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segunda-feira, 7 de junho de 2010

POEMA | Elegia para Wilson Bueno

Assim se mata um homem:
com uma facada no pescoço
Assim se mata um homem:
com uma facada bem no pescoço
exemplarmente, estrategicamente,
Assim se mata um homem:
à traição, por trás, bem de perto,
de um modo certeiro, de uma vez,
Assim se mata um homem:
na sua própria casa, na sua
sala, no seu mundo particular,
lá!, onde era, podia ser, todo,
Assim se mata um homem:
para que todos saibam depois,
muito tempo depois, para que um
irmão o encontre, para que ninguém
possa salvá-lo, para que um irmão
possa se encontrar com o terror
e se despedaçar, para que todos
saibam que ninguém está seguro
neste mundo, para que todos
saibam que a casa é parte do
mundo, mas enfim, enfim, para
que todos, ingênuos, cínicos,
trouxas, saibam, no seio da
classe média brasileira, que país
é este, mata-se um homem como
se mata um bicho, de um modo
selvagem, mata-se não mais um
homem, mas um homem outro, não
um homem outro a mais, mas um
dos últimos homens outros num tempo
de desumanizações, como prova da
desumanização cotidiana, por
isso mesmo mata-se um homem
como se mata um porco, mata-se
um homem assim, com uma
facada na garganta, para que
o jorro de sangue corra pela face
e se confunda com as lágrimas,
para que, como água de represa agora
aberta, desrepresada, agora em
fúria escorra e inunde, porra!,
a terra toda de realidade, da
realidade dos realistas, da estúpida
realidade dos realistas capitalistas
racistas machistas, para o triunfo
dessa insuportável realidade, mata-se
um homem que resistia à realidade,
que desobedecia a realidade, que
desrealizava a realidade, mata-se
um homem com o rigor brutal da
realidade, com uma facada no
pescoço, para deixar bem claro,
uma vez mais, como a realidade é,
como a realidade age, o que é a
realidade, a barbárie, o sangue,
o crime, o sofrimento, a dor, a dor,
Assim, para que não fique nenhuma
dúvida sobre o poder destruidor
da realidade, assim, sangrando,
mata-se um homem, fazendo-o
urrar como um boi no matadouro,
castigando-o impiedosamente até
cair como um pedaço nojento de
carne e osso, como um castigo por
ter ousado sonhar, por ter sido um
sonho andante, como um castigo
por ter ousado sentir, por ter
sido um sentimento ao vivo,
enfim, como um castigo por
ter sido apenas e apenas ter
estado para ser, condena-se
e mata-se na surdina, na própria
casa, covardemente, de um
modo vil, condena-se e mata-se,
com uma facada bem no pescoço,
com uma perversidade que só
o mais animal dos animais, só,
ninguém mais, o bosta absoluto,
o racional, o civilizado, o crente,
o fiho de Deus, o que crucificou,
por amor a Deus, o próprio filho
de Deus, uma perversidade que ele,
o mesmo homem, o homem ele mesmo,
só ele consegue ter, com essa perversidade,
mata-se um homem outro, não um
outro homem apenas, não mais um
homem outro a mais, um artista,
Assim, com uma facada fatal bem
no pescoço, rasgando a voz,
decapitando grotescamente a fonte
de humanidade, mata-se um homem
outro para deixar bem claro, mais
uma vez na história, que os homens
outros (Cristo, Trotski, Lorca, Che,
Malcom) não têm lugar neste mundo



Anelito de Oliveira
Foz do Iguaçu, manhã-tarde de 02/06/10,
Céu do Brasil, trajeto Foz do Iguaçu-Rio de Janeiro,
entardecer de 03/06/10

sexta-feira, 7 de maio de 2010

RESENHA | Vontade de clareza

ANELITO DE OLIVEIRA - Lançado no final do ano passado em edição da Nankin, A casa deles, coletânea de contos de Ana Paula Pacheco, marca a estreia na ficção de uma autora que já publicou em 2006, pela mesma editora, o ensaio Lugar do mito, sobre Guimarães Rosa. Seus contos vinham aparecendo em revistas literárias nos últimos anos. Foram cultivados pacientemente até tomarem a forma que, pela precisão de linguagem e pelo equilíbrio da voz narrativa que ostentam, parece ser realmente deles, não do gênero literário, dos leitores, do sistema, da convenção vigente, enfim.
O sentido de pertencimento que se enuncia no título pinçado no Kafka d´A construção e explicitado em epígrafe (“Aqui não importa que se esteja na própria casa, pois o fato é que se está na casa deles”) é relevante para a compreensão desse livro repleto de sutilezas, que, no fundo, muito pouco tem a ver com a prosa mais celebrada atualmente, sempre com sabor de novela da globo e cinema americano. Trata-se de abordar, n´A casa deles, o que está fora do domínio, digamos, do narrador, aquilo – sensações, condições, situações – que é de outrem, que é “deles”, e que o narrador quer apenas perceber de perto, em detalhe.
Para tanto, esse narrador se aproxima cuidadosamente dos seus temas, como se deles nada conhecesse, numa atitude de recusa aos pré-juízos inerentes ao “ser social” (Lukács), as senhas comuns, afinal, da sociabilidade. A cada passo, revelam-se, de modo natural, dimensões significativas da vida cotidiana no mundo urbano: crueldade (“Água”, “Cães e gatos”, “Supergato”, “A 20.000 pés”), solidão (“A outra avó”, “Benedita Pingas”), amor (“Ele”, “Medida”), autoconhecimento (“Centro”, “15 x 15”), morte (“Copos brancos”, “Elevador”, “Copos brancos II”).
Obviamente construída - e desprovida de ímpetos de mascaramento desta fatalidade moderna -, a naturalidade da linguagem nos permite uma compreensão desinteressada daquilo que estamos acostumados a ver a partir de um único ângulo, sempre de modo “familiar”, pejorativo, empobrecedor. Não vemos, por exemplo, a viúva de um Brigadeiro do último período militar no país, tema do sarcástico “A 20.000 pés”, pelo ângulo de depositária de uma memória outra sobre o Brasil. Tampouco vemos uma mendiga, tema do lírico “Benedita Pingas”, pelo ângulo da afetividade, como sujeito que teve lá suas felizes experiências amorosas.
Ver de novo parece, de fato, ser um projeto narrativo nesse livro atravessado por uma vontade de clareza sensível, digamos, diretamente vinculado a uma tradição da objetividade na prosa brasileira que remonta a Machado, passa por Graciliano e Dyonélio, sofistica-se em certo Rosa, certa Clarice e certa Lygia até encontrar em Raduan Nassar, Zulmira Ribeiro Tavares e Modesto Carone, nas últimas décadas, seus principais nomes. Ver de novo, não para “corrigir” o já visto, mas para despertar dimensões adormecidas do visível, procedimento de que são exemplos os contos “Duas negras” e “Jardim”, duas pequenas obras primas do trabalho narrativo hoje.
Tema e estilo aproximam as duas narrativas: exploram relações familiares de modo reflexivo, colocando em relevo elementos que tornam essas relações relevantes para a compreensão da condição humana, que contribuem para que a “casa deles” se transfigure em casa nossa também, constitua uma imagem da casa dos humanos em geral, do mundo. Em “Duas negras”, esse elemento é a devoção de duas mulheres ao trabalho doméstico; em “Jardim”, é a paradoxal intimidade e repulsa na relação entre pai e filho, o drama, em clave pós-dramática, da alteridade.
Vendo de novo, pela lente de Ana Paula Pacheco, temas tão “batidos”, conseguimos perceber, sobretudo, a produtividade do “estranho”, no sentido freudiano do “unheimilich”, nas relações familiares, como aquilo que não se sabe, o indefinido, atua decisivamente sobre a identidade do sujeito, mantendo-o harmonizado consigo mesmo. Tanto em “Duas negras” quanto em “Jardim”, encontramos um narrador que transita com admirável lucidez pelo labirinto do sentido e do aparente nonsense, cônscio de que luz e sombra, realidade e fantasia, são partes indissociáveis do real, que, por isso mesmo, não poderia deixar de ser complexo.
Na contramão daquele “narrador enganoso” postulado por John Gledson a propósito de Machado, encontramos nesses dois contos, como ápice de um processo que permeia a coletânea, um narrador que se esforça para não se enganar e, consequentemente, não estabelecer uma relação cínica, irresponsável, aética, com seu leitor. “Dizem que um narrador que vê com os próprios olhos”, lemos em “Duas negras”, “tem mais direito às suas dúvidas. Em determinadas situações, penso ser o mais indicado. Para contar uma história entre duas mães, não seria dispensável a isenção”. E, assim, podemos ver a questão central da formação sócio-histórica brasileira, que é a racial, para além dos estereótipos corriqueiros.
Sem sobressaltos, como quem não quer nada, o narrador de “Jardim” enuncia a dificuldade maior de, narrando, não se enganar, recorrendo, para tanto, à poesia: “Ele combinava com aquilo tudo porque sua figura cinzenta trazia uma certa leveza, um traço rápido porém vigoroso, sem violência ao quadro em volta. Algo da poesia do engano, como o que falei sobre o concreto ao ar livre, coberto de verde. Mas poesia tem limites, não posso deixar que me traiam por causa dela”. A questão, para o narrador de Ana Paula Pacheco, não é apenas narrar, mas narrar o que realmente conta, significa e acrescenta em meio a um mundo de signos enganosos.



Texto publicado no jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 01 de maio de 2010.

sábado, 17 de abril de 2010

POLÍTICA | Mais uma besteira

ANELITO DE OLIVEIRA - Há quase oito anos, Lula diz suas besteiras diárias e nós, a maioria numérica da população, esforçamo-nos para compreendê-lo, como se esta fosse nossa condição “sine qua non” de brasilidade: estar do lado do Brasil passou a significar não discordar do que o presidente espontâneo diz. Na recente Conferência Nacional de Educação em Brasília, Lula voltou a se gabar de ser o presidente que mais fez e faz pela educação, a tal ponto que considera difícil, quase impossível, ser superado.
Com a modéstia que lhe é peculiar, disse até que gostaria de ser superado, mas não há ninguém neste país para superá-lo, especialmente em função do seu histórico: o primeiro presidente sem diploma universitário – e mais: com um vice da mesma estirpe. Lula exemplifica a grandeza do seu governo em matéria de educação com as muitas universidades federais que criou, com o programa de reestruturação de universidades, o Reuni, e com programas de apoio a alunos de faculdades privadas, como FIES e ProUni.
De fato, é inegável a realidade nova no ensino superior hoje, sobretudo no que diz respeito ao acesso tanto a instituições públicas quanto privadas. A política de cotas para negros e programas de educação a distância, como a Universidade Aberta do Brasil (UAB), têm dado uma contribuição inestimável para esse processo – que vai além da questão financeira – de acessibilidade ao ensino superior, imprimindo, em meio a polêmicas de vária ordem, uma outra feição curricular, metodológica, espacial e pedagógica ao meio universitário.
Tudo isso é realidade nova, mas não chega a configurar a necessária revolução na educação brasileira porque, naturalmente, ensino superior não corresponde à totalidade da educação, mas apenas a uma parte – bastante pequena, inclusive, num país continental. Mas Lula se dá por satisfeito, não só porque é de responsabilidade da União a educação superior, cabendo às unidades federativas e aos municípios a responsabilidade, respectivamente, pelo ensino médio e fundamental. Por que, afinal, essa satisfação?
Não é preciso ser especialista em nada, educador ou educando, nem mesmo ter diploma de curso superior ou inferior, para perceber a precariedade do sistema educacional brasileiro como um todo: escolas públicas, faculdades e universidades que são, em sua maioria, excelentes praias baianas, fumódromos cariocas, passarelas paulistas, quitandas mineiras e sucursais de grupos econômicos, menos instituições sérias, comprometidas com a produção e difusão de conhecimento, empenhadas na formação de legítimos cidadãos para transformar, desde as entranhas, a sociedade brasileira.
A verdade é que, como nunca na história deste país, o sistema educacional está impotente diante de uma sociedade que se complica cada vez mais, exigindo pesquisas rigorosas, propostas ousadas e soluções consistentes. A razão prática, clara, dessa impotência é a desvalorização salarial do trabalhador da educação – professor, pesquisador, técnico-administrativo -, que é previsível no âmbito privado, mas é simplesmente inconcebível no âmbito público. Uma realidade histórica que Lula, numa gritante traição ao processo que o consagrou, sequer se esforçou para alterar.
As greves constantes na educação são apenas demonstrações mais eloquentes do mal-estar dos trabalhadores da área, efeitos de uma causa que poucos conseguem entender e, num exercício de ignorância interessada, perguntam: o que querem os professores? Com certeza, não querem altos salários, motivo pelo qual acabam voltando às suas atividades normais depois de míseros reajustes ou não, engolindo as mágoas secas e repondo aulas. O que os professores querem é o reconhecimento real, não apenas retórico, do lugar essencial da educação na sociedade, que se traduziria num salário justo e em investimento em ensino, pesquisa e extensão.
Por não ser professor, por ser um presidente sem diploma de curso superior (e que gosta muito dessa condição), Lula não tem esse tipo de percepção, coisa de idealista. Fala de educação como quem fala de – sempre! – futebol: descontraidamente, irresponsavelmente. Está satisfeito com o que fez e faz porque sabe que “suas” universidades, em sua maioria, são reinos amigos, comandados por gente interessada nos muitos esquemas, redutos de mesquinhos. Sabe que os banqueiros que lucram com a educação universitária privada estão felizes como nunca. Sabe, enfim, que mentira repetida à exaustão acaba por se tornar verdade incontestável no país do oba-oba.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

POESIA | Alguns

A Valentim Facioli



Alguns não podem tomar partido
Porque já são o partido

Alguns não podem tomar partido
Porque já estão partidos

Porque são o que o partido fez
Com eles com elas com todos

Com todas que o partido filiou
Onde quer que tenha atuado

Ou ainda esteja atuando, eles,
Elas, os alistados do partido,

Agora são apenas uma parte do
Processo que os partiu, não são

Mais o que eram um dia, foram
Partidos como madeira bruta em

Carvoeira, foram partidos ao
Meio, ao lado, ao centro, abaixo,

Ao fundo, em cima, partidos a
Golpes de machado, partidos

Aleatoriamente e, à maneira
Histórica, queimados, nas cinzas,

As partes desiguais vão revelando
O processo que se processou,

Partes que já não pertencem a um
Mesmo todo, pedaços de muitas

Árvores de uma mesma vida agrária,
Que o partido sempre exaltou nos

Movimentos pela cidade, que agora
Se desconhecem porque foram

Reduzidos a partículas contraditórias
Porque foram convertidos em coisas

Que agora se confrontam num só
Corpo que agora não cabem num

Mesmo corpo, o corpo do homem
Partido, do precariamente humano,

Para alguns, não há partido a tomar
Porque já tomaram todos porque

Já partiram tudo que tinham a partir,
Para alguns, não é mais possível

Tomar partido como expressão de
Determinada causa porque não há

Mais a dimensão da causa, não há
Uma verdade em causa, há apenas,

Como efeito das tantas causas, este
Desconhecimento do que se é no

Mundo agora com suas velhas urnas
Cercadas pelos mesmos candidatos


Anelito de Oliveira

domingo, 4 de abril de 2010

RESENHA | Poesia-baleia

ANELITO DE OLIVEIRA - Os trabalhos de Guilherme Mansur, um dos raros poetas em atividade ainda dignos de nota, são sempre desconcertantes, tanto pelo que revelam quanto pelo que velam. Quando nos encontram (porque se dirigem a um encontro com outrem pelo mundo), logo nos inquirem em muitas dimensões – cultural, ambiental, humana. Não é fácil, diante de criações tão sutilmente pensadas, formular uma resposta no mínimo razoável. Há um risco muito grande de, por excesso ou escassez, desviar do horizonte ultra-sensível que o poeta põe em relevo nos muitos suportes com que lida – instalação, cartão-postal, jornal, livro etc.
No final do ano passado, apareceu, produzido pela Gráfica Ouro Preto, “Bahia baleia”, um caderno de “haikais e deZENhos da caixa de cachalotes, movidos por um encontro com as baleias jubartes”, como se lê na abertura, na Ponta do Apaga Fogo, em Arraial d´Ajuda. Encontro insólito, que encontra (e isso é de grande importância) uma sintonia no produto livro, também insólito, como os demais de Mansur, construído de modo afim do artesanal, não como mera nostalgia da aura, mas como uma espécie de ultrapassamento dos lugares comuns da técnica, no caso, da técnica consagrada pelo mercado editorial.
Coisa para ver antes e para ler, nesta sequência, “Bahia baleia” se impõe pelo formato horizontal, pela economia de signos, pela tensão entre preto e branco, pela aspereza do papelão na capa, pelo peso do papel branco do miolo, enfim, pela sua consistência de objeto. Somados, esses elementos realçam a sobriedade de uma poética que, cultivada ao longo de mais de três décadas, encontra-se seguramente no seu ápice livresco, em termos de produtividade semântica no espaço-livro. No “corpo” dos haikais, o poeta inscreve seu desejo de fazer nas palavras, não com estas, algo além das palavras.
Alargado por traços estranhos, esse “corpo” dos textos acaba por figurar, a partir de uma perspectiva includente, a dimensão extramundana das baleias, seu “corpo” excessivo aos olhos cartesianos da humanidade moderna. Nesse trato do “material” baleia, para lembrar os formalistas russos, o “procedimento” animalizante de Mansur revela sua singularidade: não se trata apenas de falar de uma espécie em extinção, mas de fazer baleias nas palavras, de enunciar uma poesia-baleia. Nesse processo, no qual se conjugam a delicadeza do poeta e a densidade do artista gráfico, as palavras são a metade de uma arte, cuja outra metade é um silêncio crítico.
“Bahia baleia” não nos diz tudo, não é plenamente discursivo, apenas em função da brevidade que distingue a forma haikai, mas porque é produto de um poeta mallarméano, para quem o ideal continua sendo sugerir, um modo de preservar o objeto do dizer. O silêncio que ali se encontra é, portanto, de natureza estética, fundamentalmente, mas não só: no vestígio dessa natureza, uma outra se apresenta, que é aquela de ordem ética. Os haikais de Mansur estão investidos de uma indignação em face das agressões ambientais de um modo geral, e do extermínio de baleias, em especial. No fundo, essa indignação constitui, para o poeta aqui, um problema poético.
Este problema talvez possa ser formulado, em termos sintéticos, assim: como dizer o horrendo, a realidade, sem desdizer a beleza, o encantamento? Mansur escreve num haikai: “ondas da bahia/ uma baleia salta/ sambaleia”, e noutro: “esqueleto na areia/ ossos de canoa/ restos de baleia”. O encontro do poeta com seu tema é tão prazeroso quanto doloroso, e o silêncio acaba sendo uma saída para a contenção tanto da exaltação – previsível – do eu quanto da sua – compreensível – indignação. Disso decorre a criticidade desse silêncio, que, precisamente, a mancha, deformando as palavras, presentifica: presença monstruosa, violação tecnológica do mundo natural, contra a qual o poeta se coloca.
Com estas sutis meditações sobre a condição das baleias, Guilherme Mansur logra meditar, evidentemente, sobre a própria condição da poesia num mundo “shopping center”, movido a interesses mesquinhos. Rara como baleias, a poesia também é uma espécie em extinção, ameaçada exatamente por aqueles que querem ver utilidade em tudo, pelo fato de ser um inutensílio, como Leminski, a quem Mansur dedica seu “Bahia baleia”, gostava de dizer. Mas, na sua solidão, o poeta resiste: “escritos sobre baleia/ leia você ou não leia/ mar cheio de baleias”.

sábado, 3 de abril de 2010

LITERATURA | Criação

A oferenda


Veja, e depois me fale o que achou. Deixou sobre a mesa e foi saindo. Nunca mais voltou. Não sei onde andará, se continua vivendo por ali. Minto: fiquei sabendo outro dia que continua vivendo por ali, que ainda anda na noite. Talvez não seja tão difícil sua localização, o mundo é pequeno, cada vez mais, as noites sóbrias. Não sei exatamente o que lhe diria, sempre me vem à lembrança a enfermidade daquele nosso amigo. A oferenda tinha a ver com ele, com o fim do século passado. Nunca soube por que eu, tão distante, deveria ver. Tampouco soube por que deveria falar sobre o que veria. Não sei se me ocupei dessa questão objetivamente naqueles dias, eram tantas coisas, tantas pessoas, tantas imagens. Mas agora, aqui, tudo chega a me intrigar. A força de uma intriga é o que há de mais intrigante num sujeito. A ponto de chegar a não haver mais autonomia do que intriga nem do que está intrigado. Devia ver. E, num tempo, vi. A primeira vez foi como se já tivesse visto, e fiquei pensando se tivesse sido como se jamais tivesse visto. Sentir isso era algo bastante óbvio, coisa de quem está cansado de significados. A segunda vez foi como se eu tivesse passado a vida inteira evitando ver o que via ali. Passei alguns dias inquirindo o que estava por trás da natural resistência a tantos encontros, refletindo sobre a razão de tantos desencontros. E então, na terceira vez, comecei a compreender que não havia distância entre ver e ser naquele instante, que tudo se amalgamava numa mesma instância, numa noite-viver. Evidentemente, eu me havia resgatado do fundo de um esquecimento involuntário, reencontrava-me depois de tanto tempo naquele olhar, especialmente. Lá, no lado de dentro da noite, o desamparo era uma forma fundante de conhecimento. No limite, a morte. Inútil, dolorido, tentar explicar acontecimentos, encenações de um mundo inexplicável. Apenas ver, devia ver. Viagem do século XX.

sexta-feira, 12 de março de 2010

LITERATURA | Criação

Não pense


Erra. Você não pode acertar mesmo. Desiste disso. Continue errando. Experimente errar de maneiras que ainda não errou. Errar é uma questão de maneira. Não de mania, como você quer pensar, às vezes. Essa sua pressa é sempre problemática.
Talvez seja mesmo a fonte fundamental do problema. Você é muito impulsivo. Você não aprendeu com ninguém. Nem mesmo trouxe do seu berço. Sim, digamos que você queira fantasiar um berço como parte da sua origem ursprung. Você é excessivamente educado.
Precisa errar mesmo até atingir um outro jeito de ser, mais certo sobre o que não é. Você tem muita certeza, barreira. Somente errando chegará lá. Siga por aquela rua, está vendo? Vá indo, indo, indo - até chegar lá na frente.
Quando estiver perto da Estação da Luz, não olhe pra trás. Você precisa entrar mais na cidade desconhecida, descer, girar, sentir. Você precisa conhecer um pouco do seu desconhecimento. Daqui de cima, tudo é muito triste.
Há que encontrar a noite onde ela se perde - pense nisto como uma verdade orgânica. Encontrar, há de, não para nomeá-la, mas para perder-se com ela, nela, em tudo. Quando a encontrar, deixará de ser totalmente você no mundo.
Não há dúvida, consciência, que seu medo reside aí. Mas você precisa enfrentá-lo, sob pena de não chegar nunca a lugar nenhum. Lá, onde você nunca esteve, tudo são entranhas intramundanas a sua espera. Para que tome parte, tem que atravessar o todo em que todos, tudo, perdem-se.
Natural que você não encontre o caminho: ainda não inventou esse caminho. Não tem caminhado - tem pensado. Errar é isso. Não pense que possa ser outra coisa. Pensar é.

quinta-feira, 11 de março de 2010

LITERATURA | Criação

O depósito

Chorava copiosamente, e não era um romance alencarino. A realidade, daquele jeito, estava ali. Bem de frente - ali. Olhava para ela como quem não pudesse fazer mais nada. Tudo estava feito, não tinha como refazer nada. Precisava aceitar que tinha acontecido. Ninguém acreditaria se tentasse dizer que não, que não lhe dizia respeito. Aquele olhar era uma forma de consolo: as pessoas erram, sabe como é, nunca estão totalmente concentradas em suas tarefas, cada vez mais atarefadas, mil coisas, stress, stress. Seu erro tinha sido dos mais humanos, precisava entender isso, nada de mais, apenas um vacilo. Não podia insistir em dizer que não tinha errado, tinha sim, e agora era o momento de reconhecer. Reconhecendo, assumiria a responsabilidade por aquilo. Tinha direito a contar sua versão, claro, claro, mas não destituiria o fato do lugar onde já estava alojado. Ela, a atenciosa atendente, estava ali para ouvir. Bebe água, bebe. Como não tinha nada dentro do envelope quando o abriram à noite?! Estava lá, ela mesma tinha se encarregado de organizar tudo, temendo exatamente que algo acontecesse, algo que jamais pudesse acontecer. Consultem as imagens de ontem, já foram consultadas, não apareço lá?, não temos certeza, como não?, estava muito cheio, uma multidão de gente, estive bem ali por volta de três da tarde, quero ver as imagens. Claro, poderiam permitir que visse as imagens, mas elas acabariam até por complicar a situação. Gostariam de pensar, para o seu bem, que talvez não fosse ela a única responsável pelo fato: alguém teria colocado o envelope em seu nome, digamos, uma hipótese, que alguém tivesse feito isso, normal. O importante mesmo não era o fato de ela aparecer ali efetivando o procedimento, tudo muito superficial, mas a qualidade da substância do procedimento. Tinha que pensar nisso, na qualidade daquilo, não na quantidade que estava em jogo. O envelope estava vazio, vazio, completamente vazio, sem nada, um absurdo! Quem acreditaria nela? Imagens, imagens! Melhor acabar tudo ali. Bebe mais água, bebe.

terça-feira, 9 de março de 2010

LITERATURA | Criação

A ameaça

Era preciso encontrar os pontos que ameaçavam o projeto, isolar um por um e submetê-los a uma análise rigorosa, ter clareza absoluta sobre causa e efeito de cada aspecto da questão, não deixar nada escapar, nada mesmo, qualquer vacilo poderia ser fatal, levar tudo pra água abaixo, entenderam?, e olhava como quem já sabia o tipo de reação que suscitaria naquele momento, deixaria os interlocutores surpresos, até perplexos, não tinham conhecimento profundo sobre construção de solidez, como algo nasce e cresce e cresce, sempre cresce, só cresce, como se negócio não fosse, como se fosse, na verdade, uma espécie de natureza, tão natural quanto a que encontramos no mundo, sem marcas de artifício, confundida com a percepção das pessoas de tal forma, de tal forma, vejam bem, que todos acabam trabalhando para o seu crescimento, para o crescimento desse mundo maravilhoso, todos felizes, todos sorrindo, rico ri à toa, mal sabem que, que, não, sim, a questão aqui é exatamente como não deixar que algo menor, insignificante, atrapalhe o projeto, eliminar, antecipadamente, quaisquer possibilidades de fracasso que possamos encontrar pela frente, elementos que possam inviabilizar o alcance dos nossos objetivos, que são muitos, devidamente distribuídos no tempo, curto, médio, longo prazo, o que queremos, afinal?, vocês sabem, sabemos, por isso estamos aqui, o que queremos justifica todo o sacrifício deste momento, é assim mesmo que as coisas começam, daqui a alguns anos, já com a solidez do empreendimento totalmente garantida, à medida que esse projeto fizer parte da vida cotidiana das pessoas, tornar-se um mecanismo de respiração, é, é assim mesmo, poderemos dizer, orgulhosamente, o quanto valeu a pena esta tarde de reflexão sobre aquilo que ameaça nosso projeto, foi pra isso que vieram aqui, não é mesmo?, a ameaça, acalmem-se.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

POLÍTICA | Perdidos

ANELITO DE OLIVEIRA - Devo atribuir o longo silêncio ao grau de intranquilidade que este ano naturalmente exala pelo país afora. A política não deveria ocupar o lugar que ocupa na vida de cada um de nós, como gostaríamos que não!, mas ocupa, e tudo tende a ficar mais brutal se insistimos em achar que não. No momento, encontramo-nos entre o pior, o mais pior e o pior ainda etc etc, uma situação que é, sobretudo, o escancaramento da política como destruição da política - palmas para Lula e seu PT alianceiro.
O que Dilma, Serra, Marina e Ciro - principais atores em cena - representam de autêntico, de diferente, de si-mesmo, em relação a Lula? Efetivamente, nada. Ninguém ostenta um projeto novo para o país, como se não houvesse mais possibilidade de novidade em termos societários por aqui, como se a história tivesse chegado ao fim com a ascensão petista ao poder federal.
O que Marina e Ciro, com seu desejo ardente de dizer alguma coisa comovente, dizem é o que, nos limites da situação, o Governo Lula tanto já disse. Ciro, com seu ânimo nordestino, acaba até por acrescentar algo em termos de repolitização da discussão, mas Marina, com sua toada climática, apenas alimenta um perigoso desvio das contradições sócio-históricas que demandam a ação política.
E estamos apenas no início de um ano com eleições para cargos executivos e legislativos, federais e estaduais. Sem dúvida, já vimos quase tudo em termos federais e alguma surpresa, se houver, surgirá em termos estaduais. E aí Lula entra novamente no jogo, como um fantasma onipresente - bom, para seus aliados, fãs, fiéis etc, mas péssimo para a política em si.
Lula entende que o importante é o PT preservar o comando do Governo Federal, garantindo a vitória de Dilma Roussef, deixando os Estados em segundo plano, nas mãos de aliados como PMDB, por exemplo. Falando bem a língua do presidente: os Estados devem funcionar como bucha de canhão para o PT ganhar a guerra.
Há nisso, antes de mais nada, um reflexo de concepção autoritária de poder que o PT, assim como os demais partidos no Brasil, trazem de nascença. Nessa concepção, para lembrar Hannah Arendt, o mandatário ocupa o topo da pirâmide, donde comanda seus subordinados, distribuídos entre os demais níveis.
Lula está pensando, então, na manutenção de Brasília, do topo da pirâmide federativa, e assim dá o golpe decisivo na cultura política de base que o próprio PT fomentou ao longo dos anos 80. Claro, já naquela década, o sonho - que Dilma e os assessores de Lula mais prestigiados não sonharam juntos com os então xiitas - era chegar ao topo da pirâmide, mas não para fazer o mesmo que todos que estiveram lá sempre fizeram: usar o interior do país, o Brasil profundo, apenas como massa de manobra para a conquista e manutenção de um poder paradoxalmente impotente: o que o PT fez ou faz nestes oito anos de impossível na nova ordem social mundial? Nada, absolutamente nada.
Claro que uma retomada da cultura política de base neste momento seria um gesto até dignificante para o partido, um raro presente de aniversário de 30 anos. Mas não. O PT, que em Minas Gerais tem um Patrus Ananias, com tantos quadros em SP e Rio, prefere concordar com o presidente pretensioso e provinciano em que Lula se converteu, o homem que reduz a complexidade inerente à política à banalidade do futebol, que só se interessa por gols, gols, gols: ninguém mexe em time que tá ganhando.
Estamos perdidos, para não dizer outra coisa.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

CULTURA | A alma do lixo

ANELITO DE OLIVEIRA - Começo aqui a nova safra, com uma imagem de Valdeir do Rosário no cabeçalho substituindo aquela de Sophie Calle. Trata-se de um dos 15 trabalhos da série "Os enjaulados", com a qual o artista mineiro investe numa inquietante ressignificação de imagens e suportes encontrados ao acaso em suas andanças por Belo Horizonte.
Na imagem acima, quem se entremostra é o poeta italiano Cesare Pavese (1908/1950), aquele que só saiu da "jaula" existencial pela via do suicídio. Outras figuras seminais do século XX foram pinçadas pelo artista, do fundo do monturo editorial com o qual convive diuturnamente, para essa série, como o crítico de arte pernambucano Mário Pedrosa (1901/1981).
Com uma obra já extensa, que vem se construindo discretamente ao longo das últimas duas décadas, Valdeir do Rosário nasceu em Bocaiúva (1968) e está radicado há vários anos em Belo Horizonte, com passagens pelo Rio de Janeiro e Diamantina. Artista versátil, transita, desde o início, pelo desenho, pintura, objeto, colagem, instalação etc.
Participou de algumas exposições coletivas na capital mineira nos últimos anos e de algumas iniciativas culturais, não chegando ainda a reunir seus trabalhos numa exposição individual propriamente dita. Essa pouca aparição pública é parte, sem dúvida, de sua personalidade artística, diz algo sobre uma conduta bastante particular.
Distante dos holofotes, é artista na contramão da cultura do espetáculo, envolvido pelo próprio fazer, exilado em sua própria arte. Tal postura já se insinuava em seus primeiros trabalhos, quando investia na exploração de temas estranhos não só em relação à arte brasileira, mas também em relação à cultura e ao meio-ambiente brasileiros.
Um dos seus primeiros trabalhos, realmente digno de atenção, foi a tela "Cangurus", índice de uma espécie de deslocamento de imaginário que acabou por se tornar uma constante na obra de Rosário. "Os enjaulados" são, certamente, índice desse deslocamento, que seria natural se se restringisse apenas a conteúdo, constituindo um procedimento irônico, arte que se faz com recursos da antiarte.
Todavia, a questão fundamental de Rosário não é a arte em si, mas a vida, e não a sua vida - o que resultaria numa atitude meramente lírica -, mas a vida em geral, não só a vida humana, mas também a vida dos bichos, a vida das coisas, a vida das cores, a vida do mundo, como se vê em séries como "Bichos sem conteúdo", "Livro aberto ao mar", "Todos sob tempestade" e "Mundo sobre mundo".
A "anima", a alma, aquilo que move a vida, é o que transparece como alvo do seu gesto artístico, seja no excesso de cor, na economia do traço ou na busca incansável de objetos plenos de sentido pelas ruas da cidade grande, numa vontade incontível de encontrar a humanidade imersa no lixo produzido a cada dia. Uma "matéria animada", para lembrar Giordano Bruno, é o que se ressalta na obra de Valdeir do Rosário.
Conheça o trabalho do artista no site http://www.valdeirdorosario.com.br/

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

LITERATURA | Criação

A proposta
Por aqui não acontece nada. E é por isso, por isso mesmo, está vendo?, que insisto em escrever. Há muita gente interessada em nada. Que nada aconteça. Que ninguém diga nada. Que todos fiquem em silêncio. Ou que todos digam futilidades. Dá no mesmo. Sempre se vai de nenhum lugar a lugar nenhum. Mas chega-se, assim, àquele lugar, àquele. Você sabe. Sabe bem onde fica. Aí. Esse lugar é político por excelência. Por isso mesmo censurado. Por isso mesmo intocável. Estremeceu, civilizadíssimo à mesa, diante daquela proposta. Enfiar o quê? É. Perigoso. Escandaloso e perigoso. Mais perigoso que escandaloso. Seria a revolução já. A frase, o berro, a frase berrante, tocava nessa imagem da intocabilidade. Dedo na toca. Enunciar o nada, provocar o desconhecido, tem dessas coisas. Desconcerta a ordem. Qual? A de cada um, obviamente. Não a ordem geral, a bandeira. A ordem interna. A que cada um internalizou. E daí a dificuldade de destruí-la. Sua destruição é a destruição da casa de cada um. E a casa, você sabe, é a vida de cada um. Destruir a casa é destruir a vida. A casa é a ética. Destruir a casa é destruir a ética de cada um. A casética, ou a éticasa, é um exterior no interior de cada um. Por isso mesmo, Sr., é preciso destruir a casa, a ética, a ordem, o interior para que algo, finalmente, possa acontecer. E o alvo, o ponto nevrálgico desse processo, é a ordem. A ordem que barra acontecimentos. A ordem que nada deixa acontecer. Mas o que acontecerá? Esse, aquele, estarrecimento diante da frase. Havia algo de coisal. Havia um sentimento de coisalidade. O mundo estava perto - no dedo. Agora tudo é discurso. Performance. Escrever é denunciar isso. O quê? O distanciamento do mundo. O desligamento, o desvanecimento disso. Estávamos ali - dentro do mundo. Tudo era muito sujo, vivo. Agora, nada.

domingo, 13 de dezembro de 2009

LITERATURA | Criação

Os inodoros
Entrou, como quem não queria nada, e nada disse. Tinham respostas para perguntas que faria. Sabia, e por isso mesmo se desviava deles. Não queria respostas. Perguntas? Já não tinha tanto interesse pela vida. Que ficassem com todas as respostas e perguntas em todas as suas variações. Tentava ver por cima deles, para além daqueles rostos previsíveis. Sentia alguma coisa, por certo, que passava por ali, mas não se restringia àquilo ali. Não estava exatamente nele o que sentia, e era um pouco da razão daquela chegada.
Súbito - segurando nas cadeiras, como quem deseja atravessar, seu jeito estranho de chegar. Mas estranhavam, estranhavam. Ele não era ele. Menos e mais, aquém e além. Estava fora de si mesmo. Mas era exatamente a resolução desse problema que interessava. Pensavam assim. Eis que a diferença irrompia nele como tal, uma desproporcionalidade. Caberia pensá-lo, talhá-lo, contê-lo. Novamente. Mais um dia. Tabalhar. Era uma questão de trabalho. Trabalhadores trabalhando seus semelhantes. Tinha um problema de funcionamento. Stress, stress.
Mas ele precisaria responder a impulsos lógicos, tudo é uma questão de lógica, lógica da vida. Na escala dos interesses, não da verdade. Ele, intransitivo, desinteressava-se pelo entorno. Ali estavam a sua frente. Nem amor nem ódio por ninguém. Respeito, óbvio, por qualquer coisa - deixa a coisa aí! Não viraria as costas. Sala pequena. Aproximava-se cada vez mais. E distanciava-se profundamente. Eram iguais, cópias. Eram terrivelmente iguais, como duas folhas de papel A4. Esforçava-se para sentir algum cheiro. Eram inodoros.
Mas eram educados, sem dúvida, por isso ansiavam por suas perguntas ou respostas. Como os feria aquela intransitividade! Ele não estaria ferido. Era o agressor - ele era o agressor. Nele, a humanidade se havia perdido naquele instante. Fera. Não ficariam ali, encurralados. Se tinham feito algo, se lhe tinham feito algo, tudo era justificável. Mas aquela situação era insustentável. Quem é você? Chega assim, de uma hora para outra, e nos olha como inimigos. Sim, eram inimigos. Um. Dois. Três. Todos - um reino inimigo. Não tinha nada mais a lhes dizer. Não eram dignos de ouvir.
- Então, vamos almoçar? -, disse o mais porco de todos.

LITERATURA | Criação

O retorno
O difícil era mesmo retornar. Ir não era tão fácil, mas até certo ponto era mais fácil. Mas retornar... difícil, como?. Havia muitos caminhos. Todos iguais e diferentes. Deveria escolher um deles, e caminhar. Estava a pé. Mas isso não significava nada. Se estivesse a cavalo, também sentiria a mesma dificuldade. Não sabia o que era andar a cavalo, mas sabia que também o cavalo faria o mesmo movimento de um lugar a outro. Qual? Teria que escolher entre muitos, não poderia escolher todos os caminhos. A pé, o fato de não dispor nem mesmo de um cavalo, situava a questão mais diante dele mesmo. Poderia andar menos ou andar mais. Poderia chegar facilmente aonde ia. Poderia se perder e não chegar a lugar nenhum. Era preciso escolher em face do próprio pé. O pé era, sem dúvida, um parâmetro fundamental nessa escolha. Estava a pé. Se tivesse pensado nisso realmente, não iria. Mas quando se quer ir, não se pensa tanto. Exatamente porque se sabe que não se vai. Exatamente porque se sabe que se fica no pensamento. Então, não pensara realmente no retorno. Tinha ido, e estava na hora de retornar. A pé. Ouvindo o próprio caminhar. Estaria sozinho por um longo tempo. Como isso lhe causava apreensão! Sozinho no caminho. Qualquer que fosse o caminho escolhido. Àquela hora, havia outras pessoas caminhando. Mas eram outras pessoas. Não o veriam. Também estariam sozinhas, ensimesmadas. Estaria sozinho. A pé, sempre se está sozinho. Inútil tentar se aproximar dos outros ao seu lado, também caminhando a pé. Estariam, a pé, encerrados numa distância intransponível. Ficaria em silêncio. O tempo todo caminhando em silêncio. Compenetrado em si mesmo. A apreensão se convertia em terror. Retornava ao mundo de onde tinha partido. Era melhor ficar ali. Parado. Olhando.

sábado, 12 de dezembro de 2009

CULTURA | Experiência de comunidade

ANELITO DE OLIVEIRA - A imagem no cabeçalho, de 2007, é de Sophie Calle, substituindo aquela de Maiakóvski, que ficou por um longo tempo contemplando, elegantemente, as coisas aqui. Tem sentido demais uma artista desconcertante entrando depois do poeta eternamente novo, incessante brilhar. Há aproximações possíveis - a interatividade, a alteridade, a espontaneidade etc -, mas não é isso que quero suscitar. A poética de Sophie Calle, elevando-se a partir de experiências de comunidade, colocou em relevo um referencial estranho à cena cultural brasileira neste momento. "Cuide de você", a exposição da artista que passou por São Paulo e Salvador, inscreve uma dúvida de ordem ontológica no rosto do sujeito, inquire-o na direção do ser. Solicitar a 107 mulheres uma abordagem da questão, tal como se processou o trabalho, é mais do que confessar que não se sabe o que é isso, o que é cuidar de si.
Mas o que é isso, afinal, isso de solicitar a outrem que diga aí, que pense sobre a questão que alguém, encerrando um relacionamento, enunciou? Pode ser um modo de sinalizar para uma compreensão de que o se é, o que se pensa que se é, é uma questão que diz respeito a outrem, é, portanto, uma questão ética por excelência. Mas, sendo assim, a ética não passa a constituir um entrave à afirmação mesma do sujeito, não passa a ser um parâmetro fadado a condenar o sujeito pela via do enquadramento na percepção do outro? Se a outrem cabe dizer o que eu sou, então não sou nem posso ser o que eu mesmo quero ser, não sou livre para fazer uma escolha fundamental, o que coloca esse trabalho da artista francesa na contramão da modernidade em termos ontológicos. Claro, nosso devir moderno sempre significou e ainda significa liberdade de poder ser, de ser tudo e nada, de não ser, também. Sophie Calle desvela uma espécie de horizonte intramoderno.
Por dentro, nas entranhas dos dias que temos vivenciado, no seio da experiência comum, na "comun-idade", não há uma identificação absoluta entre o que se diz e o que se é, mas um profundo distanciamento entre sujeito - o que enuncia em relação a um objeto - e ser - o que silencia em relação ao mundo. Assim se torna compreensível que um "Cuide de você" seja recebido com estranheza, como expressão sem significado suficiente, que pode ser decodificada a contento pela comunidade, por uma comunidade de mulheres, no caso. Desviar a questão de um sujeito e compartilhá-la com outrem, com o aval de uma compreensão aberta da arte, é atestar a necessidade de um enfrentamento verdadeiro de questões fundamentais que o próprio sujeito, imerso no cinismo cotidiano, já não consegue empreender. Só o ser, que porta a dimensão do cuidado, da "cura" (Heidegger), sabe o que é cuidar de si. Sophie Calle aguça esta compreensão.

sábado, 5 de dezembro de 2009

JORNALISMO | Micropolítica do afeto

ANELITO DE OLIVEIRA - Vejo que novembro já acabou e dezembro já está aí, derramando-se. Vai ficando cada vez mais difícil perceber a passagem do tempo. Parece que está tudo sempre igual, que todos os dias têm a mesma cara. Um fato apenas me provoca a pensar que não, que estes últimos sete dias são diferentes dos demais: a morte do jornalista, crítico literário e, antes de mais nada, poeta Alécio Cunha. Aconteceu por volta de meia-noite, sábado passado, em Belo Horizonte. Estava internado desde o início de outubro em função de um AVC, como comentei aqui em postagem anterior. Uma lástima!, e claro que é pouco dizer assim, soa como frase feita, uma terrível lástima!, pior ainda. O que dizer diante de uma morte tão prematura, aos 40 anos, sobretudo quando nos sabemos com o vício de considerar toda morte como fato antes do tempo? O que dizer para além do previsível? Não é fácil falar da morte, sobretudo quando se trata da morte de alguém que, na sua existência, revelou-se tão vivo, tão vivaz. Mas é preciso encontrar um jeito de falar - fiquei pensando estes dias - para intensificar a chama dessa vivacidade, para manter resistentemente acesa uma imagem.
Conheci Alécio Cunha através dos seus textos no jornal "Hoje em dia", onde atuou nos últimos 13 anos, por volta de 1996. Chamou-me a atenção a competência com que tratava informações relativas à poesia contemporânea, dos concretos para cá. Deve ter sido em 1997, setembro, nosso primeiro encontro pessoal, quando fui à redação daquele jornal divulgar o lançamento do primeiro número da revista "Orobó". Ao ser perguntado sobre mim - creio que pelo editor do caderno de cultura, Roberto Mendonça -, Alécio disse, naquele entusiasmo juvenil que tanto o distinguia: Anelito de Oliveira? Claro que conheço, do jornal "Não", lá da UFMG, dos textos no jornal "Estado de Minas", de amigos comuns etc. Atendeu-me com uma generosidade surpreendente, revelando uma consideração enorme por algo - minhas investidas artístico-culturais - que eu mesmo via a partir de um viés natural, sem ênfase, apenas como tentativas de fazer alguma coisa. Alécio revelava ali aquela que passou a ser, para mim, sua principal virtude profissional, aquilo que dizia que nele o jornalismo era, no fundo, uma questão de humanidade: o respeito pelo trabalho do outro.
Num período em que os media passaram por profundas transformações, de meados dos anos 1990 a esta primeira década dos anos 2000, o jornalista Alécio Cunha deu uma contribuição decisiva, na capital mineira, para a permanência da relação dos leitores com jornal impresso, deu estímulo novo a essa relação. Essa contribuição foi a inscrição de índices de personalidade, elementos de ordem ética e moral, na produção de notícias, de modo que o que Alécio reportava e escrevia vinha com suas digitais inconfundíveis, notícias com substância, sem o superficialismo noticioso que acabou por se rotinizar, e escritas com elegância, com um estilo próprio, informando e formando a um só tempo, ou pelo menos tentando formar. O “Hoje em dia” passou a ser, no âmbito do jornalismo cultural mineiro, uma referência de qualidade na cobertura de livros e eventos de literatura, tudo encontrando em Alécio Cunha uma recepção no mínimo sensível. A abordagem de Alécio – antes, no dia ou depois do fato literário se processar – tornou-se, pouco a pouco, um gesto sempre esperado por autores, editores, livreiros e leitores, uma espécie de carimbo de que algo – um livro, um lançamento, uma performance – realmente começava a existir.
Naturalmente, a atenção devotada por Alécio à literatura tinha a ver com o fato de que era poeta e leitor insaciável, mas tinha a ver, fundamentalmente, com uma compreensão crítica da sociedade contemporânea e da indústria cultural, do lugar que impulsionou a expansão do jornal e hoje autoriza sua própria estrangulação. O cuidado de Alécio Cunha com a literatura sempre me fez pensar - e agora ainda mais - que, para ele, a literatura era referência de um mundo outro ou, melhor, de um modo outro de estar no mundo, era algo de benjaminiano, aurático, viés que encontra ressonância em sua poesia inatualizante: “Lírica caduca”, “Mínima memória”. Na literatura, Alécio se relacionava, especialmente, com a poesia, abordando, noticiando, resenhando quase tudo que saía de poetas estreantes ou veteranos, relacionava-se, portanto, com a margem da literatura. A positividade com que enfocava o trabalho dos poetas era, sem dúvida, a alegoria de uma defesa da poesia contra a barbárie que, nestas últimas duas décadas, foi-se estabelecendo como princípio de sociabilidade no país. O poeta Alécio, demasiadamente humano, fez no seu jornalismo pontual aquilo que a maioria não consegue fazer na literatura, na universidade, na vida: uma cativante micropolítica do afeto.

domingo, 8 de novembro de 2009

LITERATURA | Criação

As maçãs
Suponhamos que havia muitos anos que esperavam por aquelas maçãs, diariamente reparando os caminhões passando carregados. Mestiços do Mucuri - nutrição, tanto quanto desnutrição, também é uma questão étnica. Ali estavam, pois, entre chorar e devorar - e, se chorassem, a polícia, as ongs, os políticos, podiam chegar. Toda uma geração, inúmeros, tornou-se imposssível discutir questões de direito.
Uns queriam caixas, e se lançavam de qualquer jeito, outros queriam apenas umas cinco unidades, mas também estavam afobados, queriam comer na hora, com as mãos sujas, lambendo os beiços. No fundo, havia um consenso em torno de uma espécie de significado do paraíso, o que era isso em termos estomacais. Antes era, e depois também seria, apenas a vontade, sempre em suspensão, de comer maçã - o inferno do desejo.
Estavam saboreando as maçãs, e gostariam muito, muito mesmo, que o motorista também participasse da ceia, enchesse a cara. Olhando nas ferragens, concluíam, pensando com ciência, que o motorista não se sentiria bem, ficaria com pena do dono da firma, sentimento de trabalhador, deixasse ele lá, pois, esmagado. Como esperaram por aquele milagre mediado por um desastre! Finalmente, Deus.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

CULTURA | O desmoronamento do IMS

ANELITO DE OLIVEIRA - Como receber a notícia do fim das atividades do Instituto Moreira Salles (IMS) em Belo Horizonte, com o fechamento do seu elegante espaço em pleno centro da cidade, senão como um desastre cultural de proporções nacionais? E como acreditar, por outro lado, que as autoridades públicas municipais, estaduais e federais, bem como setores da iniciativa privada, tenham deixado, estejam deixando, tal fato acontecer?
Talvez isso – a permissão do desastre - diga muito sobre a permanência no país de um desinteresse das elites socioeconômicas pelo acesso, por parte das pessoas em geral, a bens culturais que conscientizam, humanizam e transformam modos de estar no mundo. Para quê, sobretudo, transformar pessoas, principalmente pobres? São mais úteis ao sistema, sem dúvida, do jeito que estão, sem saber sequer de onde vieram, o que as distinguem das coisas – enfim, são mais úteis sem passar efetivamente pela “perturbação” da cultura.
O IMS foi, ao longo dos últimos anos, não só uma referência cultural em meio à brutalidade e banalidade cotidiana de uma metrópole, mas uma referência de modo outro, inteligente, de lidar com a cultura, muito diverso daquele exibido historicamente pelos órgãos municipais e estaduais, viciados no “pão e circo”. O IMS sempre ostentou uma compreensão altamente generosa de público, rompendo com preconceitos históricos e disponibilizando, para as pessoas em geral, obras de arte contemporânea, gestos literários e musicais dos mais elevados.
Sob a sensível direção do poeta Antonio Fernando de Franceschi – um homem raríssimo, da estatura de alguns dos maiores que este país já produziu, um Mário de Andrade, um Antonio Candido -, o IMS vinha desempenhando um papel de agregador e formador de pessoas pela cultura, oportunizando um envolvimento sóbrio, pensado, com a arte. Suas ações o distinguiram, desde o início, de espaços culturais públicos, como os Centros Culturais BH e UFMG, bem como o “engessado”, restritivo, Palácio das Artes.
Em BH como em outras cidades do país, os espaços mantidos pelo IMS configuraram, de meados dos anos 90 para cá, um exemplo extraordinário, sem precedentes, de responsabilidade sociocultural por parte da iniciativa privada. Franceschi, como fiz questão de lhe dizer tantas vezes, foi nosso Ministro da Cultura ideal ao longo deste tempo. E se tudo parece estar desmoronando ante o olhar cínico dos Governos, da mídia e dos “homens cordiais”, convencionais, é porque este país é mesmo, como Bianchi nos provou, cronicamente inviável.

sábado, 31 de outubro de 2009

JORNALISMO | Incidentes de outubro

ANELITO DE OLIVEIRA - O mês de outubro começou e terminou com dois incidentes terríveis em Belo Horizonte, os quais, além de me chamar a atenção, acabaram por me tocar, chocar, entristecer, por razões humanas e culturais: o AVC sofrido pelo jornalista, crítico literário e poeta Alécio Cunha e a morte prematura do artista plástico Fernando Fiúza. São dois dos nomes mais expressivos do cenário cultural e jornalístico da capital mineira, com uma contribuição extraordinária, constante, há anos, e pelos quais sempre tive respeito e admiração. Não cheguei a conhecer Fiúza pessoalmente; talvez o tenha até avistado alguma vez - sua imagem na foto (no "Hoje em Dia" de ontem, diário onde Alécio construiu sua brilhante carreira de jornalista cultural) me parece familiar, correspondendo, alias, à sobriedade que sempre percebi no seu trabalho.
Alécio Cunha, por sua vez, sempre foi um entusiasta das ações culturais que encaminhei ao longo dos anos 90 em Belo Horizonte: o jornal "Não", a revista "Orobó", os livros da Orobó Edições, o Suplemento Literário de Minas Gerais; foi o primeiro a revelar um olhar pró-ativo, na imprensa belorizontina, sobre a minha ida para o Suplemento, atitude que se manteve ao longo dos quase cinco anos em que estive à frente da criatura de Rubião, mesmo nos momentos em que, no próprio “Hoje em Dia”, o poeta Marcelo Dolabela, movido por questões menores, pedia renitentemente ao governador a minha “cabeça”. Super-sociável, Alécio, no exercício do jornalismo, sempre esteve ao lado da generosidade, da solidariedade, configurando-se como um exemplo de dignidade profissional.
Sempre me vi como um amigo seu e sempre o tive como um amigo raro, um grande companheiro de geração, um dos poucos em que se encontram inteligência e sensibilidade sinceras. Quando lancei meu primeiro livro solo em 2000, o fracassado Lama, Alécio estampou notícia e resenha na capa do caderno de cultura do “Hoje em Dia”. Quando publicou seu primeiro livro em 1999, o surpreendente Lírica caduca, escrevi uma resenha no Segundo Caderno do jornal "Estado de Minas", acolhida por um outro escritor e jornalista mineiro admirável, Jorge Fernando dos Santos, que a estampou com o título de “O peso e a prisão em Lírica caduca”. Com o título original – “O peso e a prisão” -, segue aqui essa reflexão sobre Alécio poeta nascente, na esperança de tantos outros encontros, projetos, conversas pela vida.

O peso e a prisão

ANELITO DE OLIVEIRA - O primeiro livro de Alécio Cunha, Lírica caduca (Por Ora, 1999), encontra seu mérito, sobretudo, na coragem de um “eu” confessar seu fracasso, ainda que, talvez, contra sua própria vontade: “(não suporto)” , está escrito ali no encerramento de um poema que parece se empenhar justamente em descrever uma paisagem poética, um cenário de poesia . O encerramento se conecta imediatamente com o título do texto, que é “Anjo manco”, o impossibilitado de caminhar normalmente, aquele que, arrastando-se, não consegue ir muito longe, logo se cansa e para. Realmente – pensamos ao final da leitura – era preciso que um “eu” se anunciasse para que aquele título alcançasse uma maior coerência: a caminhada é insuportável porque falta segurança nas pernas. Contudo, se não estamos no chamado “mundo real” de que falamos comumente e sim numa “realidade de signos” (Haroldo de Campos), é válido perguntar pelo motivo dessa insegurança.
Por força do lugar geográfico que o homem habita, este lugar-Minas, e da atmosfera poética brasileira que o artista respira atualmente, o poema de Alécio Cunha é concentrado em si mesmo, não nomeia nada além de seu próprio corpo que, na verdade, não passa de uma sombra, a ilusão de um corpo, um mito apenas, logo: o autor apenas deseja nomear quando pensa estar nomeando. A insegurança do poeta, seu reconhecimento metonímico indireto, como “anjo manco”, desestabilizado, demonstra uma certa insatisfação com essa incapacidade do poema, estabelecida pelos seus censores disfarçados, de nomear algo mais que si mesmo, de sair de sua sombra. Alécio Cunha não concorda com esse veredicto, não suporta esse quadro supostamente exótico, quer alcançar o fora do poema, trazer esse fora para dentro, mas o poeta, sua máscara-mecanismo para realizar tal gesto, é manco, falta-lhe agilidade para dar o salto, falta-lhe aquela “rapidez” sustentada por Ítalo Calvino como uma das qualidades estéticas fundamentais para o próximo (este) milênio.
Desta visada, outra questão se apresenta, colocando-se mesmo como pano de fundo do mínimo drama do poeta: a tradição poética, que tem inegável presença no trabalho em questão, é um peso, mas o instante poético, a atual cena neoparnasiana que se verifica no Brasil, é uma prisão. Depreende-se um posicionamento ativo diante da tradição mais longínqua e mais recente em poemas como “Pós-Baudelaire”, “Nau Caetana” e, principalmente, “Lendo Drummond”, que tem a astúcia sempre desejável de articular texto e lugar: “exigir da pedra/nenhuma explicação/ pelos caminhos”. Dir-se-ia que o poeta tem consciência de que é preciso desdizer, romper com uma “lírica caduca”, bem como é preciso colocar algo no lugar, pois esse algo é que denuncia a presença de alguém por trás de uma linguagem. É preciso dizer, mas dizer o quê? De uma latente incerteza decorre uma frustração generalizada neste primeiro livro de Alécio Cunha, um constante “fracasso-êxito” (Sartre) que aponta para uma colocação do desatino da existência moderna antes das convenções morais pós-modernas.
Frustração encontra-se, por exemplo, no final do poema que dá título à pequena coletânea, “Lírica Caduca”, e em “Geográfica”. No primeiro: “há uma gota de sangue/em cada luar”; no começo e fim do segundo: “desesperar resposta/desesquecer o tapa/ (...) sumir do mapa”. Ambos estão longe de serem perfeitos do ponto de vista da construção, vão-se enfraquecendo lentamente como se quisessem desistir de sua própria realização, como se se realizassem a contragosto, um enfraquecimento que acaba por constituir o anteclímax da frustração final. No rastro dessa frustração é preciso ver, contudo, o traçamento de uma rápida cartografia da “agoridade”, do espaço-tempo que reúne o ontem e o hoje, passado e presente, Modernismo e Pós-vanguarda. Essa frustração é uma contribuição significativa do poeta Alécio Cunha, principalmente à medida que faz emergir Mário de Andrade (“Há uma gota de sangue em cada poema”) num ponto sanguíneo, o que parece estar dizendo, analogicamente, que o poeta só pode existir como tragédia, não?
Texto publicado no jornal Estado de Minas, Segundo Caderno, em 1999, aqui redigitado por Guilherme Fernando, menino nosso, que Alécio conheceu quando pequeno e sobre quem me perguntava duas semanas antes de adoecer, no mês de setembro último, quando nos reencontramos na redação do Hoje em Dia depois de quase cinco anos de distanciamento em função dos meus muitos deslocamentos.

JORNALISMO | 17 vezes ali havendo

ANELITO DE OLIVEIRA - De fato, chegou ao fim, há dias, o segundo movimento sob o signo do que estou entendendo por havência – e, desde então, contemplo o silêncio a distância de quem estranha. Estou reconhecendo, nesta última noite de outubro, que a 17a carta foi a última, deve ficar como a última, contrariando até a mim mesmo, que relutava que fosse a última: escrever é resistir a desistir, desejar o desejar. Mas continuar dizendo assim, tentando dizer – já que admito, de um certo horizonte, a possibilidade de nada efetivamente ter sido dito 17 vezes ali havendo -, seria ultrapassar o limite que, neste acontecimento escritural, interessa apenas forçar: além dali é surreal, ainda que ali mesmo o seja a seu tanto já também. O que há, uma havência, está no limite do que não há, da ausência. As cartas se destinaram a essa situação, a dar a ver uma cartografia do corresponder, a havência disso que se faz contra a solidão.