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sábado, 8 de agosto de 2009

LITERATURA | Isso, a poesia, um poeta

No desespero para ganhar ilusoriamente a vida, os textos vão ficando pelos cantos, sempre “para depois”, para um momento que nunca chega, amarelando. Na maioria das vezes, pela dificuldade de publicação em papel – especialmente, em papéis legitimados como mais valiosos na cultura ocidental, que detêm mais prestígio: jornal, revista, livro. Com a internet – mais ainda, com a possibilidade de ter um espaço mais ou menos personalizado aqui –, é possível dar visibilidade a coisas que, por tantos motivos, não foram nem têm sido publicadas em papel. Não é, naturalmente, a mesma visibilidade. Meios diferentes, receptores idem.
O que me interessa mais aqui é a possibilidade de compartilhar tantos escritos, de ontem e de hoje, que nunca quis nem quero que sejam apenas do meu conhecimento, que existam apenas para mim. Nunca escrevi nem escrevo apenas para mim, o que não quer dizer que escreva, como tantos, apenas para outrem: escrevo para a relação, na relação, relacionalmente, digamos. Daí uma dificuldade histórica de publicar: isso não agrada ao leitor, segundo os donos dos “media”, que é sempre o leitor que esses donos querem formatar, ideal, bestial. Escrevo, sem dúvida, contra esse leitor, na contramão do que o define.
Há 18 anos, no terrível 1991, escrevi um texto sobre o primeiro livro daquele que reconheço como um dos agentes culturais mais significativos dos anos 80, com uma atuação intensa em Minas Gerais até meados dos anos 90: José Edward Vieira Lima.
A Pátria que te pariu, título desse livro, era a exata medida de uma consciência crítica pegando fogo. O livro vinha na sequência de um trabalho de pesquisa extraordinário sobre o músico do sertão norte-mineiro Zé Coco do Riachão, que resultou no livro Artesão de sons, uma contribuição das mais relevantes para a compreensão da cultura popular brasileira. O livro de Edward foi fundamental para um reconhecimento internacional de Zé Coco.
Conheci Edward pessoalmente em 1990, numa mesa-redonda no Salão Nacional de Poesia Psiu Poético, evento que acontece há mais de duas décadas em Montes Claros graças ao incansável Aroldo Pereira. Já tinha lido
A pátria que te pariu e, no calor de uma hora contextual bastante complicada, acabei fazendo um apontamento apressado, genérico e negativo sobre o livro. Era um apontamento apenas sobre a “cara” do livro, não sobre o autor – e tantos não entenderam nada ali, queriam “sangue”, o país “sangrava” parindo esta ideia peemedebista, petista e “inclâmica” (dos inclames, Indivíduos de Classe Média, para lembrar o inventor Sebastião Nunes) de democracia.
Em 1991, logo que aportei em Belo Horizonte, entrei em contato com José Edward, o que, para alguém na fúria dos vinte anos, levando a poesia mais a sério que a própria vida – era o meu caso –, tinha um sentido de prova de respeito. O poeta, ativista cultural, jornalista e produtor musical – na época, estava à frente, ao lado da publicitária e professora Valéria Raimundo, da empresa “Arte & Fato” e produzia, entre outros, Markú Ribas – recebeu-me no seu escritório na Av. João Pinheiro com a generosidade dos velhos combatentes, compreendendo e estimulando meus arroubos da juventude.
Conversamos bastante sobre poesia, crítica, vanguarda, música, cultura, política etc etc tomando chope no Pelicano, ali no Malleta. Sobre a crítica, Edward me falava que havia uma lacuna a ser preenchida nos jornais em Belo Horizonte, que ninguém estava exercendo a crítica literária, e que via em mim todas as condições para essa tarefa. Ele mesmo se encarregou de fazer a “ponte” com o “Estado de Minas”. Deu certo. Depois de algumas contribuições ao “grande jornal dos mineiros”, escrevendo sobre autores como Bioy Casares e Dylan Thomas, propus ao editor da página “Autores e livros”, o escritor e jornalista Jorge Fernando dos Santos – que sempre acolhia minhas resenhas com grande entusiasmo -, a publicação de uma série de textos sobre poetas mineiros em atividade.
O primeiro nome que me veio à cabeça foi José Edward Vieira Lima, não por gratidão amiga, mas em função do problema que
A pátria que te pariu! trazia de volta: o engajamento político-social da palavra poética. Levei o texto ao editor, que o leu e logo passou às mãos do então editor geral, comunicando a este o meu projeto da série de textos. Depois de uma leitura diagonal, daquelas que possível fazer em Redação, o editor disse, educadamente, que era interessante (era a época desse adjetivo, talvez um índice do que chamo de desvanecimento da crítica literária nos dias que correm), mas que não tinham espaço para aquilo.
Saí, com aquela desilusão comum a escritores nascentes, sem saber como fazer para que aquele texto ali, escrito nas laudas timbradas do “Estado de Minas”, que eu carregaria intacto comigo pela vida afora, chegasse ao conhecimento de possíveis interessados, especialmente o autor criticado. Além do interessante, outra coisa me marcou, até mais, na fala do editor geral do Segundo Caderno: tire isso do texto – ele sequer pronunciava as palavras -, não pode. “Isso” era um dos versos do livro que eu citava: “q merda cagada não volta ao cu”. Terá sido isso a gota d´água do processo?
Longos anos depois, já em 2008, voltei a enviar um outro texto sobre o livro de José Edward – o mesmo José Edward Vieira Lima de 1991, agora com o nome de poeta abreviado – ao jornal “Estado de Minas”, agora a propósito da segunda edição, modificada, com novos poemas e o título apenas de
Pátria que pariu! e outros poemas, edição da Autêntica. Não citei o verso “constrangedor”. Saiu no Caderno Pensar. E fiquei, fico, pensando que o poeta deve ter pensado que eu levei 17 anos para dizer algo sobre seu livro!
Aqui, reabrindo a barraca depois de mais de um mês de distância (falarei a respeito logo mais), como prova de sincera consideração, vão o inédito de 18 anos (tal e qual, apenas com o acréscimo de um título e algumas adequações gramaticais) e o texto que saiu ano passado, escritos de dois momentos diferentes numa mesma baderna chamada nação, dois momentos de um diálogo com um poeta e sua poesia insubordinada.



Acerto de contas


Parece tratar-se de uma tradição no campo da literatura: poetas e escritores sempre se obrigam a fazer uma espécie de “acerto de contas” com eles mesmos, na maioria das vezes. Ferreira Gullar é um dos que já admitiram de viva voz o cumprimento de tal ritual. Foi ao escrever seus ditos “poemas portugueses”, incluídos em seu livro A luta corporal. Usando processo de metrificação, afirmou Gullar um tempo, após a publicação do referido livro, ter apenas acertado contas com a poesia tradicional. Um outro exemplo, até certo ponto, pode ser extraído do poeta Carlos Nejar, que no momento, depois de tanto palmilhar a estrada literária, surge com um livro de sonetos intitulado Amar, a mais alta constelação – parece que quis acertar contas com a forma.
Pode ter sido isto, essa espécie de sentimento de indignação por não ter conseguido levar adiante um certo projeto no tempo de sua concepção, que conduziu José Edward Vieira Lima à publicação de A pátria que te pariu em 1990. Trata-se do segundo livro (o primeiro no gênero poesia) de um poeta nascido em 1965, na cidade de Brasília de Minas (Norte de Minas), que passou boa parte de sua vida envolvido com movimentos de cunho cultural. Militou principalmente em cidades próximas à de sua origem, como São Francisco e Montes Claros. Nesse meio tempo, entre outras coisas, fundou entidades culturais e se dedicou a escrever crônicas para alguns jornais.
A consideração “teórica” de que todo título é um resumo metalinguístico do que o autor tem a dizer em sua obra é de suma importância em se tratando de A pátria que te pariu. Não é necessário muito esforço para se chegar à conclusão de que se trata de uma arte literária engajada que está se aproximando – e, para o leitor atento, este anúncio na capa pode facilitar o caminho para o entendimento da proposta do poeta: “prefácio de Fausto Wolff”. Trata-se, realmente, de um livro de poemas que vem à tona – a multidão impedida de passar por arames farpados na foto da capa – para preencher uma lacuna que surge já no início da carreira do poeta, um grito que o estava incomodando – a comprovação que o leitor terá.
Na verdade, o primeiro livro de poemas de José Edward é um fruto retardatário quando se trata de levar em consideração seu todo e, principalmente, a proposta anárquica que fundamentalmente o orienta – digamos, a raiz da fala do poeta que nele está contida. Isto muito embora se saiba nos dias de hoje que “a pátria que nos pariu”, a partícula essencial da poesia de José Edward, continua sobrevivendo/sofrendo sob os problemas ali postos em forma de motivos poéticos: falta de educação, falta de pão e outras faltas que ocasionam a miséria do povo. Por este aspecto, indiscutivelmente A pátria que te pariu é um livro que caberia bem no ambiente político-literário da década de 70, quando, aliás, muitos poemas parecem ter sido escritos.
Incluídos em duas subdivisões denominadas “margens pérfidas” e “margens plácidas”, respectivamente, os poemas “guerreiros” de José Edward – que não compreendem todo o teor do livro – trazem consigo a mesma despreocupação formal e conteudística daqueles que vieram à tona no momento ditatorial brasileiro. O objetivo do poeta é um só: reclamar através de uma poesia de cunho panfletário. O poema “O salário não compensa” enfatiza: “como se come aqui/ é que não se sabe/ como esse crime se dá/ é que não se pune”. O poema “Olhos da cara” conclui: “A dívida que teremos (?) de pagar/ com a miséria e a dor deste povo/ é o nó-górdio da pátria latina/ e isso é uma coisa cristalina e amara:/ nos tem custado os olhos da cara!”. Outros poemas ainda nessa “face” (“A puta quetipa” e “Vitórias de pirro” como exemplos) ironizam a pátria que "te" pariu com a utilização de personagens de sua política da época de sua composição, como os ex-presidentes João Figueiredo e José Sarney. A soma de tudo, em última análise, constitui o sentido medíocre da obra para o tempo de sua publicação, de que o poeta parece tentar se livrar ao se desdobrar em outras “faces” poéticas – o que pode ser visto como a retomada de um estilo mais sério.
Faz-se necessário um retorno às primeiras páginas de A pátria que te pariu para o entendimento de que o propósito literário de José Edward muda em virtude do tempo. O poeta se liberta, pelo visto, da utopia revolucionária que envolvia os poetas da chamada “geração mimeógrafo de 70” e sua poesia vai trilhar um novo caminho: o da metalinguagem. Começa então a exposição do seu processo de composição do poema, o qual é sintetizado neste quase-prefácio: “quando paro o poema do verbo parir eu sofro do verbo sofrer porque todo poema nasce de um parto do verbo par (t) ir e qual parto do verbo parir parar ou partir não é doloroso do verbo doer?! Mas quando transo o poema do verbo transar também sinto prazer do verbo pra ser pois todo poema é precedido de orgasmos & mais orgasmos do verbo gozar e sucedido de vibrações & mais vibrações do verbo vibrar”. Tal esclarecimento é traduzido nas demais “faces” do livro de forma ousada, através da qual até mesmo a impressão de lábios com batom sobre a folha passa a caracterizar um poema (“Gravidez psicológica”, seu título). Com esta reviravolta – pode-se considerar –, a obra ganha seu espaço/sentido no ambiente literário atual.
Consciente do seu ofício e com o sentido engajado no seu tempo, José Edward vai se impondo o desafio de explorar as possibilidades linguísticas como que tomado pela necessidade de constituição do poema novo. Desta forma, o longo discurso que caracteriza o lado “guerreiro” do livro passa a ser submetido a um processo de condensação, o que acaba fazendo com que o poeta lance mão de outro recurso para sua expressão poética: o visual. Mas mesmo com um ideal diferente, os poemas contidos no livro, em sua maioria, ocupam-se de denunciar os problemas/personagens famosos da pátria que "te" pariu, como é o caso do hai-kai denominado “Renúncia da palavra”, em que se lê: “Se Jânio/ fi-lo porque qui-lo/ eu falo porque calo”. O poeta conserva uma mesma ironia e um olhar político-crítico em seus poemas que cheiram a um Oswald de Andrade, como em “Memória 64”, em que se lê: “Pobres revolucionários:/ além de subversivos/ eram subnutridos também”. Uma ironia às vezes cortante, como no poema “Aos q ficam”, em que se lê: “q merda cagada/ não volta ao cu”.
A “face” metalinguística de A pátria que te pariu pode ser sintetizada, sobretudo, com o poema “A mística morte em mi maior e em mim menor da meta linguística”. Trata-se de um poema que ocasiona a constatação das diversas tendências poéticas de José Edward, a partir do qual é possível vê-lo como um poeta ainda em fase de formação. Surgem ali a tendência para uma poesia crítico-panfletária, a tendência para uma poesia visual, a tendência para uma poesia marginal e, acima de tudo, a tendência para uma poesia metalinguística. Desfilam pela “Mística morte...” personagens literários famosos, como Augusto de Campos, Guimarães Rosa, Mallarmé, Sousândrade, Mário de Andrade, Baudelaire, Maiakóvski, entre outros. Também circulam ali personagens do “pensamento universal”, como Marx, Maquiavel, Leonardo da Vinci e Cia. Por fim, o poema não constitui a revelação de um dom poético, mas sim um projeto que deve nortear a poesia de José Edward a partir do próximo livro.



A nódoa no brim


Entre as importantes iniciativas editoriais do ano passado em Minas, destaca-se a publicação de Pátria que pariu! e outros poemas, de José Edward, pela Autêntica. Projeto gráfico inovador – uma caixa com os cadernos soltos, os poemas impressos em papel diferenciado –, é trabalho que atesta, a exemplo de publicações de Editoras como Nankin e Ateliê, esse novo pensamento editorial brasileiro em curso, segundo o qual o livro em si é um objeto de arte, o que, claro, nunca foi ignorado pelos melhores poetas modernos.
O livro de Edward é uma reedição de A pátria que te pariu (bastante modificada, como já se vê), publicado em 1990. Alguns poemas foram extirpados, outros, escritos ao longo de quase duas décadas, foram acrescentados, modificações que, felizmente, não comprometeram a essência (e quase digo, com mais agudeza, “essância”, numa pertinente conexão Lévinas/Derrida) do livro. Permanece um renitente berro como motor dessa poesia, o desabafo, para o possível leitor, mas que é índice de abafamento, também, para o poeta.
Herdeira de Drummond, Gullar, Brecht, Maiakóvski e tantas outras grandes vozes do século XX, a poesia de Edward é altamente transitiva, coloca-se num diálogo frontal com o leitor, aspecto de que deriva sua estranheza para os dias que correm. Não se trata de uma linguagem para poucos, apenas para poetas, como a que tem sido hegemônica no Brasil desde o início dos anos 90 para cá, intransitiva, “coisal”. Para Edward, como para seus precursores, a linguagem é, naturalmente, um meio, não um fim em si mesmo.
Tal compreensão, cultivada pelo autor, parece ter-se ampliado depois de tantos anos, uma ampliação que talvez seja até o motivo maior da reedição do livro. Na primeira edição, o título (A pátria que te pariu) aponta para uma inquirição direta do leitor, como se o poeta lhe apontasse o dedo em riste. Agora, nessa reedição, o título (Pátria que pariu! e outros poemas), a própria expressão corriqueira ganha relevo, como se o poeta tivesse decidido “livrar a cara” do leitor. Tempos diferentes, autor e leitor ideais (Eco) diferentes.
Nessa mudança de relação com o leitor, revela-se, com precisão, a drástica mudança dos anos 80, quando os poemas enfeixados na primeira edição foram concebidos, para estes anos 2000. A questão ali, para uma poética socializante, era incomodar o leitor, tirá-lo de sua alienação e, no limite, fazer com que entrasse para o PT e elegesse um operário para a Presidência da República, prova máxima de consciência crítica. Não só a poesia, mas todas as artes (em especial, o rock), como se sabe, estavam empenhadas nessa “revolução”.
No prefácio que acrescenta à Pátria que pariu! e outros poemas, cujo título (“Duas décadas nessa noite - as ilusões perdidas”) remete ao controverso ídolo do jornalismo dos anos 80 que foi Paulo Francis, José Edward explica, passo-a-passo, o que aconteceu nas duas últimas décadas no Brasil, concluindo, ao enfocar o Governo Lula, com ar de desalento: “Roubaram nossos sonhos, estupraram nossos ideais, estelionataram nossas esperanças, emPanTurram-se (sic) com o poder...” Em face disso, especialmente, é que, para ele, perderam-se as ilusões.
Se a crença radical em Lula como salvador da pátria, era um erro de perspectiva política, a responsabilização do leitor – e leitor de poesia – pela mudança da pátria, tal como aparecia no “tom” da primeira edição do livro, era um erro de perspectiva poética, mais do que um mero arroubo de juventude. Erro que, entretanto, José Edward (Vieira Lima, como então assinava), assim como o Titãs do disco “Cabeça dinossauro”, não poderia deixar de cometer, mesmo sabendo que pagaria caro – como acabou pagando – por ele: tantos, a maioria, não viram em seu livro o poeta audaz que, de fato, trazia em si.
Todavia, errar, naqueles fins de anos 80 de nervos tão acirrados, era, até certo ponto, uma questão de honra. O acerto, em termos culturais, estava identificado com o “establishment”, tinha um quê de “endireitamento”. Errar era se dizer errante (daí que eu pense mais na “essância” que na essência dessa poesia, num misto de essência com errância, na ânsia do errante, digamos). A honradez do errante se deixava marcar pelo esforço de pensar. A pátria que te pariu, o primeiro rebento lírico de José Edward, revelava (melhor: esbanjava) esse esforço num rol de citações.
Entre elas, que constituíam recurso bastante comum à época e agora soam incomuns, figuravam, figuram, Darcy Ribeiro e Guimarães Rosa, além de – mais que uma citação, uma carta de recomendação – prefácio, agora posfácio, de Fausto Wolff. Eram vozes que no calor daquela hora, no final da “década perdida”, tinham o poder de desviar o foco da discussão da poesia em si para a realidade brasileira mais premente, e esse desvio era mais do que necessário, era fundamental, sobretudo para a formação de um poeta-crítico.
Apesar de compreensível, tratava-se de aspecto discutível à medida que resultava, ao final das contas, num apego a circunstâncias, a determinados conteúdos que, por mais explosivos que fossem, pertenciam a um determinado momento histórico. Assim, o risco iminente, que a poesia de José Edward corria, era o de permanecer como algo datado, fadado a ter o mesmo destino de grande parte da poesia dita social, produzida por tantos em tempos e lugares diferentes, especialmente nos anos de autoritarismo legitimado.
Esse risco foi positivo pelo simples fato de que, graças a ele, um poeta encontrou sua razão de ser num tempo prosaico, em que a cultura brasileira avançava a passos de ganso em direção a toda esta porcaria em que estamos imersos atualmente. A pátria que te pariu, arriscando tudo – inclusive a não ter reconhecimento como poesia – acabou por promover uma inversão de parâmetro para a criação poética que, se não chega a ser original, era importante em fins dos anos 80, e o é ainda mais hoje: a poesia se origina do meio da cena política, tagarelante, e não da cena literária, amesquinhada.
Sabendo-se subversivo das regras do jogo poético-literário, o poeta dizia, e continua dizendo, em seu “Habeas corpus”: “antes que me malhem/ e atirem pedras, decreto:/ mal não há em fazer poesia/ com bravatas e verborragia/ com rima torta e teor panfletário/ se ela conseguir despertar um patriota/ no apático leitor imaginário”. Como epígrafe, este poema traz os versos de Bandeira: “Vou lançar a teoria do poeta sórdido:/ aquele em cuja poesia há a marca suja da vida (...)/ O poema deve ser como a nódoa no brim:/ fazer o leitor satisfeito de se dar o desespero”.
Se se pode dizer que a vida continua suja, apesar de tanta “poesia social”, apesar de José Edward, não se pode negar que essa sujeira se deve, cada vez mais, à omissão da grande maioria dos “cidadãos”, para quem só há um projeto interessante no mundo: cuidar da própria vida. Mudar a vida, torná-la mais “limpa”, requer, portanto, incomodar esses “cidadãos”, dizer-lhes, em alto e bom som, que são responsáveis pelo que está aí nos assombrando por toda parte. Utopia de dinossauro, essa que vemos na poesia em questão? Sim. Mas é melhor que nada.

Texto publicado no jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, pág. 5, Belo Horizonte, 05 de março de 2008.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

UNIVERSIDADE | Janine e a USP

ANELITO DE OLIVEIRA - Paul Valéry tinha um certo desdém por aqueles que se davam ao trabalho de formular perguntas para as quais, no seu entendimento, já tinham resposta. Tipo de situação que se apresenta no artigo de Renato Janine Ribeiro sobre a crise na USP (“Que universidade é essa?”, Folha de S. Paulo, Mais!, 21 de junho 2009). Ora, na pergunta do seu título já se revela a resposta: é a universidade distante da realidade comum, experienciada diariamente pela maioria das pessoas. “Essa” - demonstrativo para coisas, seres ou situações distantes - é a universidade pública brasileira em geral, estadual ou federal. O modo de ser universidade que a USP expõe neste momento não é patrimônio de São Paulo, mas do país. Um modo complicado, que está a exigir, ano após ano, descomplicação, compreensão, para que sobre ele se possa atuar de maneira adequada. Óbvio que, para resolver um problema, é preciso enfrentá-lo adequadamente, abrindo mão de soluções pré-determinadas.
A crise na USP tem ensejado contribuições expressivas para esse enfrentamento. A de Janine não é mais uma, mas uma outra contribuição bastante especial em virtude da sua relação direta com a Capes, órgão responsável por parte da regulação da pesquisa universitária no país. No seu artigo, falam o professor da USP e o ex-diretor de avaliação da Capes no período de 2004/08. Disso, sobretudo, decorre uma espécie de “harmonia pré-estabelecida” na argumentação, que acaba por relativizar os dados objetivos da questão. O primeiro desses dados é que, se a “USP é a melhor universidade da América do Sul”, como Janine abre seu artigo afirmando, não há por que negar a existência efetiva de um “povo USP”, formado por seus professores, pesquisadores, alunos e servidores técnico-administrativos. É esse “povo” que vem, ao longo de tantos anos, pesquisando, escrevendo, editando, ministrando aulas, aprendendo, mantendo a burocracia, cuidando do patrimônio edificado, vigiando, cozinhando, tomando conta do lixo etc.
A USP é obra do “povo USP”, assim como as outras universidades públicas são obras dos seus respectivos “povos”. Ao “povo UFMG”, cabe o reconhecimento pelo que aquela universidade é, ao “povo UNB” também e assim sucessivamente. Não é questão de mérito, de “meritocracia”, mas de reconhecimento, daquilo que implica uma problemática afim da democracia tanto quanto da epistemologia: não há democracia nem conhecimento sem reconhecimento também do que está escondido, invisibilizado, na história: a “cicatriz” de Ulisses no célebre texto de Auerbach. Dizer que “o povo que existe é o paulista, que sustenta a USP” é bastante simpático, desperta a admiração daqueles que, situados nos diversos degraus da pirâmide social, não cessam de acusar as universidades públicas de elitistas, burguesas e excludentes. Mas, na verdade, esse tipo de colocação constitui um lugar comum, naturalmente demagógico, sobre instituições públicas nos chamados Estados de Direito Democráticos. Rigorosamente, acaba por dissolver a especificidade na generalidade, o concreto na abstração, simplificando o que deve ser enfrentado em sua complexidade.
A existência do “povo USP” não pode ser pensada, ao contrário do que Janine parece sugerir, a partir de uma formal recorrência a palavras com “fumos” de conceito que nos foram legadas politicamente, mediante relações de poder, pelos gregos e romanos antigos. O que o “povo USP” é, bem como o que são os demais “povos” das outras universidades públicas brasileiras, deve ser compreendido a partir da história social brasileira, pois resulta do corpo-a-corpo com essa história, não com outra. Esses “povos” exibem, como não poderia deixar de ser, um sentido próprio de povo, de democracia, poder e autoridade. Seu sentido de povo, por exemplo, não é exclusivista: o “povo USP”, assim como os “povos” das outras universidades públicas, não se concebe em relação de oposição com os paulistas, mas antes de complementação. Uma polarização entre dois povos, como está clara na reflexão de Janine, tem enorme valor para aqueles que, inimigos da universidade pública, querem desqualificá-la, valendo-se, antes de mais nada, do expediente do estigma, do rótulo, para dotar o “desafeto” de uma dimensão exótica.
Como povo paulista, o “povo USP”, ao contrário do que Janine absurdamente afirma, os servidores, docentes e alunos, sobretudo estes, não recebem nada de graça. Pagam impostos, contribuem com a sua parte para a efetivação, na cotidianidade, do que constitui o “comum”, para lembrar Hannah Arendt, da comunidade. Homens e mulheres, ricos e pobres, pretos, brancos etc na USP são, evidentemente, idênticos aos demais paulistas em face do “comum”, uma identificação que se amplia como diferenciação altamente legítima: São Paulo torna possível o “povo USP”. É parte dessa diferenciação, sem dúvida, o mal-estar que se revela em forma de crise a cada outono na USP. E que é positivo, legítimo, à medida que se trata de exposição daquele “desejo” que, como o próprio Renato Janine Ribeiro postulou num dos seus ensaios, faz parte da natureza da democracia: desejo de participar das decisões, de ser visto e ouvido, de ser sujeito, enfim, das ações que concernem a toda a comunidade. Que mal há nisso?
Sim, para aqueles que são autoridades na USP e nas demais universidades públicas brasileiras, e que não têm tempo para cuidar do sentido estético encerrado na “auctoritas”, o mal reside exatamente no desejo de democracia, de forma que isso, esse desejo, não é desejo pelo desejo, manifestação com um fim em si mesmo, baderna. Trata-se, para as autoridades, de desejo de poder, que é denúncia de que, segundo o próprio “povo”, falta poder nas mãos do “povo” e, por outro lado, há muito poder nas mãos da cúpula, das autoridades. Acionada, a polícia chega para caracterizar o tipo de poder de que as autoridades se veem investidas: poder real, mecanismo de dominação. Para Janine, autoridade, enquanto “auctoritas”, não se confunde com poder, enquanto “kratos”, o que a realidade nua e crua acaba por contestar, mais uma vez, numa universidade pública brasileira.
A Reitoria da USP, valendo-se da colaboração da polícia, exerce um poder autoritário, a exemplo do que fazem as demais instituições tidas como democráticas fora da universidade (como falar em diferença entre poderes públicos no país?), com a mesma finalidade: conter o desejo legítimo de uma coletividade numa democracia. O “povo USP”, então, deveria suportar o autoritarismo, o processo de eleição indireta para Reitor e outras questões que o oprimem porque a Universidade, segundo Janine, “é um meio para certos fins que a nossa sociedade consensuou democraticamente”, porque a qualidade científica poderá ser ameaçada em função de uma “redução da autoridade ao poder”, porque o mais importante é a autonomia da Universidade etc etc. Ou seja, para Janine, é preferível deixar tudo essencialmente como está porque o que importa mesmo é a essência. Impossibilidade da democracia? Não me lembro desse consenso na sociedade brasileira.







quinta-feira, 18 de junho de 2009

JORNALISMO | Jorge Salomão

ANELITO DE OLIVEIRA – Nestes últimos dias, revirando o alfarrábio que tenho cultivado há tantos anos para chegar ao primeiro volume do que chamo de “Inutilidades”
(um projeto acalentado há muito tempo, reunião de textos esparsos publicados por jornais, revistas, livros dos outros ou escritos e deixados de lado por vários motivos, sobretudo pela dificuldade de publicação, por não despertarem interesse de formatadores de discursos),
encontro esta pequena entrevista que fiz com o poeta, letrista e performer baiano Jorge Salomão, um dos nomes emblemáticos da cena cultural brasileira dos 70/80, por ocasião de sua vinda a Montes Claros em outubro de 2005, quando foi homenageado pelo evento Psiu Poético.
Não me lembro exatamente por que não consegui publicar este material. Lembro-me que o enviei para o jornal “Estado de Minas”, mas não saiu. Talvez pela “inconveniência” das ideias, aquilo que constitui exatamente sua grande graça, traço de uma singularidade.
Jorge!
Lembro-me, sim, de ter ficado meio sem graça de não ter podido recebê-lo com o “grande jornal dos mineiros” em punho:
- aqui está, Jorge, sua “brasa” queimando Minas afora.
Não queria que a entrevista ficasse restrita às Gerais, onde a cultura escrita, por bem e por mal, não é o forte.
Queria que as palavras de Jorge, ditas com sua naturalidade verdadeira, atingisse o alvo certo: são palavras de uma indignação contra aqueles que ordenam o Brasil, que estão nos centros de poder.





A brasa do ser


Homenageado do Psiu Poético 2005, Jorge Salomão, uma das últimas estrelas da poesia brasileira, chega a Montes Claros na próxima quinta-feira para performances, debates e outras intervenções


Parceiro de Frejat e Adriana Calcanhotto, entre outros, autor dos poemas de “Mosaical”, Jorge Salomão é uma das principais atrações do Psiu Poético 2005, que acontece de 04 a 12 outubro em Montes Claros, pleno cerrado norte-mineiro.
Com o tema “Cabecidades / poetas invenções”, esta é a 19ª edição do evento que já teve, entre tantas participações ilustres, a do irmão de Jorge, o saudoso Waly Salomão, Tom Zé e Capinan.
Não apenas parece: o evento, coordenado pelo poeta Aroldo Pereira, egresso da cena cultural de fins dos anos 70, realmente tem uma certa afinidade com o horizonte tropicalista, também é coisa de um outro Brasil.
Jorge Salomão fará sua primeira participação no Psiu na quinta-feira, dia 06 de outubro, às 20hs, no centro cultural Hermes de Paula, onde acontecerá a maioria dos espetáculos.
Com Jorge, passarão este ano pelo Psiu figuras e ponta poética, como o ouropretano Guilherme Mansur, a carioca Vera Casa Nova e o português Fernando Aguiar, entre muitos, muitos outros poetas, performers, atores e músicos.
A programação do Psiu Poético 2005 antecipa a grande celebração que acontecerá no próximo ano, quando o evento, já reconhecido como o mais importante no gênero no país, chegará a sua 20º edição.
No final da tarde de 26 de setembro, enquanto andava pelo centro do Rio de Janeiro, Jorge Salomão conversou comigo sobre sua participação no evento, lamentou Bush, Lula e Gil, elogiou o Brasil e disse que vai mostrar a brasa do seu ser a quem for vê-lo no Psiu.
Como o falador Waly, Jorge queria falar mais, mas a linha caiu. Confira trechos da nossa conversa.




Qual sua expectativa em relação ao evento?

Estou super alegre por poder participar. Gosto muito do histórico do evento, os temas que foram debatidos durante todos esses anos, as pessoas que participaram, os muitos questionamentos que o evento vem fazendo à cultura e à sociedade brasileiras. O Brasil precisa muito de eventos como o Psiu atualmente.

Você está pessimista com o mundo?

Não. Sou otimista. Mas não dá pra ficar indiferente a todo esse terrorismo que Bush vem espalhando pelo mundo. Essa situação reflete em tudo. Mesmo nós, brasileiros, não conseguimos ficar totalmente otimistas diante dessa situação. Mesmo nós que somos uma nação de pessoas boas, cheias de esperança.

E com o Brasil de Lula, você está otimista?

Tenho confiança em Lula, mas acho que seu governo não está indo bem. Dizem que a economia nunca foi tão bem. Mentira! Ninguém vê dinheiro circulando. Por mais que eu pense, não consigo ver avanço neste Governo em todas as áreas. Não quero, de qualquer jeito, espalhar o vírus do pessimismo.

Não é difícil produzir poesia neste contexto de terrorismo global e crise local?

Não. Mesmo diante de tudo isso, eu exercito a poesia 24 horas por dia. Escrevo, faço performances, faço palestras etc. A vida é um mix de coisas alegres e tristes.

O que pensa, especialmente, sobre a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura?

Particularmente, adoro Gil, que, inclusive, fez música em minha homenagem (“Jeca total”). Mas sua atuação como ministro tem sido fraca. Tudo muito burocrático, um ministério cheio de gravatas. Cultura é diferente de agricultura.

Como pensa que Waly reagiria a esse contexto?

Se estivesse vivo, Waly também estaria sofrendo dificuldades.

Então, você está angustiado?

Mesmo sendo, modéstia à parte, um expoente, um escritor, uma celebridade, claro que fico angustiado vendo, por um lado, um Brasil maravilhoso, cheio de graça e beleza, e, por outro lado, uma geração de jovens chatos. Mas sou sartriano e penso que a angústia é o caminho para a liberdade.

O que falta, afinal, para melhorar social e culturalmente o Brasil?

Falta criar uma dinâmica em todos os setores. Tudo é muito enjoativo. O Brasil é o país do possível, com inúmeras possibilidades de dar certo.

Pra finalizar, como será sua apresentação no Psiu Poético?

A performance que vou apresentar, “Jorge Salomão Poesia Show”, é uma leitura diferente de poesia, com um clima quente, em que transparece a brasa que é o meu ser. Gosto da coisa mais brutal que o ser pode dar, como pedra bruta de onde sai o diamante. Não sou um poeta tradicional, mas um malabarista do verso, um revolucionário.





Evocação de Jorge Salomão


ANELITO DE OLIVEIRA - “Política voz”, aquela sua letra reverberada por Frejat, é a voz de Jorge Salomão, atravessada por uma incessante inquietação em face do “status quo”, voz de um “out” radical. A primeira vez que a ouvi foi debaixo de lágrimas na escadaria da Biblioteca Nacional, naquela noite de maio de 2003, no velório de Waly Salomão. Jorge estava desmontado – e não fazia questão de amenizar nada: o homem diante da monstruosidade do mundo. Fiquei um tempão olhando para Jorge ali, sem jeito de conversar com ele, assim como tinha ficado um tempão, ao lado do ensaísta e escritor Evando Nascimento, olhando Caetano e Gil, que lá estavam, e sem jeito de falar com eles sobre Waly – sobretudo Caetano, ali como pessoa; Gil estava como ministro. Quando cumprimentei Jorge, começamos a conversar, ele logo se pôs a escrever um poema - ou momentos depois o escreveu, já não me lembro - em homenagem a Waly e me passou - ou me mandou via correios - para publicar no “Suplemento Literário”, que eu então editava.
A exemplo da entrevista acima, o poema também não foi publicado. Não sei o que houve. Parece que não deu certo um número especial que eu planejava em homenagem a Waly. O Secretário de Cultura de Minas Gerais à época (Luiz Roberto Nascimento e Silva), que parecia ter alguma reserva em relação ao poeta (sequer compareceu ao lançamento, na Livraria do Ouvidor em BH, de um número especial sobre o centenário de Drummond, que contou com a presença de Waly, que era um dos colaboradores e, também, o então Secretário Nacional do Livro e da Leitura – do Livro e da Loucura, como eu preferia dizer, e ele ria, ria escancaradamente, como só o próprio o sabia), talvez seja a razão de não ter saído o número sobre Waly – devia ter saído assim mesmo, de qualquer jeito! Mas não saiu. Acabei saindo, e não sei aonde o poema de Jorge, escrito à mão, no meio da agonia, foi parar. Espero encontrá-lo algum de dia, ou que Jorge o tenha guardado na memória.
Todavia, recordo que tudo que o poema dizia, ou fundamentalmente dizia, era por que o homem em geral, a espécie, desmonta-se, porque ele Jorge estava ali assim, desmontado, tal qual eu mesmo me vi diante de um irmão morto em 93 que, por sinal, tinha também aquele gênio espalhafatoso, impaciente, de Waly: desmonta-se porque se esbarra num lugar. O poema de Jorge detonava a Bahia, como se aquele lugar fosse o “culpado” por aquela morte tão prematura, como se a Bahia tivesse “matado” Waly. Agora, pensando bem, como me parece que tem tudo a ver! Lugares podem castigar e matar pessoas, bem como as podem acolher e estimular a viver. A Bahia, no velório de Waly, era referência de união para alguns dos baianos mais populares que estavam ali, mas para Jorge Salomão, não. Eu, que na noite anterior à notícia da morte de Waly tinha me abandonado à leitura das “Lamentações de Jeremias”, tinha uma voz ressoando na cabeça: “o homem da palavra é o homem da solidão”.
Incompreensão. Jorge desmontado na escadaria era isso. Talvez era isso também um outro grande cara, abraçado ao caixão de Waly, tão admirado por este: Marcelo Yuca. Merecia, como Waly, ser compreendido, em algum lugar, talvez em Minas Gerais, no Psiu Poético, em Montes Claros. Waly, várias vezes convidado, acabou decidindo aparecer como homenageado do evento em 2001 ou 2002, não me lembro ao certo. Ligou-me certa tarde, eu atravessando a Augusto de Lima em Belo Horizonte em meio a um monte de problemas, e me perguntou se poderia “avalizar” o evento, bem como estar em Montes Claros na noite de sua apresentação. “Avalizei”. Quando, depois de cancelar todos os compromissos, voei para Montes Claros e cheguei ao Centro Cultural Hermes de Paula, poetódromo do Psiu Poético, lá está Waly numa agonia performática: Eu quero meu dinheiro! Eu quero meu dinheiro! - algo assim. Ainda não tinha recebido o cachê combinado e havia possibilidade de receber só depois de retornar ao Rio. Gritava ao telefone, falando com a então Secretária de Cultura, e depois virava para mim e ria macunaimicamente. Depois de um debate, a que não faltou gozação walyana com ares de coisa séria para irritar gente ridícula, saímos a caminhar, juntamente com outros órfãos da poesia, em direção ao restaurante reservado a todos os participantes do evento, vala comum de famintos, sem a companhia do povo do poder local, sem deferências. Waly, a sua maneira, reclamava do descaso, e eu pensava no descaso como sendo um traço típico da cultura local nortemineira.
Três anos depois, já voltando a viver em Montes Claros (morei nesta cidade no final dos anos 80), foi a vez de Jorge Salomão ser homenageado pelo Psiu Poético. Pensei que seria mais bem recepcionado que Waly. Nada. Num momento no mercado central, onde acontecem algumas atividades do evento, teria sido até destratado. Tentei, pelo respeito e admiração que tenho por Jorge desde quando não pensava que o conheceria pessoalmente, fazer com que sua passagem por aqui não fosse tão desastrosa: conversamos várias vezes, convidei-o a participar de um programa de rádio que inventei na rádio Unimontes, convidei o pessoal de um jornal para entrevistá-lo. E vejo que foi tudo muito pouco. Entre nossas conversas, falamos da possibilidade de tornar possível uma edição da sua poesia completa. Jorge voltou para o Rio. Um dia me mandou uma carta via Aroldo Pereira, coordenador do Psiu Poético. Nunca mais fui ao Rio, nunca mais tive notícias de Jorge por qualquer meio. Nosso diálogo tem estado suspenso, e espero que esta publicação seja uma ponte reformada com esse “ladrão de fogo” ainda capaz de provocar incêndio com palavras ou, no mínimo, quebrar copos com o silêncio dos sons nos discos da vida.

domingo, 14 de junho de 2009

LITERATURA | Lama revisited

ANELITO DE OLIVEIRA - Em 2000 – quase dez anos já! –, publiquei o poema-livro Lama pela Orobó Edições, lançado numa noite de chuva (tudo a ver) em Belo Horizonte, na livraria Scriptum, então point da poesia. Era um trabalho que estava “pronto” desde 1997, com o qual havia ficado envolvido desde 1994. Quanta estranheza acabou suscitando este fato! Quatro anos para escrever isso?! Quatro anos para “desescrever” isso, eu me dizia compreensivamente. Se fosse um suposto romance, com suas duas mil páginas de banalidades supostamente interessantes, ninguém estranharia, claro. Mas, a exemplo de tantas figuras ilustres – Mallarmé, Rubião -, não se tratava de escrever apenas mais uma coisa literária. Queria – sempre o desejo! – ir além, para além da convenção. Aonde cheguei com isso? Até agora não sei, tanto que continuo envolvido com esse texto, sobretudo com questões que lhe dizem respeito. Por exemplo, a relação entre dizível e visível em poesia, como adequar essas duas dimensões, como “resolver” a inadequação fundamental entre essas duas dimensões. Há alguns anos, fiz uns reparos na primeira edição, chegando a esta feição – que aqui disponibilizo -, em vias de sair em papel, talvez agora no segundo semestre ainda ou no ano que vem. Lama é apenas um problema de poesia, cuja dignidade passa, necessariamente, pelas circunstâncias individuais, sociais e estéticas em que foi operacionalizado.







LAMA


2ª edição, revista e modificada








“Caminho dia e noite
como um parque desolado”


Vicente Huidobro











A José Benedito Rocha (in memoriam)
e Valdeir do Rosário,
fora da literatura, no meio da vida







Neste tête-à-tête comigo
Paisagens num abismo
Sóis rachados na janela
Paraísos enforcados
Por todo lado nuvens
E nuvens dormem nuas
Pássaros inutilizados
Na aragem uma chuva
Petrificada rumor de
Ossos secos cantando
Dentro de mim roendo
O tempo mais fundo
Uma coisa contra tudo
E outra abaixo dela o
Bate estrondo quedas
Corpos duros atirados
Num muro áspero de
Cimento e silêncio tal
Qual pobreza o negro
Contra o azul um soco
A noite em fúria nas
Entranhas do dia no
Meio das coxas desta
Tarde partindo a luz
Que se parte por fora
Por dentro quebrando
Vidros de pensamentos
Sobre o chão na lama
Do chão e na sua alma
O furor aceso as feridas
Chuva a rolar sobre a
Laje ideias saindo das
Coisas para uma noite
Nascendo perdida crua
E presa entre paredes
Água afogando todos
Os sentidos envolvendo
Tudo como uma luva
Esquecida no canto do
Passado nas gargantas
Escuras dos cantos e
Cantos e olhos perto de
Baratas as mãos entre
Os dentes inutilizadas
O pênis arrefecido no
Perfume do sono e ela
A boca costurada como
Uma estrela surda nos
Braços abstratos leves
E vis e brancos neves
Nevadas pés flutuando
Cabides livros pedras e
Penas mudos no quintal
Um tempo quebrado
Volta tudo se reparte
Novos cacos para
Velhas partes de um
Corpo que arde num
Tecido de cicatrizes
Tecer palavras como
Quem esquece de tudo
Caminhando em meio
A suaves folhagens de
Um parque fundo mas
Tão vazio de tudo ali
A sorver flora e fauna
Os ouvidos escondidos
Dentro do bolso imundo
Os olhos soterrados no
Submundo da alma o
Nariz morto nas verdes
Velhas águas de uma
Gripe não sei se o céu
Merece o azul o sono
Inventa outra arte os
Dedos cavam neste ir
De deserto e mar sem
Nada além de sombras
Do aquém não sei se
Ao fim haverá sol para
Estar sob esquecer e
Sair abrir uma porta
Olores de outra música
Nesta sesta aberta entre
Árvores vento de luzes
Brisas de filme mudo
Gestos palavras livres
No ar tudo vai volta
Relógio disparado e
Ouço o que é a morte
Com sua frieza cacto
Toco um dedo ali na
Pestana dessa mulher
Amarela lago de nada
Fonte de lama noites
Tristes diviso fogos
Explodem nos meus
Ombros
Pedaços de tempos
Despedaçados mãos
De crianças abertas
Vozes esmagadas na
Praça de cansaço e
Tristeza suspiros de
Sufoco abandonos na
Calçada choque nos
Olhos bêbados ela a
Morte cresce aquela
Tarde retorna furada
Jorrando sangue eu e
Ela andando no meio
Da chuva a chover
Penetrar um espelho
Dilacerado onde um
Olho derrapa e corta
O corpo resiste a ver
Olhando um tempo e
Atrás dele o desvisto
Pergunta que se faz
Resposta que não vem
Uma lança se lança
Às costas do sentido
Ponto de convergência
Enigma depois atrito
Fresta para o proibido
O sono crescendo para
Dentro do pesadelo e
O corpo lento agora
Que a cabeça quase
Dormente pensa pura
Rolando lúcida sobre
O tempo entre sons a
Se soltar andando cega
Como bois de silêncio
Um olho está dizendo
Paisagens ouvidas ao
Ir através da neblina
Parece que abro mais
Além do aberto o olho
Da morte com o pé que
Piso
Em cada dia que passo
Sob a curva da noite
Que todo dia realiza
Nas costas das coisas
Sinto flácido levando
Nas mãos algo que
Deve ser a morte com
Sua sombra de aço por
Baixo de todos os sons
E letras girando sobre
O papel resisto indo
Para dentro do abismo
Os tempos voltam uma
Nau ao longe num mar
Nervoso no centro de
Mim esta voz rasgando
Lâmina rouca nesses
Dias de alegria gritos
Bandeiras e apitos e
O oco da vida rindo
Agora a tarde caindo
Inútil contra a tarde
Folha triturada por um
Inseto azul começar a
Morrer lentamente ler
Gota deslizando na telha
Vozes tardes voando
Quando nada sangrava
Eles faziam festas na
Tela inocentes da vida
Lâmpada murchando
Sol só não sonha céu
Sentido não sente ou
Os ponteiros seguem
Loucos estando ébrios
Um eu que corra sobre
O caminho onde andava
Naquela tarde comigo
Quando a noite cresceu
O sol estava parado ali
Vigiando como um sinal
E eu passou mudo como
Um farol
O que já vi outrora
Agora uma dor desmancha
A festa o filme o falso
Todas as imagens ilusórias
E ressoa renitente apenas
Esta voz a apodrecer como
Lençol velho ao sol de um
Lugar cortante
E este tempo quando o
Corpo fumaça rolando
Incessantemente vapor
Qualquer dentro deste
Quarto essa tarde ou
Naquela ou dentro de
Outra distante de mim
Se deitando entre as
Flores amarelas e o
Muro e o lixo e o ouro
E a usura de tudo numa
Cidade enquanto as
Coisas ardem e morrem
Entre as pessoas e a
Roupa das pessoas
Comigo e com elas nós
Sem cores perdidos e
Perdendo-se a perder
De vista gotas sopros
Estrelas encardidas
No meio da noite sem
Ninguém e todos mas
Sem ninguém e pobres
Soltos nas ruas bares
E becos encharcados
De cerveja babando
Desilusão tragando e
Cheirando cagando na
Privada suja urinando
Caminhando sem rumo
Pelas ruas invernadas
Frutos de nada apenas
A sombra fria a sombra
Silenciosa de silêncio
Que nunca mais vai ser
Vida

sábado, 13 de junho de 2009

LITERATURA | Anotação quatro

ANELITO DE OLIVEIRA – Não raro me vejo propenso a colocar, ou mesmo já colocando em dúvida o sentido de escrever literatura hoje, especialmente poesia.
Vejo-me, antes de mais nada, situado nos extremos da questão –
Por um lado: onde está o sentido de escrever?;
Por outro lado: o que acontecerá, ou aconteceria, com uma desistência generalizada desse tipo de tarefa?
Claro que se um ou alguns apenas param de escrever, como Rimbaud, nada acontece, fica como fato isolado, exótico, ou não.
Mesmo se se trata de um poeta da estatura de um Rimbaud ou de um escritor da estatura de um Borges, que nunca colocou em dúvida a validade do escrever em si – há todo um “desprezo” pelo próprio trabalho em sua obra, mera vaidade -, a produção de textos literários segue seu curso.
Sem ir muito longe, tendo a concluir, naturalmente, que um ou muitos rebeldes parando de escrever – Lobo Antunes, conforme anunciado, por exemplo - não conseguem parar a literatura.
Este fato – escritores escrevendo incessantemente – sugere que escrever literatura, hoje como ontem, tem um sentido difícil, que esse escrever é uma atividade que só se explica dificilmente.
Olho em torno de mim e dos outros, o que se passa mais longe e mais perto, nas esferas global e local, e não vejo por que escrever porque não vejo, também, o quê escrever, o quê merece ter lugar na literatura.
Intolerância?
Intransigência?
O quê, num mundo absurdamente banal, demanda uma crônica, um conto, um romance ou um poema? Se o mundo como um todo não demanda, o quê, especificamente, demandaria no mundo a literatura hoje?
Demanda do mundo; demanda no mundo.
Não é só o mundo em geral que está imerso na banalidade, mas também todas as partes do mundo, todas contaminadas por uma dose assustadora de banalidade.
Certamente, é o caso de fazer literatura com toda essa banalidade, e é o que a maioria está fazendo: literatura com banalidade. Para gente banal consumir, claro.
Não há dúvida que, envolvida numa relação com assunto e público banais, a literatura se perde enquanto discurso outro, convertendo-se em lugar comum discursivo. Deixa de ser literatura, portanto.
Tal como o mundo, tal como o homem, a literatura à base de banalidades hoje é a ostentação de uma política do mal que denuncia e condena a própria literatura como instituição cínica.

sábado, 6 de junho de 2009

LITERATURA | Anotação três

ANELITO DE OLIVEIRA - Não falei nada a respeito da nova mudança de "roupa", e agora, altas horas de outro dia, vejo que é necessário. Não sei exatamente por que é necessário, mas vejo que sim. Poderíamos não ver necessidade de dizer certas coisas, ficar sem dizê-las, não dizer nada. Mas o fato é que vemos necessidade, que nós mesmos inventamos, que nós mesmos criamos. Quem necessita realmente daquilo que dizemos no lugar da literatura? Um escritor é um inventor de necessidades discursivas. Dizer algo sobre a aterrissagem do "primitivo" Basquiat por aqui tem a ver com isso.
Há tempo não pensava em Jean-Michel Basquiat, o ícone da pop art nos anos 80 nos EUA, filho de haitiano e portorriquenha, admirado exaltado fetichizado por tantos, a começar por Andy Warhol, a pop art em si. Não pensar num artista, num acontecimento processado no mundo das expressões artísticas, jamais significa um esquecimento. A experiência estética é fundamentalmente inesquecível, não porque o queremos, mas porque, uma vez efetivada, passa a fazer parte da nossa natureza, passa a atuar, especialmente, sobre nossa maneira de sentir coisas, situações etc.
Assim, não pensava em Basquiat ultimamente, mas não havia esquecido sua obra, esse modo de ser de uma obra que acabou por se fixar como atmosfera de um tempo: esse modo de ser desastre no ar, desvanecimento se dando numa supefície frágil, desesperante forma de desespero. Não há pavor nesse processo, não há algo que se possa chamar de escandalosamente ocidental, histeria logocêntrica. Há, por isso mesmo, um desdobramento do nonsense como fundamento da normalidade de cada dia: 228 pessoas voando para a morte, morrendo inocentemente.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

LITERATURA | Anotação dois

ANELITO DE OLIVEIRA - Maio se foi. Constato agora: já estamos em junho, um outro mês. Maio foi altamente improdutivo neste espaço, apenas uma postagem. Raramente estive aqui. Fiquei dias desconectado, tentando resolver os velhos problemas práticos. Desencantado, retomei os problemas teóricos. Pensei (talvez seja apenas o caso de confessar aqui) constantemente na dificuldade de escrever constantemente. Não é questão de assunto. Claro que há uma gama enorme de assunto todo dia a nos torturar. A questão é mesmo encontrar uma forma adequada para expressar cada assunto. Nada novo, obviamente. À minha maneira: encontrar a forma adequada de expressão é algo como responder à natureza de um assunto. Expresso adequadamente, qualquer assunto se torna interessante. Inadequadamente expresso, qualquer assunto se torna desinteressante. Um mês, por exemplo, o mês em si, o que se passou, maio. Drummond expresou maio como "o claro mês de porcelana". Depois de tomar conhecimento desta expressão, num dos seus versiprosas, nunca mais percebi maio do mesmo jeito. Deixou de ser para mim um mero mês. O mesmo aconteceu com abril depois do poema de Eliot. Só vejo abril como "o mais cruel dos meses". O claro e o cruel - maio, abril. A expressão altera definitivamente uma percepção. Antes de abril, fico pensando em abril. Depois de maio, fico pensando em maio. O que aconteceu do início do ano até abril? O que acontecerá do fim de maio até o fim do ano? O sentido de escrever literatura, de aguçar o imponderável, tem a ver com isso, digo, com esse tipo de sensação. Cabe?

sábado, 23 de maio de 2009

LITERATURA | Anotação um

ANELITO DE OLIVEIRA - Onde estive estes dias?
Eu mesmo me pergunto, pensando que alguém possa ter perguntado, possa estar se perguntando. Certamente, ninguém tem sentido, ninguém sentiu, minha falta. Exceto, talvez, os que aqui já se colocam como seguidores, motivo de um orgulho sincero. Destes, tive o prazer de conhecer pessoalmente apenas o poeta Lau Siqueira lá em João Pessoa recentemente, através de um amigo super querido de longa data, o poeta e crítico extraordinário de mpb Amador Ribeiro Neto.
Lau foi o primeiro a "seguir" este blog, levando-me à questão sempre inquietante do receptor: há alguém do outro lado da linha. Na sequência, apareceram outros seguidores, todos autores de blogs surpreendentes, com muita afinidade com o que este pretende ser. Da minha parte, a responsabilidade, à medida que há seguidores, vem só aumentando. O que cabe aqui neste blog, o que devo dizer, como devo dizer?
O ideal - que eu gostaria de não perder de vista - é escrever diariamente, fazer deste espaço um diário. O problema é ter uma vida que permita uma relação estável com a escrita sem utilidade, até inútil, como tanto já se disse. Escrever diariamente exige um tipo de vida que poucos têm hoje em dia, marcada pela constância. José Saramago parece ter uma vida assim. Seu "Caderno", blog da sua Fundação, é constante, abordando, de maneira leve, temas os mais variados.
Talvez só mesmo alguns prêmios, especialmente o Nobel, alguns sucessos de venda, possam garantir uma relação estável com a escrita sem finalidade capitalista. Para quem escreve entre tempestades de vária ordem, que é o meu caso, a inconstância é a regra. Às vezes, um jorro de palavras. Às vezes, uma seca absoluta.
Estive encerrado em mim mesmo.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

MANCHA | Movimento-Amilcar

ANELITO DE OLIVEIRA - De repente, Amilcar de Castro (1920/2002). A lembrança desse ícone de uma "pensée sauvage" na produção artística dos anos 50 para cá. Não só brasileira, mas geral. De um específico - territorial, cultural, econômico etc - a uma desespecificação. Outra margem, outra mancha, a mancha da margem. Em face da sua obra, é sempre o mesmo soco: não basta estar, é preciso ser. Estar, no sentido de uma consciência sobre a própria localização, é uma condição-impulso. Como tal, insuficiente. Ser é o próprio impulso. Há, sem dúvida, uma ontologia em Amilcar. Com finalidade poética, não filosófica. Claro. Escuro. Onde o sujeito de um conhecimento em Amilcar se localiza é lá - no escuro. Lá, naquela privação de luz, ele está. Não sendo. Desejoso de chegar a ser. Daí o movimento. Para fora. Para dentro. Para o meio. Movimento bruto que racha a matéria. O movimento de uma verdade. Movimento bruto de um puro ser. O movimento-Amilcar para lembrar aqui (no fragmento da imagem no cabeçalho, gravura da última fase do artista mineiro) um fato: os 50 anos do "Manifesto Neoconcreto" (1959).

sexta-feira, 24 de abril de 2009

LITERATURA | Poema inédito

ANELITO DE OLIVEIRA - O que está em questão, há muito, é a própria possibilidade da poesia num mundo tão desgraçado. Os poetas podem fingir que não – e frequentemente o fazemos -, mas é esta a questão. Clara para os “construtores” e “destruidores” da modernidade – um Rilke, um Al Berto. A possibilidade da poesia, não do poema, a possibilidade do todo de uma experiência, não apenas de uma parte. O todo é impossível num mundo partido em partes amargamente desiguais. Para inscrever a impossibilidade desse todo como resultante de uma amarga desigualdade, esta balada sobre “o mais cruel dos meses” do Eliot de “The waste land”.


Balada de abril


1



Tudo nos faltará. Sempre.
Sempre que tentarmos encontrar.
Sempre que sairmos a procurar pelo mundo.
Tudo nos faltará quando começarmos a perguntar.


Quando pisarmos o pé na porta de entrada da razão, tudo nos
Faltará. Como sempre nos faltou. Como desde sempre nos faltou
Depois de uma noite de chuva. Logo que acordávamos depois daquelas
Longas noites de chuva. Não havia nada mais no mundo. Tudo tinha acabado.
Olhávamos e não encontrávamos senão a ausência da ação encantadora, do que se
Convertia em encantamento. Tudo nos faltava, tudo nos falta agora ainda, tudo nos falt
Ará sempre que nos voltarmos para nós mesmos. Sempre que buscarmos em nós m
Esmos o que sentimos que perdemos. Sempre que formos nós mesmos o caminho Pa
Ra chegar ao que nos falta. Sempre que nos enfrentarmos como referência
Do mundo.


É o próprio mundo que nos faltará nesse instante. Tudo nos
Faltará sempre que formos o contrário do mundo. Enquanto nos
Quisermos como o contrário do mundo. Enquanto estivermos
Fora ou dentro do mundo. Tudo nos faltará como uma
Espécie de tragédia da razão. Tudo nos faltará
Como sensação de abismo. Tudo nos faltará
Como desconhecimento do que somos.
Tudo nos faltará e nos matará
Sempre que a vida não
For suficiente.
Sempre.

2



Enquanto os carros passam, escorado num pilar que ostenta, lá em cima, uma placa de pare, hesitando entre duas possibilidades igualmente relevantes -
Continuar ou interromper,
Buscando solidariedade numa coisa, como quem já não sabe onde está, de quê mesmo se trata, de quê tudo é feito agora.
Agora que a tarde desvanece, agora que a noite acontece.
Não, não basta que tudo isso seja tempo, tampouco bastaria, ou basta já, que tudo isso seja espaço.
Explicações, não bastam.

Continuar ou interromper a caminhada vai-se tornando uma questão. Escuta apenas o escarcéu desta questão, apenas te envolve a solidão das questões, o embaraço.
O embaraço cinza.
Alguém não falta aqui para comunicar o que está em jogo. Comunicar seria abrir um jogo no mesmo campo.
Estar no asfalto é parte da questão, do embaraço que perfaz a questão, ali de onde é preciso sair.
Os carros passam. Rápidos, urgentes, vivazes.

Continuar ou interromper não vêm ao caso para mundos diferentes. Não é preciso viver tanto para saber disso, naturalmente. Mas certamente foi preciso viver enquanto para chegar a isso.
Tanto e enquanto. Talvez eu me aproxime da questão que ali me embaraçava pensando em quantidade e qualidade, tentando apreender o furta-cor dessa cor correndo – enquanto estou passando:
Verde, verde-claro, tenro, mãe, verde simples, raso, verde pobre, terno, verde longe, longe, longe, mãe –


3

Longe como o passado, que, então, vem ao caso como ausência, que, então, desperta o eu como fonte de sentido
O eu que não está mais ali, que agora está aqui, escondido neste que se apresenta desolado, isolado neste que não mais não mais
Busca abrigo
Este parado, escorado no pilar que grita pare, não busca nenhum abrigo, não acredita em abrigo, sabe que ninguém o abrigará, que já não se abriga ninguém no mundo

A alguém, jogando, diria a este respeito:
Todos obrigam, tudo é obrigação.
Alguém é desnecessário para que a linguagem continue sendo possível. Basta apenas este eu como aquele pobre verdejar, sobretudo isso, pela parede da casa à beira da avenida aparecendo através da janela aberta


Os carros passam.
Os carros passarão.
Tudo isso que é presente
precisa passar.
O presente passageiro
precisa passar.
Para que nos esqueçamos,
para que nos esqueçamos.
É melhor que nos esqueçamos.
Todos: eu, você, o mundo.
Os carros passam.
Os carros passarão.



Montes Claros, 04 de abril de 2009

terça-feira, 31 de março de 2009

AFRICANIDADE | Emanoel Araújo

ANELITO DE OLIVEIRA - Em outubro de 2003, Emanoel Araújo, artista plástico e curador baiano, a quem a cultura brasileira deve imensamente, esteve em Belo Horizonte com mais uma das suas grandes mostras de arte afrobrasileira, desta vez sob a tarja “Para nunca esquecer: negras memórias / memória de negros” (todo o material exposto está reproduzido num belo livro publicado pelo Ministério da Cultura). A exposição teve lugar no Palácio das Artes e fez parte das atividades da 2ª edição do Festival Internacional de Arte Negra que se realizou naquele ano, oito anos depois da 1ª edição desse evento extraordinário, ocorrida em 1995. Dois dias antes da abertura oficial, impressionado com a grandeza estética e humana de todo aquele gesto, fiz a entrevista com Emanoel que aqui disponibilizo. Era uma tarde de sábado, num momento em que o artista, todo generosidade, interrompeu a correria e sentamo-nos no café do Palácio, com a assistência atenciosa de Rita Amorim, da Fundação Centro de Referência da Comunidade Negra em BH.
Ainda quando a exposição estava em cartaz, tentei publicar esta entrevista no diário belorizontino “O Tempo”, pensando numa repercussão mais pontual, mas não consegui; sequer se interessaram por reproduzir quaisquer trechos. Cheguei a pensar em publicá-la no “Suplemento Literário de Minas Gerais”, mas todo o desarranjo administrativo daquele momento, que culminou no meu pedido de demissão, não me permitiu fazê-lo. Pensei depois, várias vezes, em submetê-la a algum periódico acadêmico ou para acadêmico, mas acabei desistindo, pensando que talvez pudessem fazer pouco dessa conversa inteligente, rara, com um nome imprescindível para a discussão sobre africanidade no país. E assim fiquei, durante todos estes anos, numa situação meio parecida com a do próprio Emanoel: carregando nas costas um patrimônio – imaterial – negro, numa condição de guarda de algo bastante valioso. Finalmente, para que não fique no limbo mais seis anos, aqui está esta entrevista, na esperança de que possa contribuir para a multiplicação do respeito e admiração pelo grande Emanoel Araújo.

*

Arqueologia de uma cultura soterrada

Está aqui um curso de pós-graduação sobre cultura afrobrasileira. Digo, após uma segunda visita na tarde de sábado último, e ele – o artista plástico baiano Emanoel Araújo – ri, modesto. Mas, na verdade, não vejo melhor definição em face desta mostra “Para nunca esquecer: negras memórias/ memórias de negros”, com a qual Belo Horizonte entra no clima da tão esperada (demora demais tudo que contempla os negros!) segunda edição do FAN – Festival de Arte Negra. Emanoel Araújo é o curador dessa exposição cuja caminhada começou, na verdade, no Rio de Janeiro em 2001. Sua última paragem foi, recentemente, em São Paulo.
Há um viés didático, uma tentativa de apresentar ao espectador as inúmeras inscrições de e sobre os negros ao longo de cinco séculos no Brasil. “Não só didático: eu diria didático e estético”, enfatiza o curador. De fato, são inscrições artísticas propriamente ditas – pinturas, esculturas, fotografias, poemas etc -, mas também não-artísticas, como fragmentos de jornais de combate ao racismo que circularam nas primeiras décadas do século XX no Brasil. Trata-se de um imenso arquivo de imagens e letras que nos revelam o sublime mas também o grotesco que envolvem os negros ao longo da história brasileira.
O arranjo da mostra parece objetivar uma compreensão da parte do espectador a um só tempo diacrônica e sincrônica, quer dizer: de maneira linear, passo-a-passo, mas também circular, de uma vez. Essas duas possibilidades de leitura ficam, inclusive, estimuladas pelo próprio fato de que todo o material não coube em apenas uma sala, aquela que se encontra já na entrada do Palácio das Artes. Parte do acervo foi organizado no térreo, o que, segundo Emanoel, não compromete em nada sua ordenação conceitual. De toda forma, na parte de cima o “rapsódico” Mário de Andrade dá o tom, enquanto na de baixo quem o faz é o “semeador” Antonio Vieira – do carnaval à missa, portanto.
Depois de duas caminhadas pela exposição – uma na tarde de sexta e outra na de sábado último -, Emanoel Araújo fala da existência de “ponto e contraponto” nisso que é, sem dúvida, um concerto barroco. A aproximação à música – que, alias, é parte da exposição, com trilha preparada exclusivamente pelo percussionista Djalma Corrêa – é muito cabível, servindo para confirmar o modo como Emanoel se relaciona com o passado afrobrasileiro, que é um modo musical, móvel, leve, solto, não aquele modo, digamos, na falta de outra expressão, “escultórico”, pesado, duro, tão criticado pelo grande avaliador da cultura afrodescendente no Brasil dos anos 40 que foi o etnólogo francês Roger Bastide.
O excesso de elementos que encontramos em “Para nunca esquecer” só revela a perspectiva includente adquirida por Emanoel Araújo em função do seu modo musical, este aspecto que se evidencia, por sinal, na abertura do livro-catálogo com o poema “Antífona”, de Cruz e Sousa, o ouvido mais musical da literatura brasileira. “Uma provocação que eu acho importante fazer”, afirma sorrindo este incansável “ajuntador” de memórias que pensa, ao contrário dos “radicais”, que o importante é incluir todas as coisas, e não excluir. Incluir – constatamos - até coisas e pessoas que não são benquistas pelo “mainstrean” dos que pensam a questão racial no Brasil. Gilberto Freyre – arauto da democracia racial – é um dos incluídos, por exemplo.
Com essa perspectiva includente, Araújo logra revelar, sobretudo, o seu destemor na abordagem da cultura afrobrasileira, uma liberdade típica de alguém maduro o suficiente para tudo encarar de maneira lúcida, sem frágeis crendices, com a imparcialidade possível. Seu olhar, a despeito de não ser friamente calculista, cientificista, é aquele de um arqueólogo, como ele mesmo o reconhece: “penso que a exposição seja uma arqueologia de uma cultura que foi soterrada, esse grande caldeirão que está sempre subterrâneo; revisitar essa memória é, no fundo, retirar essa cultura de um porão (diante do qual), por mais que você grite, grite, grite, continua sem ressonância”.


Como surgiu a ideia dessa exposição?

Esta exposição é resultado de outras. Na realidade, nasceu em 1987, quando, por ocasião do centenário da abolição (comemorado em 1988), organizei a exposição “A mão afrobrasileira”, um levantamento do que foi o negro na cultura brasileira desde o Barroco, que se tornou um livro. É mais ou menos o que faço hoje.
“A mão...” ainda era uma pesquisa em andamento, muita coisa foi mudando, foi-se afinando, ficando mais didática também. Em 93, fiz uma outra chamada “Vozes da diáspora”, homenagem ao então recém-falecido Rubem Valentim. Depois fiz “Brasil África Brasil”, em homenagem a Pierre Verger.
“Negras memórias/memórias de negros” começou de fato na Bahia, em 1983, quando fiz a exposição “Bahia África Bahia”, que registrou um fato muito curioso: levou 1500 pessoas à abertura, num domingo, às sete horas da noite.
Também fiz exposições como “Herdeiros da noite”, que trouxe a Belo Horizonte (por ocasião do primeiro Festival de Arte Negra, em 1995), e “Negro de corpo e alma”, antes de chegar a esta exposição.

Com “Negras memórias”, o Sr. fecha um ciclo de exposições sobre o tema?

Não ainda. Há lugar para uma outra que quero fazer, que é aquela que chamo de um grande halo criado por esta sociedade que se estabelece a partir da escravidão, da diáspora (africana). Seria uma exposição envolvendo o Brasil, a América do Norte, o Caribe e a América do Sul – aqui, as populações negras que a gente não conhece do Peru e do Uruguai, por exemplo.
Penso naquele tambor que está ali (aponta para a sala de exposição) como metáfora da ressonância da presença negra nas Américas, no Caribe etc. Com a chegada dos negros a esses lugares, formou-se uma sociedade afroamericana, caribenha ou afrocubana.

A exposição me parece um grande inventário da presença negra no Brasil. É sua intenção apresentar uma visão macroscópica da questão, digamos, com a finalidade de superar uma visão microscópica?

Não, necessariamente. Penso que a exposição seja uma arqueologia de uma cultura que foi soterrada. Esta exposição, assim como as outras que fiz, tenta trazer à luz todos os elementos que compõem a cultura brasileira.

Esse grande caldeirão...

Esse grande caldeirão que está sempre subterrâneo. Revisitar essa memória é, no fundo, retirar essa cultura de um porão, de um terreno soterrado onde ela se encontra e por mais que você grite, grite, grite, por mais que você faça alarde, ela continua sem ressonância. Essa exposição é importante para mim no sentido de que possa ser uma ressonância sob vários aspectos: o da auto-estima, o da necessidade (da ostentação) do halo ancestral que existe entre o estigma e a vida.

A que o Sr. atribuiria a pouca ou quase nenhuma ressonância dos afrodescendentes enquanto tais neste país ainda hoje?

Sabemos que é uma questão de poder.

Poder aquisitivo?

Não. Poder de encontro. O que sinto é que há um grande desencontro (entre o negro e sua cultura), uma falta de conhecimento de um lado que não seja o do estigma. A gente não sabe quais os vultos afrodescendentes que foram fundamentais para a constituição da cultura brasileira, poetas, engenheiros etc que, a despeito do preconceito, conseguiram ir além. Acho importante conhecer Cruz e Sousa, que haja, afinal, o estudo da cultura negra. Acho fundamental saber que existiram também José do Patrocínio, Teodoro Sampaio, André Rebouças e tantos outros.

Por sinal, o Sr. abre o livro-catálogo da exposição com o poema “Antífona”, de Cruz e Sousa. O que o levou a essa atitude?

Volto à questão da metáfora. Cruz e Sousa é um poeta que me emociona muito. Aqui (aponta novamente para a sala da exposição) tem um trecho do (poema em prosa) “Emparedado”, que de fato é o momento mais terrível em que ele (o poeta) se encontra. Ele tem uma densidade luminosa, inventiva, e isso me interessa.
Acho que há artistas que não poderiam se expressar de outra maneira senão aquela com que se expressaram em face dos dogmas da sociedade. Para mim, um poeta como Luiz Gama, com a coisa da ironia e do sarcasmo em relação ao racismo, é tão importante quanto Cruz e Sousa, que vai para o outro lado, com o simbolismo.
Não tenho uma explicação muito objetiva para o fato de ter colocado Cruz e Sousa na abertura do catálogo. Mas é mesmo uma provocação que eu acho importante fazer.

Ainda no seu texto no livro-catálogo, o Sr. cita várias figuras afrodescendentes famosas, mas omite Pelé. Há alguma objeção a ele?

Não. Pelé não precisa.

Pelé e Cruz e Sousa são antípodas: enquanto um é símbolo do negro super bem sucedido economicamente, o outro é símbolo do mal sucedido...

Não tenho uma ideia formada sobre Pelé. Acho que ele tem todo o direito de não entrar em certas discussões e não comprar certas brigas. Sinto que ele tem uma dívida com a comunidade negra. Teria nos livrado de uma série de coisas se tivesse assumido outra postura, mas ele tem direito de ser o que quiser.
Todas as personalidades que compraram a questão do negro, entenderam ou tentaram entendê-la, são muito importantes para o inconsciente coletivo. Acho que Gilberto Freyre, por exemplo, é uma grande figura, muito embora os radicais (que refletem sobre a questão racial no país) o detestem. Ele, assim como Jorge Amado, tenta incorporar nossa cultura, esse amálgama, com todas as contradições, todos os encontros e desencontros.
Também Jorge de Lima e Nina Rodrigues que, mesmo com a posição racista que a antropologia do século XIX realmente tem, é o primeiro a escrever sobre a arte negra enquanto Belas Artes em 1904. Muitas vezes temos atitudes radicais que excluem, e eu acho que temos que incluir todas as coisas.

O Sr. está otimista em relação ao momento atual no Brasil, com Gilberto Gil, Benedita da Silva e outros negros em ministérios do Governo Federal?

Temos que ser (risos). O Brasil é um país muito curioso em relação ao preconceito. Fico pensando na postura que se tinha há dez, quinze anos atrás, por exemplo, (em relação ao) elevador social: havia um porteiro negro que perguntava ao síndico, quando chegava um outro negro: é para entrar no elevador social ou não? Todos experimentamos isso. Agora uma simples lei vem e acaba com esse racismo, mostrando que certas questões de preconceito são passíveis de serem resolvidas, basta que haja coragem de assumir que tem que ser resolvidas.
Acho que é muito legal a presença de negros no Ministério, bem como a preocupação de que haja diplomatas negros no Itamaraty. Há uma mudança, de fato. A importância internacional que se dá ao Governo Lula vem exatamente daí: pela primeira vez está-se quebrando essa hegemonia oligárquica, filha-da-puta, que havia aqui. Acho que a gente não percebeu ainda essa mudança porque ainda é muito cedo.

O Sr. acha que Lula tem uma consciência para-racial (Emanoel ri), senão racial propriamente dita?

Creio que social, étnica. Mas acho que, na realidade, ele também tem uma consciência racial, já que seu Governo está criando agora o sistema de inclusão de estudos africanos no currículo escolar.

E a questão das cotas para negros em Universidades. Considera esse sistema positivo ou negativo?

Positivo. Acho que é uma ação afirmativa muito importante. Você tem que educar as pessoas, tem que melhorá-las, precisamos de mão-de-obra especializada. É assim que se pode diminuir a discrepância social. O que nos falta, na realidade, é uma grande consciência que faça com que os donos da terra, os brancos da terra (risos), possam dividir o que têm. Não adianta você morar num apartamento e ter um “mercedes bens” na porta se na esquina você vai ser seqüestrado. E ninguém nasce ladrão nem criminoso, não é verdade?


Voltando à arte: como se dá sua passagem de criador para colecionador de artes e expositor?

Tudo começou quando comecei a estudar belas artes nos anos 60, em Salvador, e freqüentava o Instituto Histórico e Geográfico e os museus da polícia. Na época, eu estudava e trabalhava no departamento de turismo da Bahia. Era uma época em que os terreiros de candomblé pediam autorização à polícia para funcionarem.
Tinha um amigo antropólogo e me veio dele essa consciência de ver, de vasculhar, de descobrir obras que estavam guardadas no Instituto Histórico e Geográfico e nos museus da polícia, onde eram usadas com o objetivo de provarem que os negros eram inferiores aos brancos.
Ainda hoje resta uma coleção de arte litúrgica no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, formada por obras aprisionadas durante batidas policiais em terreiros na Bahia. Também há coisas em museus da polícia do Rio de Janeiro. No museu do Estado de Pernambuco também há muitos objetos litúrgicos dos xangôs do Recife.
Com o tempo, fui tomando consciência dessas obras, juntando-as e comprando aquilo que aparecia no mercado, não tudo, é claro. A cada pesquisa, a coleção foi se ampliando.

Sua coleção de arte afrodescendente é a maior hoje no Brasil?

Não sei se há outra. Há? (risos)


Ontem (sexta-feira) o Sr. me dizia que há um projeto de criação de um Museu Afro-Brasil em SP, que teria a guarda dessa sua coleção.

O projeto surgiu agora quando a coleção estava exposta na FIESP, em SP, onde o Secretário de Cultura da cidade – Celso Frateschi – a viu e aventou a possibilidade de se reunir isso como Museu. Por outro lado, eu estava empenhado, a pedido de Gilberto Gil, no trabalho de conceituação e tipologia de cinco museus: o Museu Afro-brasileiro da Bahia, o Museu de Congonhas, um do Pantanal, um outro de Ouro Preto, um de Aleijadinho etc. Martha Suplicy, prefeita de SP, foi quem ficou entusiasmada para criar o museu a partir dessa coleção, que seria posta em comodato.
O museu trabalharia sobre essa coleção, que, na realidade, é uma coleção meio bruta porque tem fotografia e uma série de outros objetos que nem são expostos, não só do Brasil como da África, do Caribe, inclusive uma biblioteca de quase dois mil volumes sobre a cultura afrobrasileira. Portanto, é um núcleo que caberia dentro de um museu. Por outro lado, chega um momento de eu não poder carregar mais toda essa tralha nas minhas costas.

Esta é a última vez que o Sr. carrega essa “tralha”?

Não sei. A princípio, seria, embora tenha um convite para que essa exposição vá para o Paraná, para Washington D.C. Mas, a princípio, encerra aqui.

E encerrar aqui em MG tem um significado especial para o Sr. Lembro de uma passagem do seu texto no livro-catálogo em que o Sr. se refere a Aleijadinho como “o imenso”. Como são suas ligações com MG e Aleijadinho, em especial?

Com Aleijadinho, nem posso dizer, depois de tudo que dele se falou, tantos intelectuais como (o francês) Germain Bazin. Posso falar que o que me fascina no Museu de Congonhas (em torno da obra de Aleijadinho) é exatamente a possibilidade de trabalhar um conceito de museu em que não fosse necessário remover os profetas, mas sim deixá-los onde estão, tratá-los museologicamente e levar a via-sacra para o Museu porque acho que ela é o grande canto do cisne de Aleijadinho e não consegue chegar ao espectador porque está dentro daquelas capelas.
Gostaria de transformar aquela via-sacra num grande teatro, de forma que se visse a escultura na sua totalidade, na sua inteireza. Essa era a razão primordial pela qual eu toparia trabalhar no Museu de Congonhas. Parece-me que um museu puramente massivo, onde as pessoas chegam e vêem, ainda é pouco. Precisaria trabalhar outras questões, como a pedra, um grande estudo sobre a pedra-sabão. É mais um projeto entre os muitos em que me meto (risos).

E, por falar nisso, como o Sr. recebeu recentemente a reedição da tese sobre a possível inexistência de Aleijadinho?

Lembro de Mário de Andrade. Quando alguém lhe dizia que Aleijadinho era primitivo, ele perguntava: primitivo por quê? Em relação a quê? Não existe por quê. Claro que não é sério levantar questões como essa (da inexistência de Aleijadinho), que é uma invenção. Claro que há uma obra construída, que tem similute, referência, princípio. Acho um absurdo que alguém levante essa questão. Deve ser algum inimigo de Minas Gerais.

Lezama Lima dizia que Aleijadinho representa a rebelião dos negros na cultura latino-americana.

É fantástico que o filho de uma negra e um português tenha chegado a tamanha genialidade no século XVIII e produzido o que produziu. Aleijadinho é imenso, apesar de todas as questões que se apresentem sobre ele, é a maior coisa do século XVIII. Só Congonhas é monumental, é um homem grandioso.

A controvérsia em torno de Aleijadinho não lhe parece exemplar da controvérsia em torno da memória afrodescendente no Brasil como um todo?

Na verdade, o próprio nome Aleijadinho já é um estigma. Nossos heróis – brancos ou negros – têm sempre um estigma. No Brasil, as coisas se esfacelam: ele era aleijado, não tinha mãos, e como é que alguém pode esculpir sem mãos? É um absurdo! Por outro lado, há personagens que preservaram a memória de outros personagens importantes. Aleijadinho é conhecido no Brasil e em muitos lugares do mundo. Se a memória é nossa, cabe-nos preservar.

Nós, quem? Os negros?

Nós, negros.

Parece-me um trabalho solitário. Não há, de um modo geral, um sentimento de responsabilidade com o passado entre os negros como há entre os brancos.

Pois é: nossa memória de um modo geral é escamoteada. É estranho, é um traço colonial. Por outro lado, acho que temos sempre que revisitar essa memória. Daí o meu esforço no sentido de organizar o museu. Porque o museu é o espaço onde essa memória pode ser sempre repassada, sempre discutida, suscitando sempre novas ideias e pesquisas.

Creio que, ao ser despertada, essa memória por si só já funciona como uma crítica ao modo como a sociedade brasileira se relaciona com os negros.

Alguém vai dizer que essa história não está contada. E,de fato, não está. É preciso contá-la. Por isso que digo que é um trabalho de arqueologia. (e sai a caminhar pelas salas onde está a exposição).

sexta-feira, 27 de março de 2009

MANCHA | Guilherme Mansur

ANELITO DE OLIVEIRA - Sob o título "Encantadora precariedade", publiquei o texto abaixo sobre o poeta, designer gráfico e artista plástico ouropretano Guilherme Mansur ano passado, no segundo número do jornal "Caderno de Leitura", invenção do saudoso João Alexandre Barbosa na Edusp, lá nos fins dos anos 80, e que o inquieto Plinio Martins Filho recolocou em circulação, com o auxílio luxuoso do crítico Manoel da Costa Pinto. A convite dos dois, escrevi issso que é tanto sobre um raro "inventor" (Pound) quanto sobre um ser humano extraordinário, com quem tive prazer de conviver durante quatro anos no "Suplemento Literário de Minas Gerais". Esta reprodução é, sobretudo, para acusar a saudade daqueles dias, relembrar um grande amigo, suspender um pouco, ainda que virtualmente, a distância que hoje se impõe entre os gerais rosianos, onde me encontro, e as minas alphonsinas, onde Mansur se encontra. Com esta reprodução, instauro aqui uma seção voltada para o mundo gráfico-editorial, para falar de editores, designers e as "manchas" que fazem no papel.
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Encantadora precariedade
“Tipoeta”, como o definiu Haroldo de Campos, o mineiro Guilherme Mansur desenvolve, há 30 anos, em sua barroca Ouro Preto, uma extraordinária atividade editorial, que está fundamentalmente ligada a sua prática de poesia, ou antes: que se desdobra de sua particular percepção do fenômeno poético. Não é possível dizer ao certo, quando nos encontramos com suas raras produções (e, de fato, é sempre um encontro, algo marcante), onde termina um processo editorial propriamente dito, o desempenho de uma tarefa como outra qualquer, e começa um processo criativo, algo sem uma finalidade objetiva, com ares da intransitividade inerente à coisa artística.Antes de mais nada, ressalta-se nesse trabalho a tentativa de dar a ver algo raro, que ainda não foi feito, o que resulta em estranheza, num produto para poucos, sem possibilidade real de despertar o interesse de leitores-consumidores, aqueles que têm uma relação comum, digamos, com o objeto livro. Não são esses, claro, os receptores visados pelo editor Mansur, a quem ele oferta seus produtos gráficos. Ele visa aqueles que reconhecem no livro um objeto de arte capaz de proporcionar uma experiência estética singular, que se daria num interstício de linguagens, entre o que, a priori, é para ser visto (arte plástica) e o que é para ser lido (arte verbal).Descendente de proprietários de gráfica, Guilherme Mansur cresceu entre tipos, clichês, papéis, chapas, tinta, cheiro de cola, guilhotina, zumbido de cortes, dobras, embrulhos. Enfim, despertou para a poesia em meio a toda a parafernália que constituía, inevitavelmente, o mundo gráfico há alguns anos, toda uma “sujeira”, uma “bagunça”, que (fato lamentável de um ponto de vista cultural) vai-se tornando cada vez mais difícil de se encontrar hoje em dia em função das novas tecnologias de impressão. As edições de Mansur são marcadas por esse ambiente em que ele se criou, atravessadas por uma precariedade que acaba por se afirmar como seu dado encantador.Entre os muitos autores editados pela Tipografia do Fundo de Ouro Preto, destacam-se alguns dos principais poetas da cena literária brasileira de fins do século XX para cá, como Paulo Leminski, Régis Bonvicino, Sylvio Back, Laís Corrêa de Araújo, Josely Vianna Baptista e, especialmente, Haroldo de Campos. Este, que na última década fazia questão de destacar um olhar crítico que, na verdade, sempre cultivou sobre o capitalismo (“forma de fome”), certamente soube entender a importância do gesto de Mansur como resistência aos “enlatados” editoriais. Contra a massificação no âmbito das letras, um pouco de aura, de artesanato, de “espírito” manual.De fato, é uma sutil tomada de posição em relação ao que está estabelecido no mercado editorial hoje que se apresenta, por exemplo, em edições como Finismundo: A Última Viagem, do poeta paulista, e na antologia de escritos das etnias indígenas Mbyá e Nivacle, três volumes (Neblina Vivificante, O Amor entre os Nivacle e Soninho com Pios de Periquitos ao Fundo), organizados, sob o título geral de “Cadernos da Ameríndia”, pela poeta e tradutora paranaense Josely Vianna Baptista e pelos antropólogos paraguaios Luli Miranda e Miguel Chase-Sardi. Essas edições, que dificilmente o interessado pode conseguir em algum dos melhores sebos que estão por aí, são, sobretudo, um acontecimento gráfico-editorial irrepetível, o esplendor de uma simplicidade considerada, de certa forma, obstáculo à venda de produtos editoriais. Mansur, evidentemente, pertence à estirpe daqueles que se engajam na realização da própria obra, desinteressados em relação ao que o sistema sociocultural possa achar ou não, a estirpe dos assistemáticos por excelência. Seu método criativo tem referenciais próximos e longínquos no tempo e no espaço, mas, certamente, o mais decisivo de todos foi e é Amilcar de Castro. Como este (que reformou a diagramação do Jornal do Brasil nos anos 60), Mansur (que reinventou a diagramação do jurássico Suplemento Literário de Minas Gerais nos anos 90) parece entender que a arte, independente do suporte ou do gênero, distingue-se pelo que é: uma forma que pensa.

domingo, 15 de março de 2009

JORNALISMO | Gullar na Bravo!

ANELITO DE OLIVEIRA - Excepcional a entrevista de Ferreira Gullar na revista Bravo! deste março. Independente de se concordar ou não com o que ele diz, vale como prova de lucidez de um criador crítico num momento crítico para qualquer expressão criativa e crítica. Gullar fala, obviamente, a partir do lugar de uma singularidade, que ele mesmo acredita ser desde quando se transferiu de São Luís para o Rio de Janeiro, lançou, em 1954, A luta corporal e articulou, em 1959, a dissidência Neoconcreta. Para ele, a exemplo de tantos outros artistas de vanguarda, o mundo se divide em AG/DG, antes e depois de Gullar, e daí que o centro das atenções de sua reflexão seja ele mesmo, colocando-se em relevo, mais uma vez, seu individualismo, que nos leva a rever, com tristeza, todo o socialismo que marca grande parte de sua obra poética: toda aquela verdade social era embuste “fundamental”, mero artifício de um ser enganador? Por outro lado, nenhuma menção a autores vivos, a integrantes de sua geração ainda em atividade, a processos em curso na poesia contemporânea, e uma menção bastante pessoal ao estágio das artes plásticas. Neste caso, uma questão paradoxal: a vida justifica a “arte”, mas a “expressão” seria algo injustificável pela vida. Dito de outro modo: minha vida vale muito, a vida dos outros, nem tanto – e não acredito em luta de classes e capitalismo imita natureza (pra quê a cultura, então?). Todavia, a excepcionalidade de Gullar reside exatamente nisso: na subordinação do mundo ao mundo próprio. Tudo bem, como dizia Valéry, “o homem é aquilo que acredita ser”. Gullar acredita que é singular – e é.

Revista BRAVO! Março/2009
"A Poesia Surge do Espanto"
De repente, quando se ergue da cadeira, o poeta percebe que o fêmur de uma perna resvala no osso da bacia. Aquilo o intriga. “É desse tipo de surpresa que nasce um poema”, diz Ferreira Gullar
Por Armando Antenore
Certa manhã, enquanto fazia recortes para novas colagens, notou que umas tiras miúdas de papel salpicavam o piso da sala. Mal se abaixou com a intenção de recolhê-las, viu que formavam um desenho abstrato. A figura inusitada e bela surgira de modo espontâneo, à revelia de qualquer pretensão estética. O escritor, hipnotizado, apanhou os pedacinhos de papel e os fixou em uma cartolina amarronzada exatamente da maneira como caíram no chão. Batizou o trabalho de Por Acaso, Puro Acaso. Quem percorre o apartamento carioca logo avista a composição pendurada numa nesga de parede e um tanto oprimida pelas dezenas de outros quadros e gravuras que decoram o imóvel — a maioria de artistas tão míticos quanto Iberê Camargo, Rubem Valentim, Oscar Niemeyer e Marcelo Grassmann. "Todos bons amigos", comenta o dono da casa, com um híbrido de displicência e orgulho.
O episódio dos papéis revela muito sobre o jeito de o poeta enxergar a vida e o ato criativo. Para o autor do célebre Poema Sujo, viver (ou criar) é o resultado de um diálogo contínuo entre o arbítrio e o inesperado, a ordem e a desordem, a necessidade e o acaso. O assunto veio à tona numa tarde abafada de fevereiro, ao longo da conversa de três horas que Gullar manteve com BRAVO!. O apartamento de Copacabana, silencioso àquela altura do dia, serviu de cenário.
Viúvo, o maranhense namora a poetisa gaúcha Cláudia Ahimsa. Ele a conheceu durante a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 1994. Pouco tempo antes, amargara a morte da mulher, Thereza Aragão, e de um dos três filhos, o caçula Marcos. Inspirado pela atual companheira, escreveu os versos "Olho a árvore e já/ não pergunto 'para quê?'/ A estranheza do mundo/ se dissipa em você".
BRAVO!: O senso comum costuma apregoar que poetas nascem poetas. Poesia é destino?
Ferreira Gullar: Prefiro dizer que é vocação. O poeta traz do berço um modo próprio de lidar com a palavra. Não se trata, porém, de um presente dos deuses, de uma concessão divina, como se pregava em outras épocas. Trata-se de um fenômeno genético, biológico, sei lá. Há quem nasça com talento para pintar, jogar futebol ou roubar. E há quem nasça com talento para fazer poemas. Sem a vocação, o sujeito não vai longe. Pode virar um excelente leitor ou crítico de poesia, mas nunca se transformará num poeta respeitável. Quando um jovem me mostra originais, percebo de cara se é ou não do ramo. Leio dois ou três poemas e concluo de imediato. Por outro lado, caso o sujeito tenha a vocação e não trabalhe duro, dificilmente produzirá um verso que preste. Se não estudar, se não batalhar pelo domínio da linguagem, acabará desperdiçando o talento. "Nasci poeta, vou ser poeta." Não, não funciona assim. Converter a vocação em expressão demanda um esforço imenso. Tudo vai depender do equilíbrio entre o acaso e a necessidade. A vocação é acaso. A expressão é necessidade. Compreende a diferença? No fundo, a vida não passa de uma constante tensão entre acaso e necessidade.
Nada escapa desse binômio?
Nada. O que faz o homem sobre a Terra? Luta para neutralizar o acaso. Eis a principal necessidade humana: driblar o imprevisível, a bala perdida. Concebemos Deus justamente porque buscamos nos proteger da bala perdida. Deus é a providência que elimina o acaso. É o antiacaso.
Você não crê que Ele exista?
Gostaria de acreditar, mas não acredito. Uma pena... Poucas crenças podem ser mais reconfortantes do que a fé em Deus. Ele enche de sentido as nossas vidas sem sentido. "Eu não sou cachorro, não!", cantava o Waldick Soriano, lembra? Uma frase sugestiva, já que os homens realmente não se veem como cachorros. Os homens anseiam uma condição sublime. Não à toa, inventaram Deus: para que Deus os criasse. Se você pensar direito, todas as coisas abstratas ou concretas que a humanidade constrói têm a intenção de dar significado à vida — e, não raro, um significado especial. Nós, que frequentemente praticamos atos injustos, inventamos a justiça. Por quê? Porque desejamos ser melhores do que somos e tornar menos insolúvel o mistério de viver. A arte surge pelo mesmo motivo.
Conclui-se, então, que o poema também almeja dar significado à vida.
O poema nasce do espanto, e o espanto decorre do incompreensível. Vou contar uma história: um dia, estava vendo televisão e o telefone tocou. Mal me ergui para atendê-lo, o fêmur de uma das minhas pernas bateu no osso da bacia. Algo do tipo já acontecera antes? Com certeza. Entretanto, naquela ocasião, o atrito dos ossos me espantou. Uma ocorrência explicável de súbito ganhou contornos inexplicáveis. Quer dizer que sou osso?, refleti, surpreso. Eu sou osso? Osso pergunta? A parte que em mim pergunta é igualmente osso? Na tentativa de elucidar os questionamentos despertados pelo espanto, eclode um poema. Entende agora por que demoro 10, 12 anos para lançar um novo livro de poesia? Porque preciso do espanto. Não determino o instante de escrever: "Hoje vou sentar e redigir um poema". A poesia está além de minha vontade. Por isso, quando me indagam se sou Ferreira Gullar, respondo: "Às vezes".
A falta de controle sobre o ato de escrever o angustia?
Não, em absoluto. A experiência de criar um poema é maravilhosa. Mas, como não depende inteiramente de mim, sei que corro o risco de nunca mais vivenciá-la. Se parar de fazer poesia, vou lamentar — só que não a ponto de disparar um tiro na cabeça. Nenhum poema, de nenhum poeta, me parece imprescindível. Dante Alighieri poderia não ter escrito A Divina Comédia. Ou poderia tê-la escrito de outro jeito. Novamente: tudo se subordina à lei do acaso e da necessidade.
Um poema deve sempre emocionar?
Sim, deve emocionar primeiro o poeta e depois o leitor.
O pernambucano João Cabral de Melo Neto, com quem você conviveu, pensava diferente, não? Ele preconizava uma poesia menos emotiva.
João Cabral gostava de mentir! (risos) Pegue o poema O Ovo de Galinha e veja se aquilo não comove o leitor. Você acha que o João também não se comoveu ao escrevê-lo? Lógico que se comoveu! Na verdade, João recusava a ideia de o poeta transformar a poesia em confessionário, em objeto do sentimentalismo. Daí proclamar que o poema tinha de ser uma construção intelectual. A razão lhe serviu de bússola. No entanto, paradoxalmente, inúmeros de seus versos não resultaram tão frios. À medida que o tempo passa, o João se revela cada vez mais complexo, uma soma de contradições — o que, no fim das contas, só aumenta a grandeza dele.
Você concorda quando os críticos apontam o Poema Sujo, de 1975, como sua obra máxima?
Difícil responder. Não me debrucei profundamente sobre o assunto... O Poema Sujo é, de fato, o que reúne o maior número de interrogações e descobertas — em parte, pela extensão (os versos se espalham por quase 60 páginas); em parte, pela febre criativa que me assaltou enquanto o redigia. Entre maio e outubro de 1975, fiquei imerso no que classifico de "estado poético". Nada me tirava daquele clima. Eu comentava, brincando, que me tornara uma espécie de rei Midas. Tudo em que botava a mão virava ouro, tudo virava poesia. Foi uma fase excepcional. Para mim, porém, trabalhos mais recentes podem ter importância idêntica à do Poema Sujo, por exprimirem reflexões novas, algo que não me ocorrera dizer antes.
Uma parcela da crítica sustenta que você é o maior poeta brasileiro vivo. É mesmo?
Imagine! E como se mede o tamanho de um poeta?, já perguntava Carlos Drummond de Andrade. Que régua consegue dimensionar um negócio desses? Claro que, quando escuto uma avaliação do gênero, me envaideço. Mas não me iludo. Cada poeta, vivo ou morto, é inigualável. O João Cabral, o próprio Drummond, o Vinicius de Moraes, o Mário Quintana nos transmitiram um legado riquíssimo. São inventores de um universo muito pessoal e insubstituível. Sem mencionar o Murilo Mendes, autor de pérolas tão lindas quanto "A mulher do fim do mundo/ Chama a luz com um assobio".
Poeticamente, você jamais permaneceu num único lugar e sempre procurou a renovação. Em contrapartida, como crítico, acabou recebendo a pecha de conservador, por rejeitar diversas manifestações da arte contemporânea. O rótulo o incomoda?
Não, não me incomoda. Nesta altura do campeonato, quando o vale-tudo se apoderou das artes plásticas, a qualificação de "conservador" perdeu sentido. Conservador por quê? Por diferenciar expressão e arte? No meu entender, toda arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. Se me machuco e grito de dor, estou me expressando; não estou produzindo arte. Da mesma maneira, se alguém começa a bater numa lata, emite sons; não cria música. O filósofo francês Jacques Maritain, católico, afirmava que a arte é "o Céu da razão operativa". Ou melhor: é o ápice do trabalho humano. Arte, portanto, pressupõe o "saber fazer". Saber pintar, saber dançar, saber esculpir, saber fotografar, saber tocar, saber compor. Tal critério prevaleceu durante milhares de anos, desde as cavernas até o advento das vanguardas, no final do século 19, período em que se questionou o "saber fazer". Pois bem: sob a minha ótica, a preocupação vanguardista é um fenômeno que se esgotou. Por milhares de anos, a arte seguiu adiante sem ligar para o conceito de vanguarda. Ninguém me convencerá de que, em pleno século 21, crucificar-se na traseira de um Fusca, deixar-se filmar cortando a vagina ou masturbar-se numa galeria equivale a um gesto artístico. Segundo o norte-americano John Canaday, historiador da arte, os críticos de hoje temem repetir o erro cometido pelos críticos do século 19, que não compreenderam os impressionistas. Em consequência, assinam embaixo de qualquer bobagem que levante a bandeira do "novo". Percebe a armadilha? Caso três ou quatro artistas resolvam espremer uma bisnaga de tinta no nariz de um crítico, ouvirão dele que praticaram um ato inovador. Definitivamente, não penso desse modo.
Nos tempos de militância comunista, você usou a poesia com fins políticos. O engajamento dos poetas ainda se justifica?
Não, de jeito nenhum. Os poetas, agora, irão se engajar em quê? No socialismo ridículo do Hugo Chávez? Foi um engano imaginar que versos contribuiriam para a revolução social. Admito que um poema consiga iluminar o leitor, consiga lhe abrir a cabeça. Mas daí a mudar a sociedade... Muito complicado! Abandonei todos os mitos daquela época. Não creio mais em luta de classes. Já aprendi que o capitalismo é como a natureza: invencível.
E a crise econômica que o mundo enfrenta atualmente? Não põe o capitalismo em xeque?
Sem dúvida atravessamos um momento delicadíssimo. Mesmo assim, estou convicto de que o capitalismo resistirá. Trata-se apenas de mais uma crise num sistema que vive de crises. Repito: o capitalismo vai imperar porque segue a lógica da natureza. É brutal, é feroz, é amoral. Não demonstra piedade por nada nem por ninguém. Em compensação, nos oferece uma série de benefícios. O capitalismo, à semelhança da natureza, se desenvolve espontaneamente. Não precisa que meia dúzia de burocratas dite o rumo das coisas, como acontecia nos regimes socialistas. Em qualquer canto, há um cara inventando uma empresinha. De repente, no meio deles, aparece um Bill Gates. São multidões em busca de dinheiro! Impossível deter uma engrenagem tão eficiente. Podemos, no máximo, brigar para que as desigualdades geradas pelo capitalismo diminuam. Aliás, convém que briguemos. Não devemos abdicar de um mundo mais justo, ainda que capitalista.
Como você avalia o governo Lula?
Avalio mal. O Lula é um grande pelego. Sabe aquele indivíduo que se infiltra nos sindicatos para amortecer os conflitos entre trabalhadores e patrões? O Lula age exatamente assim. Por um lado, agrada os banqueiros e os empresários. Por outro, corrompe o povão com programas assistencialistas. Posa de líder popular, e a massa o aplaude. Viva o pai dos pobres! Resultado: todo mundo confia no Lula, o rico e o miserável. Em decorrência, as tensões sociais se diluem. Que maravilha, não? Um país de carneirinhos...
Em setembro de 2010, você completa 80 anos. Sente-se realizado?
Olha, a vida é uma cesta em que, quanto mais se põe, mais se deseja colocar. Estamos sempre partindo do zero. Hoje pinto um quadro ou termino de ler um livro. Fico satisfeito. Mas, amanhã, me pergunto: e agora?

sábado, 7 de março de 2009

LITERATURA | Poemas inéditos

ANELITO DE OLIVEIRA - Há quase cinco anos não publico nada de poesia. Só planejo. Escrevo, projeto, converso com editores e volto, desanimado, ao silêncio. Vinte anos a serviço da poesia – criando, pensando, difundindo, agitando etc – e apenas dois livros, mal publicados e mal distribuídos: Lama (2000) e Três festas: a love song as Monk (2004). Mesmo com a recepção tão entusiasmada de leitores-críticos que respeito: Armando Freitas Filho, Adolfo Montejo Navas, Fábio Lucas, Ivan Marques, Edgard Pereira, Mário Alex Rosa, Maria José de Queiroz, Maria Antonieta Pereira, Alécio Cunha, entre outros. São vinte anos e dois livros! Além dos poemas divulgados no Suplemento, Dimensão, Medusa, Na virada do século de Frederico Barbosa e Cláudio Daniel e Poetas na biblioteca de Reynaldo Damázio, nada. O que eu esperava que aconteceria? Tudo. O que aconteceu? Nada. Nunca houve nem haverá tempo-espaço bom para publicar poesia. Os poemas no mundo, então, em qualquer suporte, à procura de algum acolhimento.


A DESTRUIÇÃO

1.

A vida destruiu
a alma,
Onde estava o amor

O corpo segue
Sem nada

O que tenho a dizer?

2.

O outro lado é a negação.
Este, o que ainda resta de uma vontade,
a vibração.
Dali, do outro lado, chega-se depois de tanto tempo, corpo empoeirado
náufrago ofegante.
Chega-se dali com um copo
De vida na mão. E é tão fácil, tão simples, entorná-lo, destruí-
Lo. Tudo nega o que disse.
Afirma. O outro lado é tudo que mata.
A vida.

3.

Aqui estou.
Exatamente onde
Estivemos.
Sozinho,
Agora penso o que diria
Para tornar as coisas
Menos ordinárias.
Diria
Que não tenho sentido,
Por exemplo.
O que é isso?
E sorriria:
O que se tem
Quando tudo está,
Como na canção,
Perdido.
Aqui,
Exatamente assim,
Estou.

4.

Eis que me vem
A sua lembrança
Eis que me vem o desejo
Da sua presença
Eis que me vem a
Sensação da distância
Você distante
Eu distante
Distantes daqui
Desaproximados
Ausentes
Enfim
A força esmagadora da
Ausência:
Uma canção qualquer
O rádio
O quarto
Eu


5.

Eram 29 anos e a
Premência de chegar
Aos 30. São agora
38 anos e a premência
De chegar aos 39
E resultar apenas
Nos 40. A premência
De perder a vontade
De descobrir, de se
Dar por descoberto,
Conhecido de si, o
Mais trivial vizinho.

6.

O que restou?
A lembrança.

7.

Diante de uma lembrança,
O limite. Este aqui, onde
A água se detém. Como
Um touro, detém-se,
Detida. Como um menino
Cego diante do espelho.
Era um touro. Era um
Menino. Era um touro
Terno como o verde dos
Olhos. A água nos olhos.
Terno, como a verdade
No desamparo. Este mar.


Anelito de Oliveira
Verão de 2009

quinta-feira, 5 de março de 2009

JORNALISMO | Imagem do Brasil

ANELITO DE OLIVEIRA – Difícil traduzir com precisão o que é realmente o país das imprecisões. Toda vez que se tenta, objetivamente, revela-se, sobretudo, a dificuldade. País refratário a objetivações, objeto não-identificável. Mas, às vezes, de um gesto espontâneo, de um clique, eis que... o Brasil se traduz. Como aqui, nesta imagem postada ontem, 04 de fevereiro, publicada pelo jornal belorizontino “O Tempo” neste início de ano. Feito de Charles Silva Duarte, lá da Zona da Mata mineira, que logo me surpreendeu e deixei entre os guardados virtuais. Um estádio, o estado da aura do Brasil. Alegre abandono, pré-pós fevereiro. Reproduzo aqui como homenagem a um arguto fotógrafo e como índice deste novo layout, mais lúdico, mais leve.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

POLÍTICA NACIONAL | Malandragem

ANELITO DE OLIVEIRA - Desde o final do ano passado, não temos mais presidente da República, mas um cabo eleitoral de uma presidenciável. Tal é a dedicação de Lula à nova causa que não há tempo sequer para analisar, mesmo dentro dos limites da política, a natureza dos fatos que se lhe apresentam no momento. Responde a todos no calor da hora, com a finalidade maior de persuadir os gentios pelo país afora. Crise: não deixe de consumir; jornais: ler dá azia; pernambucana na Suíça: racismo intolerável; Battisti: Brasil é soberano; e para todo o resto: não se mexe em time que está ganhando. Chávez, por exemplo, não se mexe – ainda mais agora. Mas ainda bem que não estamos na Venezuela e é possível investir contra o discurso do presidente, com a intenção explícita, necessária, de desmascará-lo.
O que Lula está tentando e tentará no biênio que está se iniciando é simplificar todos os fatos para que um fato apenas se torne relevante daqui pra frente, ganhe fumos de verdade: o projeto Dilma presidente. Simplificando tudo que está na ordem do dia, toda uma série de acontecimentos que tende a configurar um dos momentos mais difíceis da história neste início de século, Lula pretende construir um fato que, na verdade, ainda nem existe. Sabe, no fundo, o quanto é difícil produzir um presidente da República em apenas dois anos, sobretudo em função da matéria-prima com que está lidando: mulher, pequeno-burguesa, impopular, autoritária, prepotente, características que plástica, meditação, sorrisos forçados e frases de efeito dificilmente conseguirão extirpar, obviamente.
Hoje autêntico populista, com todo o caldo demagógico do que há de pior na história política do país correndo solto nas veias, Lula entende que o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) é mais do que suficiente para tirar Dilma dos 13% de intenção de votos atuais e levá-la à vitória ano que vem, seja quem for o adversário tucano. De um lado, obras e mais obras faraônicas; do outro, toda a comunidade peemedebista, com seus probos administradores, nadando em dinheiro pelo interior do país. Para Lula, agora mais do que nunca, não importarão, no processo eleitoral que ele mesmo está inaugurando, os meios, mas apenas o fim, a eleição de Dilma. Seu PT, inclusive, ou o que dele ainda resta, não importará de forma alguma, referência decorativa.
Todavia, parece latente que, no fundo, o fim que Lula está buscando é aquele que, na sua compreensão malandra da realidade social brasileira, mais tende a render para ele politicamente no futuro próximo. Dilma Roussef sagrando-se perdedora, mesmo depois de dar algum trabalho, Lula “venderá” para o seu partido e o mundo, como um consolo, seu velho discurso pronto: as elites, mais uma vez na história deste país, derrotaram o povo. Consequentemente, todos hão de pensar: para derrotar as elites, só mesmo Lula, em 2014, 2018, eternamente, a estrela, o mito insuperável. Incrível: até parece que Lula leu o extraordinário ensaio de Antonio Candido (como respeito a um dos maiores brasileiros de todos os tempos e fundador do PT), cujo título é – pasmemos - “Dialética da malandragem”.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

AFRICANIDADE | Festival Mundial das Artes Negras acontecerá em dezembro no Senegal

(MINISTÉRIO DA CULTURA) O ministro da Cultura interino, Roberto Nascimento, e o presidente da Fundação Cultural Palmares (FCP/MinC), Zulu Araújo, reuniram-se com o ministro da Cultura senegalês, Mame Birame Diouf, na tarde desta quinta-feira, 22 de janeiro, na sede do Ministério da Cultura, em Brasília. Em pauta, a programação do III Festival Mundial das Artes Negras (III Fesman), que acontece entre os dias 1º e 21 de dezembro de 2009 em Dacar, no Senegal, e que terá o Brasil como país convidado de honra.
Na reunião, as delegações definiram a data de lançamento oficial do evento no Brasil, que será dia 25 de maio, com as presenças dos presidentes dos dois países, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Abdulaye Wade, do Senegal. Definiram também a data da reunião do Comitê Internacional, nos dias 1º, 2 e 3 de março, com a presença do ministro da Cultura do Brasil, Juca Ferreira, e de Zulu Araújo, ambos coordenadores da comitiva brasileira do III Fesman.
O ministro brasileiro disse que é uma grande honra ser homenageado pelo Senegal, em função do histórico relacionamento do Brasil com o país africano, e destacou que o grande objetivo do Ministério da Cultura é estreitar cada vez mais os laços com os senegaleses. O senegalês Mame Birame Diouf ressaltou que a reunião é muito importante, pois está sendo realizada em um país escolhido para ser homenageado e que terá um papel relevante no Festival. "O Brasil tem uma liderança muito grande na América Latina e na Comunidade Negra, por isso esse encontro de hoje é primordial. O povo senegalês espera ansiosamente pelos brasileiros", disse.
O presidente da Fundação Palmares declarou que o MinC prossegue cumprindo rigorosamente o cronograma já acordado em outras reuniões. Segundo Zulu Araújo, já foram criados os Comitês MinC e Comitê Nacional para o Fesman, além da primeira disponibilidade financeira, da ordem de R$ 3 milhões. Zulu Araújo relatou ainda a previsão de dois grandes eventos pré-Fesman: o 1° Fórum Nacional de Performance Negra para a Dança e Teatro, a ser realizado em Salvador, e o 2° Encontro sobre Renascimento Africano, previsto para acontecer no Rio de Janeiro.
III Festival Mundial das Artes Negras - É a maior reunião das artes e da cultura negra do mundo. Foi idealizado pelo ex-presidente do Senegal, Léopold Sédar Senghor, na década de 1960, com o tema "Significação da Arte Negra pelo Povo e para o Povo"; o segundo foi realizado na Nigéria, em 1977, com o tema "Civilização Negra e Educação". Neste ano, irá homenagear o Brasil, com o tema o "Renascimento Africano". A homenagem se deve principalmente ao fato de o Brasil abrigar a segunda maior população negra mundial depois da África. A maior novidade desta edição é a grande repercussão que se dará ao evento com a participação de mais de 80 países. Quatro redes de satélites vão percorrer o mundo inteiro mostrando toda a programação, que será transmitida em cinco idiomas: inglês, francês, espanhol, português e árabe.

Mais informações: Luciana Mota RR-BA/FCP/MinC luciana.mota@palmares.gov.br www.palmares.gov.br 71-3322-3488 Comunicação Social do Ministério da Cultura.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

JORNALISMO | Entrevista com Hannah Arendt

ANELITO DE OLIVEIRA - O site Café História, que acabo de descobrir, apresenta um documento raro, postado por Rita Ramos (estudante de história, Brasília) no último 29 de janeiro: trechos da entrevista que Hannah Arendt, a singular pensadora responsável pela reconfiguração do pensamento político contemporâneo, concedeu a um canal de televisão alemã em 1964, uma longa e elucidativa conversa com o jornalista Gunter Gaus a que, coincidentemente, tantos estamos tendo acesso extamente agora através do livro "Compreender", coletânea de textos esparsos, produzidos dos 24 aos 48 anos, organizada por Jerome Kohn (Professor da New School for social research e diretor do Centro Hannah Arendt), tradução de Denise Bottmann, publicação da Companhia das Letras em parceria com a Editora UFMG. Excelente.


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