inscreve uma dúvida de ordem ontológica no rosto do sujeito, inquire-o na direção do ser. Solicitar a 107 mulheres uma abordagem da questão, tal como se processou o trabalho, é mais do que confessar que não se sabe o que é isso, o que é cuidar de si.
Mas o que é isso, afinal, isso de solicitar a outrem que diga aí, que pense sobre a questão que alguém, encerrando um relacionamento, enunciou? Pode ser um modo de sinalizar para uma compreensão de que o se é, o que se pensa que se é, é uma questão que diz respeito a outrem, é, portanto, uma questão ética por excelência. Mas, sendo assim, a ética não passa a constituir um entrave à afirmação mesma do sujeito, não passa a ser um parâmetro fadado a condenar o sujeito pela via do enquadramento na percepção do outro? Se a outrem cabe dizer o que eu sou, então não sou nem posso ser o que eu mesmo quero ser, não sou livre para fazer uma escolha fundamental, o que coloca esse trabalho da artista francesa na contramão da modernidade em termos ontológicos. Claro, nosso devir moderno sempre significou e ainda significa liberdade de poder ser, de ser tudo e nada, de não ser, também. Sophie Calle desvela uma espécie de horizonte intramoderno.
Por dentro, nas entranhas dos dias que temos vivenciado, no seio da experiência comum, na "comun-idade", não há uma identificação absoluta entre o que se diz e o que se é, mas um profundo distanciamento entre sujeito - o que enuncia em relação a um objeto - e ser - o que silencia em relação ao mundo. Assim se torna compreensível que um "Cuide de você" seja recebido com estranheza, como expressão sem significado suficiente, que pode ser decodificada a contento pela comunidade, por uma comunidade de mulheres, no caso. Desviar a questão de um sujeito e compartilhá-la com outrem, com o aval de uma compreensão aberta da arte, é atestar a necessidade de um enfrentamento verdadeiro de questões fundamentais que o próprio sujeito, imerso no cinismo cotidiano, já não consegue empreender. Só o ser, que porta a dimensão do cuidado, da "cura" (Heidegger), sabe o que é cuidar de si. Sophie Calle aguça esta compreensão.
sábado, 5 de dezembro de 2009
JORNALISMO | Micropolítica do afeto
ANELITO DE OLIVEIRA - Vejo que novembro já acabou e dezembro já está aí, derramando-se. Vai ficando cada vez mais difícil perceber a passagem do tempo. Parece que está tudo sempre igual, que todos os dias têm a mesma cara. Um fato apenas me provoca a pensar que não, que estes últimos sete dias são diferentes dos demais: a morte do jornalista, crítico literário e, antes de mais nada, poeta Alécio Cunha. Aconteceu por volta de meia-noite, sábado passado, em Belo Horizonte. Estava internado desde o início de outubro em função de um AVC, como comentei aqui em postagem anterior. Uma lástima!, e claro que é pouco dizer assim, soa como frase feita, uma terrível lástima!, pior ainda. O que dizer diante de uma morte tão prematura, aos 40 anos, sobretudo quando nos sabemos com o vício de considerar toda morte como fato antes do tempo? O que dizer para além do previsível? Não é fácil falar da morte, sobretudo quando se trata da morte de alguém que, na sua existência, revelou-se tão vivo, tão vivaz. Mas é preciso encontrar um jeito de falar - fiquei pensando estes dias - para intensificar a chama dessa vivacidade, para manter resistentemente acesa uma imagem.
Conheci Alécio Cunha através dos seus textos no jornal "Hoje em dia", onde atuou nos últimos 13 anos, por volta de 1996. Chamou-me a atenção a competência com que tratava informações relativas à poesia contemporânea, dos concretos para cá. Deve ter sido em 1997, setembro, nosso primeiro encontro pessoal, quando fui à redação daquele jornal divulgar o lançamento do primeiro número da revista "Orobó". Ao ser perguntado sobre mim - creio que pelo editor do caderno de cultura, Roberto Mendonça -, Alécio disse, naquele entusiasmo juvenil que tanto o distinguia: Anelito de Oliveira? Claro que conheço, do jornal "Não", lá da UFMG, dos textos no jornal "Estado de Minas", de amigos comuns etc. Atendeu-me com uma generosidade surpreendente, revelando uma consideração enorme por algo - minhas investidas artístico-culturais - que eu mesmo via a partir de um viés natural, sem ênfase, apenas como tentativas de fazer alguma coisa. Alécio revelava ali aquela que passou a ser, para mim, sua principal virtude profissional, aquilo que dizia que nele o jornalismo era, no fundo, uma questão de humanidade: o respeito pelo trabalho do outro.
Num período em que os media passaram por profundas transformações, de meados dos anos 1990 a esta primeira década dos anos 2000, o jornalista Alécio Cunha deu uma contribuição decisiva, na capital mineira, para a permanência da relação dos leitores com jornal impresso, deu estímulo novo a essa relação. Essa contribuição foi a inscrição de índices de personalidade, elementos de ordem ética e moral, na produção de notícias, de modo que o que Alécio reportava e escrevia vinha com suas digitais inconfundíveis, notícias com substância, sem o superficialismo noticioso que acabou por se rotinizar, e escritas com elegância, com um estilo próprio, informando e formando a um só tempo, ou pelo menos tentando formar. O “Hoje em dia” passou a ser, no âmbito do jornalismo cultural mineiro, uma referência de qualidade na cobertura de livros e eventos de literatura, tudo encontrando em Alécio Cunha uma recepção no mínimo sensível. A abordagem de Alécio – antes, no dia ou depois do fato literário se processar – tornou-se, pouco a pouco, um gesto sempre esperado por autores, editores, livreiros e leitores, uma espécie de carimbo de que algo – um livro, um lançamento, uma performance – realmente começava a existir.
Naturalmente, a atenção devotada por Alécio à literatura tinha a ver com o fato de que era poeta e leitor insaciável, mas tinha a ver, fundamentalmente, com uma compreensão crítica da sociedade contemporânea e da indústria cultural, do lugar que impulsionou a expansão do jornal e hoje autoriza sua própria estrangulação. O cuidado de Alécio Cunha com a literatura sempre me fez pensar - e agora ainda mais - que, para ele, a literatura era referência de um mundo outro ou, melhor, de um modo outro de estar no mundo, era algo de benjaminiano, aurático, viés que encontra ressonância em sua poesia inatualizante: “Lírica caduca”, “Mínima memória”. Na literatura, Alécio se relacionava, especialmente, com a poesia, abordando, noticiando, resenhando quase tudo que saía de poetas estreantes ou veteranos, relacionava-se, portanto, com a margem da literatura. A positividade com que enfocava o trabalho dos poetas era, sem dúvida, a alegoria de uma defesa da poesia contra a barbárie que, nestas últimas duas décadas, foi-se estabelecendo como princípio de sociabilidade no país. O poeta Alécio, demasiadamente humano, fez no seu jornalismo pontual aquilo que a maioria não consegue fazer na literatura, na universidade, na vida: uma cativante micropolítica do afeto.
Conheci Alécio Cunha através dos seus textos no jornal "Hoje em dia", onde atuou nos últimos 13 anos, por volta de 1996. Chamou-me a atenção a competência com que tratava informações relativas à poesia contemporânea, dos concretos para cá. Deve ter sido em 1997, setembro, nosso primeiro encontro pessoal, quando fui à redação daquele jornal divulgar o lançamento do primeiro número da revista "Orobó". Ao ser perguntado sobre mim - creio que pelo editor do caderno de cultura, Roberto Mendonça -, Alécio disse, naquele entusiasmo juvenil que tanto o distinguia: Anelito de Oliveira? Claro que conheço, do jornal "Não", lá da UFMG, dos textos no jornal "Estado de Minas", de amigos comuns etc. Atendeu-me com uma generosidade surpreendente, revelando uma consideração enorme por algo - minhas investidas artístico-culturais - que eu mesmo via a partir de um viés natural, sem ênfase, apenas como tentativas de fazer alguma coisa. Alécio revelava ali aquela que passou a ser, para mim, sua principal virtude profissional, aquilo que dizia que nele o jornalismo era, no fundo, uma questão de humanidade: o respeito pelo trabalho do outro.
Num período em que os media passaram por profundas transformações, de meados dos anos 1990 a esta primeira década dos anos 2000, o jornalista Alécio Cunha deu uma contribuição decisiva, na capital mineira, para a permanência da relação dos leitores com jornal impresso, deu estímulo novo a essa relação. Essa contribuição foi a inscrição de índices de personalidade, elementos de ordem ética e moral, na produção de notícias, de modo que o que Alécio reportava e escrevia vinha com suas digitais inconfundíveis, notícias com substância, sem o superficialismo noticioso que acabou por se rotinizar, e escritas com elegância, com um estilo próprio, informando e formando a um só tempo, ou pelo menos tentando formar. O “Hoje em dia” passou a ser, no âmbito do jornalismo cultural mineiro, uma referência de qualidade na cobertura de livros e eventos de literatura, tudo encontrando em Alécio Cunha uma recepção no mínimo sensível. A abordagem de Alécio – antes, no dia ou depois do fato literário se processar – tornou-se, pouco a pouco, um gesto sempre esperado por autores, editores, livreiros e leitores, uma espécie de carimbo de que algo – um livro, um lançamento, uma performance – realmente começava a existir.
Naturalmente, a atenção devotada por Alécio à literatura tinha a ver com o fato de que era poeta e leitor insaciável, mas tinha a ver, fundamentalmente, com uma compreensão crítica da sociedade contemporânea e da indústria cultural, do lugar que impulsionou a expansão do jornal e hoje autoriza sua própria estrangulação. O cuidado de Alécio Cunha com a literatura sempre me fez pensar - e agora ainda mais - que, para ele, a literatura era referência de um mundo outro ou, melhor, de um modo outro de estar no mundo, era algo de benjaminiano, aurático, viés que encontra ressonância em sua poesia inatualizante: “Lírica caduca”, “Mínima memória”. Na literatura, Alécio se relacionava, especialmente, com a poesia, abordando, noticiando, resenhando quase tudo que saía de poetas estreantes ou veteranos, relacionava-se, portanto, com a margem da literatura. A positividade com que enfocava o trabalho dos poetas era, sem dúvida, a alegoria de uma defesa da poesia contra a barbárie que, nestas últimas duas décadas, foi-se estabelecendo como princípio de sociabilidade no país. O poeta Alécio, demasiadamente humano, fez no seu jornalismo pontual aquilo que a maioria não consegue fazer na literatura, na universidade, na vida: uma cativante micropolítica do afeto.
domingo, 8 de novembro de 2009
LITERATURA | Criação
As maçãs
Suponhamos que havia muitos anos que esperavam por aquelas maçãs, diariamente reparando os caminhões passando carregados. Mestiços do Mucuri - nutrição, tanto quanto desnutrição, também é uma questão étnica. Ali estavam, pois, entre chorar e devorar - e, se chorassem, a polícia, as ongs, os políticos, podiam chegar. Toda uma geração, inúmeros, tornou-se imposssível discutir questões de direito.
Uns queriam caixas, e se lançavam de qualquer jeito, outros queriam apenas umas cinco unidades, mas também estavam afobados, queriam comer na hora, com as mãos sujas, lambendo os beiços. No fundo, havia um consenso em torno de uma espécie de significado do paraíso, o que era isso em termos estomacais. Antes era, e depois também seria, apenas a vontade, sempre em suspensão, de comer maçã - o inferno do desejo.
Estavam saboreando as maçãs, e gostariam muito, muito mesmo, que o motorista também participasse da ceia, enchesse a cara. Olhando nas ferragens, concluíam, pensando com ciência, que o motorista não se sentiria bem, ficaria com pena do dono da firma, sentimento de trabalhador, deixasse ele lá, pois, esmagado. Como esperaram por aquele milagre mediado por um desastre! Finalmente, Deus.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
CULTURA | O desmoronamento do IMS
ANELITO DE OLIVEIRA - Como receber a notícia do fim das atividades do Instituto Moreira Salles (IMS) em Belo Horizonte, com o fechamento do seu elegante espaço em pleno centro da cidade, senão como um desastre cultural de proporções nacionais? E como acreditar, por outro lado, que as autoridades públicas municipais, estaduais e federais, bem como setores da iniciativa privada, tenham deixado, estejam deixando, tal fato acontecer?
Talvez isso – a permissão do desastre - diga muito sobre a permanência no país de um desinteresse das elites socioeconômicas pelo acesso, por parte das pessoas em geral, a bens culturais que conscientizam, humanizam e transformam modos de estar no mundo. Para quê, sobretudo, transformar pessoas, principalmente pobres? São mais úteis ao sistema, sem dúvida, do jeito que estão, sem saber sequer de onde vieram, o que as distinguem das coisas – enfim, são mais úteis sem passar efetivamente pela “perturbação” da cultura.
O IMS foi, ao longo dos últimos anos, não só uma referência cultural em meio à brutalidade e banalidade cotidiana de uma metrópole, mas uma referência de modo outro, inteligente, de lidar com a cultura, muito diverso daquele exibido historicamente pelos órgãos municipais e estaduais, viciados no “pão e circo”. O IMS sempre ostentou uma compreensão altamente generosa de público, rompendo com preconceitos históricos e disponibilizando, para as pessoas em geral, obras de arte contemporânea, gestos literários e musicais dos mais elevados.
Sob a sensível direção do poeta Antonio Fernando de Franceschi – um homem raríssimo, da estatura de alguns dos maiores que este país já produziu, um Mário de Andrade, um Antonio Candido -, o IMS vinha desempenhando um papel de agregador e formador de pessoas pela cultura, oportunizando um envolvimento sóbrio, pensado, com a arte. Suas ações o distinguiram, desde o início, de espaços culturais públicos, como os Centros Culturais BH e UFMG, bem como o “engessado”, restritivo, Palácio das Artes.
Em BH como em outras cidades do país, os espaços mantidos pelo IMS configuraram, de meados dos anos 90 para cá, um exemplo extraordinário, sem precedentes, de responsabilidade sociocultural por parte da iniciativa privada. Franceschi, como fiz questão de lhe dizer tantas vezes, foi nosso Ministro da Cultura ideal ao longo deste tempo. E se tudo parece estar desmoronando ante o olhar cínico dos Governos, da mídia e dos “homens cordiais”, convencionais, é porque este país é mesmo, como Bianchi nos provou, cronicamente inviável.
Talvez isso – a permissão do desastre - diga muito sobre a permanência no país de um desinteresse das elites socioeconômicas pelo acesso, por parte das pessoas em geral, a bens culturais que conscientizam, humanizam e transformam modos de estar no mundo. Para quê, sobretudo, transformar pessoas, principalmente pobres? São mais úteis ao sistema, sem dúvida, do jeito que estão, sem saber sequer de onde vieram, o que as distinguem das coisas – enfim, são mais úteis sem passar efetivamente pela “perturbação” da cultura.
O IMS foi, ao longo dos últimos anos, não só uma referência cultural em meio à brutalidade e banalidade cotidiana de uma metrópole, mas uma referência de modo outro, inteligente, de lidar com a cultura, muito diverso daquele exibido historicamente pelos órgãos municipais e estaduais, viciados no “pão e circo”. O IMS sempre ostentou uma compreensão altamente generosa de público, rompendo com preconceitos históricos e disponibilizando, para as pessoas em geral, obras de arte contemporânea, gestos literários e musicais dos mais elevados.
Sob a sensível direção do poeta Antonio Fernando de Franceschi – um homem raríssimo, da estatura de alguns dos maiores que este país já produziu, um Mário de Andrade, um Antonio Candido -, o IMS vinha desempenhando um papel de agregador e formador de pessoas pela cultura, oportunizando um envolvimento sóbrio, pensado, com a arte. Suas ações o distinguiram, desde o início, de espaços culturais públicos, como os Centros Culturais BH e UFMG, bem como o “engessado”, restritivo, Palácio das Artes.
Em BH como em outras cidades do país, os espaços mantidos pelo IMS configuraram, de meados dos anos 90 para cá, um exemplo extraordinário, sem precedentes, de responsabilidade sociocultural por parte da iniciativa privada. Franceschi, como fiz questão de lhe dizer tantas vezes, foi nosso Ministro da Cultura ideal ao longo deste tempo. E se tudo parece estar desmoronando ante o olhar cínico dos Governos, da mídia e dos “homens cordiais”, convencionais, é porque este país é mesmo, como Bianchi nos provou, cronicamente inviável.
sábado, 31 de outubro de 2009
JORNALISMO | Incidentes de outubro
ANELITO DE OLIVEIRA - O mês de outubro começou e terminou com dois incidentes terríveis em Belo Horizonte, os quais, além de me chamar a atenção, acabaram por me tocar, chocar, entristecer, por razões humanas e culturais: o AVC sofrido pelo jornalista, crítico literário e poeta Alécio Cunha e a morte prematura do artista plástico Fernando Fiúza. São dois dos nomes mais expressivos do cenário cultural e jornalístico da capital mineira, com uma contribuição extraordinária, constante, há anos, e pelos quais sempre tive respeito e admiração. Não cheguei a conhecer Fiúza pessoalmente; talvez o tenha até avistado alguma vez - sua imagem na foto (no "Hoje em Dia" de ontem, diário onde Alécio construiu sua brilhante carreira de jornalista cultural) me parece familiar, correspondendo, alias, à sobriedade que sempre percebi no seu trabalho.
Alécio Cunha, por sua vez, sempre foi um entusiasta das ações culturais que encaminhei ao longo dos anos 90 em Belo Horizonte: o jornal "Não", a revista "Orobó", os livros da Orobó Edições, o Suplemento Literário de Minas Gerais; foi o primeiro a revelar um olhar pró-ativo, na imprensa belorizontina, sobre a minha ida para o Suplemento, atitude que se manteve ao longo dos quase cinco anos em que estive à frente da criatura de Rubião, mesmo nos momentos em que, no próprio “Hoje em Dia”, o poeta Marcelo Dolabela, movido por questões menores, pedia renitentemente ao governador a minha “cabeça”. Super-sociável, Alécio, no exercício do jornalismo, sempre esteve ao lado da generosidade, da solidariedade, configurando-se como um exemplo de dignidade profissional.
Sempre me vi como um amigo seu e sempre o tive como um amigo raro, um grande companheiro de geração, um dos poucos em que se encontram inteligência e sensibilidade sinceras. Quando lancei meu primeiro livro solo em 2000, o fracassado Lama, Alécio estampou notícia e resenha na capa do caderno de cultura do “Hoje em Dia”. Quando publicou seu primeiro livro em 1999, o surpreendente Lírica caduca, escrevi uma resenha no Segundo Caderno do jornal "Estado de Minas", acolhida por um outro escritor e jornalista mineiro admirável, Jorge Fernando dos Santos, que a estampou com o título de “O peso e a prisão em Lírica caduca”. Com o título original – “O peso e a prisão” -, segue aqui essa reflexão sobre Alécio poeta nascente, na esperança de tantos outros encontros, projetos, conversas pela vida.
O peso e a prisão
ANELITO DE OLIVEIRA - O primeiro livro de Alécio Cunha, Lírica caduca (Por Ora, 1999), encontra seu mérito, sobretudo, na coragem de um “eu” confessar seu fracasso, ainda que, talvez, contra sua própria vontade: “(não suporto)” , está escrito ali no encerramento de um poema que parece se empenhar justamente em descrever uma paisagem poética, um cenário de poesia . O encerramento se conecta imediatamente com o título do texto, que é “Anjo manco”, o impossibilitado de caminhar normalmente, aquele que, arrastando-se, não consegue ir muito longe, logo se cansa e para. Realmente – pensamos ao final da leitura – era preciso que um “eu” se anunciasse para que aquele título alcançasse uma maior coerência: a caminhada é insuportável porque falta segurança nas pernas. Contudo, se não estamos no chamado “mundo real” de que falamos comumente e sim numa “realidade de signos” (Haroldo de Campos), é válido perguntar pelo motivo dessa insegurança.
Por força do lugar geográfico que o homem habita, este lugar-Minas, e da atmosfera poética brasileira que o artista respira atualmente, o poema de Alécio Cunha é concentrado em si mesmo, não nomeia nada além de seu próprio corpo que, na verdade, não passa de uma sombra, a ilusão de um corpo, um mito apenas, logo: o autor apenas deseja nomear quando pensa estar nomeando. A insegurança do poeta, seu reconhecimento metonímico indireto, como “anjo manco”, desestabilizado, demonstra uma certa insatisfação com essa incapacidade do poema, estabelecida pelos seus censores disfarçados, de nomear algo mais que si mesmo, de sair de sua sombra. Alécio Cunha não concorda com esse veredicto, não suporta esse quadro supostamente exótico, quer alcançar o fora do poema, trazer esse fora para dentro, mas o poeta, sua máscara-mecanismo para realizar tal gesto, é manco, falta-lhe agilidade para dar o salto, falta-lhe aquela “rapidez” sustentada por Ítalo Calvino como uma das qualidades estéticas fundamentais para o próximo (este) milênio.
Desta visada, outra questão se apresenta, colocando-se mesmo como pano de fundo do mínimo drama do poeta: a tradição poética, que tem inegável presença no trabalho em questão, é um peso, mas o instante poético, a atual cena neoparnasiana que se verifica no Brasil, é uma prisão. Depreende-se um posicionamento ativo diante da tradição mais longínqua e mais recente em poemas como “Pós-Baudelaire”, “Nau Caetana” e, principalmente, “Lendo Drummond”, que tem a astúcia sempre desejável de articular texto e lugar: “exigir da pedra/nenhuma explicação/ pelos caminhos”. Dir-se-ia que o poeta tem consciência de que é preciso desdizer, romper com uma “lírica caduca”, bem como é preciso colocar algo no lugar, pois esse algo é que denuncia a presença de alguém por trás de uma linguagem. É preciso dizer, mas dizer o quê? De uma latente incerteza decorre uma frustração generalizada neste primeiro livro de Alécio Cunha, um constante “fracasso-êxito” (Sartre) que aponta para uma colocação do desatino da existência moderna antes das convenções morais pós-modernas.
Frustração encontra-se, por exemplo, no final do poema que dá título à pequena coletânea, “Lírica Caduca”, e em “Geográfica”. No primeiro: “há uma gota de sangue/em cada luar”; no começo e fim do segundo: “desesperar resposta/desesquecer o tapa/ (...) sumir do mapa”. Ambos estão longe de serem perfeitos do ponto de vista da construção, vão-se enfraquecendo lentamente como se quisessem desistir de sua própria realização, como se se realizassem a contragosto, um enfraquecimento que acaba por constituir o anteclímax da frustração final. No rastro dessa frustração é preciso ver, contudo, o traçamento de uma rápida cartografia da “agoridade”, do espaço-tempo que reúne o ontem e o hoje, passado e presente, Modernismo e Pós-vanguarda. Essa frustração é uma contribuição significativa do poeta Alécio Cunha, principalmente à medida que faz emergir Mário de Andrade (“Há uma gota de sangue em cada poema”) num ponto sanguíneo, o que parece estar dizendo, analogicamente, que o poeta só pode existir como tragédia, não?
Texto publicado no jornal Estado de Minas, Segundo Caderno, em 1999, aqui redigitado por Guilherme Fernando, menino nosso, que Alécio conheceu quando pequeno e sobre quem me perguntava duas semanas antes de adoecer, no mês de setembro último, quando nos reencontramos na redação do Hoje em Dia depois de quase cinco anos de distanciamento em função dos meus muitos deslocamentos.
JORNALISMO | 17 vezes ali havendo
ANELITO DE OLIVEIRA - De fato, chegou ao fim, há dias, o segundo movimento sob o signo do que estou entendendo por havência – e, desde então, contemplo o silêncio a distância de quem estranha. Estou reconhecendo, nesta última noite de outubro, que a 17a carta foi a última, deve ficar como a última, contrariando até a mim mesmo, que relutava que fosse a última: escrever é resistir a desistir, desejar o desejar. Mas continuar dizendo assim, tentando dizer – já que admito, de um certo horizonte, a possibilidade de nada efetivamente ter sido dito 17 vezes ali havendo -, seria ultrapassar o limite que, neste acontecimento escritural, interessa apenas forçar: além dali é surreal, ainda que ali mesmo o seja a seu tanto já também. O que há, uma havência, está no limite do que não há, da ausência. As cartas se destinaram a essa situação, a dar a ver uma cartografia do corresponder, a havência disso que se faz contra a solidão.
domingo, 25 de outubro de 2009
LITERATURA | Criação
décima sétima carta
devo parar de te escrever.
não porque você esteja suficientemente escrita, mas porque a vontade de escrever é só sua - e infinita: uma espécie de morte.
a escrita, lançada daqui, não te alcança.
no fundo, te perde no desejo mesmo de te alcançar
{você bosque demais.
pede notícias, exterioridades, significados -
sempre a ânsia de ter o mundo mais perto.
não há o que remeter para além deste -
o remetente.
a carta é o que não chega a ser -
e, na sua insuficiência,
arfando como um urso na neve,
é.
lembranças.
eu
devo parar de te escrever.
não porque você esteja suficientemente escrita, mas porque a vontade de escrever é só sua - e infinita: uma espécie de morte.
a escrita, lançada daqui, não te alcança.
no fundo, te perde no desejo mesmo de te alcançar
{você bosque demais.
pede notícias, exterioridades, significados -
sempre a ânsia de ter o mundo mais perto.
não há o que remeter para além deste -
o remetente.
a carta é o que não chega a ser -
e, na sua insuficiência,
arfando como um urso na neve,
é.
lembranças.
eu
sábado, 24 de outubro de 2009
LITERATURA | Criação
décima sexta carta
por si só, bastante como se apresenta, incessante movimento no mesmo lugar, indo, vindo, indo - mas não, falta, falto ali, devo faltar,
então, explicações, palavras contra o que está sendo, para desfazer o que quer ser, que ainda não chegou a - e a janela, aberta, fecha
-se, ali, lembra, não mais percebe o aberto, a eternidade se dando a ver, como no poema de rilke, sem a apreensão da finitude, puro animal vendo,
a lembrança, os comprometimentos, o trabalho o trabalho o tripalium!, o mundo como tortura, os outros como inferno - explicações,
o verdejante amanhecer dos singelos povoados, o amarelecer da tarde sobre o mar enquanto andamos -
sem palavras.
lembranças.
eu
por si só, bastante como se apresenta, incessante movimento no mesmo lugar, indo, vindo, indo - mas não, falta, falto ali, devo faltar,
então, explicações, palavras contra o que está sendo, para desfazer o que quer ser, que ainda não chegou a - e a janela, aberta, fecha
-se, ali, lembra, não mais percebe o aberto, a eternidade se dando a ver, como no poema de rilke, sem a apreensão da finitude, puro animal vendo,
a lembrança, os comprometimentos, o trabalho o trabalho o tripalium!, o mundo como tortura, os outros como inferno - explicações,
o verdejante amanhecer dos singelos povoados, o amarelecer da tarde sobre o mar enquanto andamos -
sem palavras.
lembranças.
eu
LITERATURA | Criação
décima quinta carta
era para ter sido enviada de lá, com o que se passava [relevos, eucaliptos, casebres], à medida que, sem chegar a pensar [desamparo, operárias, imundície]. todavia, resistimos a nós mesmos, como se houvesse possibilidade de sair integralmente disso que sempre foi a condição intramundana [um clarão na merda], como se houvesse saída para fora quando tudo é absolutamente dentro [percepto]. pensamos, duvidamos, voltamos - com a letra no bolso.
lembranças.
eu
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
LITERATURA | Criação
décima quarta carta
ouvindo nelson cavaquinho outro dia, depois de tanto tempo, aquele sol que não pode viver perto da lua, não é que não queira, é que não pode,
o que é o sol?,
o que é a lua? e,
finalmente,
o que é viver? - é no que penso agora. sempre o distanciamento, sempre a impossibilidade de coexistência, a tal ponto que vai ficando possível, como não?, falar em incompossibilidade de mundos, falar de gritantes contrariedades.
estava tão claro,
e como está escuro!,
tudo se mostrava como agora se esconde.
perto.
lembranças.
eu
ouvindo nelson cavaquinho outro dia, depois de tanto tempo, aquele sol que não pode viver perto da lua, não é que não queira, é que não pode,
o que é o sol?,
o que é a lua? e,
finalmente,
o que é viver? - é no que penso agora. sempre o distanciamento, sempre a impossibilidade de coexistência, a tal ponto que vai ficando possível, como não?, falar em incompossibilidade de mundos, falar de gritantes contrariedades.
estava tão claro,
e como está escuro!,
tudo se mostrava como agora se esconde.
perto.
lembranças.
eu
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
LITERATURA | Criação
décima terceira carta
por tantas vezes tem sido a primeira vez. penso, como não?, em zenão. você diz, quer dizer, que não, que haja progressão - de um a... devemos chegar a algum lugar, devemos aportar - ítaca!
pois é. somos o que aconteceu depois - o burguês, a burguesa, o trabalho, o dinheiro, o stress, o desencantamento, o fim.
a não progressão, o estado de somente estar, é um nunca chegar em casa para nunca estruturar sociedade nenhuma, para nunca chegar a um mundo onde até as tartarugas perdem a cabeça.
lembranças.
eu
por tantas vezes tem sido a primeira vez. penso, como não?, em zenão. você diz, quer dizer, que não, que haja progressão - de um a... devemos chegar a algum lugar, devemos aportar - ítaca!
pois é. somos o que aconteceu depois - o burguês, a burguesa, o trabalho, o dinheiro, o stress, o desencantamento, o fim.
a não progressão, o estado de somente estar, é um nunca chegar em casa para nunca estruturar sociedade nenhuma, para nunca chegar a um mundo onde até as tartarugas perdem a cabeça.
lembranças.
eu
LITERATURA | Criação
décima segunda carta
digamos que, nesta tarde, alguém tivesse ido até o portão, pensando ter ouvido algo que nem mesmo bob, o pequeno cão adoentado, ouviu.
abriu, e ficou esperando que alguém se apresentasse. ficou ali, do lado de dentro, durante muito tempo, esperando. quem era, não se apresentou.
o que lhe restou foi apenas fechar o portão depois de tentar, insistentemente, ver quem é que estava ali, que visitante havia chegado sem avisar.
terá isso algum significado muito claro, tanto que enunciá-lo lhe parece redundante demais. digamos apenas que você tem estado no mundo, sem dúvida.
lembranças.
eu
digamos que, nesta tarde, alguém tivesse ido até o portão, pensando ter ouvido algo que nem mesmo bob, o pequeno cão adoentado, ouviu.
abriu, e ficou esperando que alguém se apresentasse. ficou ali, do lado de dentro, durante muito tempo, esperando. quem era, não se apresentou.
o que lhe restou foi apenas fechar o portão depois de tentar, insistentemente, ver quem é que estava ali, que visitante havia chegado sem avisar.
terá isso algum significado muito claro, tanto que enunciá-lo lhe parece redundante demais. digamos apenas que você tem estado no mundo, sem dúvida.
lembranças.
eu
LITERATURA | Criação
décima primeira carta
você me pergunta pelas coisas. sempre o desejo de saber, como se eu soubesse algo sobre alguma coisa. você, certamente, sabe - e desejo que não me diga nada.
mas as coisas, não há dúvida, existem, dão-se a ver - e em certos momentos fica mesmo impossível não vê-las.
por exemplo, o telhado das casas do alto daquele mirante. parece outra cidade. quando tudo começou, não pensei que chegasse a tanto, que haveria um limite.
todavia, não estou bem certo se aquilo que vejo dali realmente existe, se chega a ser uma coisa ou é viagem minha. talvez seja.
quando penso nessa distorção entre o que vejo e o que sinto aqui, tendo a concluir que não devo atender a seu pedido de informação.
concluo.
lembranças.
eu
você me pergunta pelas coisas. sempre o desejo de saber, como se eu soubesse algo sobre alguma coisa. você, certamente, sabe - e desejo que não me diga nada.
mas as coisas, não há dúvida, existem, dão-se a ver - e em certos momentos fica mesmo impossível não vê-las.
por exemplo, o telhado das casas do alto daquele mirante. parece outra cidade. quando tudo começou, não pensei que chegasse a tanto, que haveria um limite.
todavia, não estou bem certo se aquilo que vejo dali realmente existe, se chega a ser uma coisa ou é viagem minha. talvez seja.
quando penso nessa distorção entre o que vejo e o que sinto aqui, tendo a concluir que não devo atender a seu pedido de informação.
concluo.
lembranças.
eu
LITERATURA | Criação
décima carta
sempre digo que nada deveríamos,
que deveríamos, alias, parar de dever, mas você continua comprando, comprando, essas sacolas de angústia de marca, tudo vai-se acumulando, acumulando, os comunicados ofensivos chegando na caixa de correios, credores, como lobos, uivando lá fora,
o ideal seria jogar fora, amontoar tudo na porta do inferno,
que você insiste em chamar belamente de shopping,
mas você se preocupa, no fim das contas, ainda se preocupa com a sustentabilidade ambiental, não quer produzir mais lixo, quer salvar o mundo, você, obama e marina, apesar do capitalismo, com a colaboração dos santos capitalistas,
uma coisa não tem nada a ver com a outra,
tem?
lembranças.
eu
sempre digo que nada deveríamos,
que deveríamos, alias, parar de dever, mas você continua comprando, comprando, essas sacolas de angústia de marca, tudo vai-se acumulando, acumulando, os comunicados ofensivos chegando na caixa de correios, credores, como lobos, uivando lá fora,
o ideal seria jogar fora, amontoar tudo na porta do inferno,
que você insiste em chamar belamente de shopping,
mas você se preocupa, no fim das contas, ainda se preocupa com a sustentabilidade ambiental, não quer produzir mais lixo, quer salvar o mundo, você, obama e marina, apesar do capitalismo, com a colaboração dos santos capitalistas,
uma coisa não tem nada a ver com a outra,
tem?
lembranças.
eu
LITERATURA | Criação
nona carta
você ainda acredita na verdade, chora quando alguém lhe diz algo comovente, por exemplo, que margarida, a amiga, está morrendo,
mesmo que seja um vegetal, mesmo que quem lhe diz isso esteja se referindo a uma preocupação com o jardim,
tanto faz,
a verdade, para você, é isso,
alguém dizendo diferentemente alguma coisa, é a verdade para você, segundo o que você concebe como verdade,
e é assim mesmo que você vai-se revelando a própria verdade,
você é a verdade,
quando penso em você,
e como tenho pensado!,
penso exatamente nisso: alguém chorando desconsoladamente pelo mundo
lembranças.
eu
você ainda acredita na verdade, chora quando alguém lhe diz algo comovente, por exemplo, que margarida, a amiga, está morrendo,
mesmo que seja um vegetal, mesmo que quem lhe diz isso esteja se referindo a uma preocupação com o jardim,
tanto faz,
a verdade, para você, é isso,
alguém dizendo diferentemente alguma coisa, é a verdade para você, segundo o que você concebe como verdade,
e é assim mesmo que você vai-se revelando a própria verdade,
você é a verdade,
quando penso em você,
e como tenho pensado!,
penso exatamente nisso: alguém chorando desconsoladamente pelo mundo
lembranças.
eu
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