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sábado, 14 de março de 2009

POLÍTICA NACIONAL | Gente hipócrita

ANELITO DE OLIVEIRA - Compreendo e não entendo a presença de Gilberto Gil na comitiva de Lula que foi ao encontro de Obama neste sábado. Gil disse, na Globo, que tinha negócios a resolver em Nova York e que pediu uma carona ao presidente. Fato normal, é mesmo, entre grandes amigos ricos. Mas será que foi apenas isso? E, se foi apenas isso, será que tudo foi tratado nesses termos triviais de uma carona? Difícil acreditar numa falta de segundas intenções naqueles que vivem de administrar a vida dos outros. Quantos não gostariam de pegar uma carona no aerolula, ainda mais num voo histórico? E quantas milhões de passagens de ida e volta à capital mundial dos negócios um Gil pode pagar? As perguntas se multiplicam a cada movimento dos atuais donos do poder no país.
Lula, como se diz, não dá ponto sem nó. Gil também não. Misteriosos. A admiração de que possam ser dignos, nos planos político e cultural, não pode significar uma aceitação ingênua de suas ações quando estas estão definindo o presente e o futuro de tanta gente pelo país afora, jovens, adolescentes. E estão redefinindo também, por outro lado, nossa relação com o passado do país, mexendo com a percepção que tínhamos, estimulando-nos a questionar o que nós mesmos fizemos. No passado, víamos em figuras como Lula e Gil uma expressão de outro Brasil, de um novo sentido de nação, que precisava vir à tona de qualquer jeito. Lula na presidência e Gil no Ministério da Cultura era o plano ideal pelo qual tantos lutamos ainda que inconscientemente, não apenas petistas e artistas, como um juízo arbitrário e irresponsável quer entender.
Lula não fez o que esperávamos que faria na presidência. E Gil também não fez o que esperávamos que faria na cultura. Ainda não disseram por quê. Esperávamos, no fundo, aquilo que ambos pareciam ter competência e coragem para implementar: uma ressignificação decisiva do “habitus”, para lembrar Norbert Elias, da esfera dos costumes, no país. Gil pegando “carona” com Lula é prova suficiente e humilhante, para quem tanto apostou neles, de que nada mudou, de que continuamos no país da “cordialidade” tensionada por Sérgio Buarque de Holanda, onde poderosos e esfomeados, senhores e escravos, irmanam, malandramente, em torno de um mesmo projeto hipócrita, mesquinho, deplorável. “Gente hipócrita”, realmente, como cantava raivoso (encenação, claro) Gilberto Gil nos nefastos – agora sim, entendo - anos 80 da nossa ilusão.

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